Abandonar o Facebook é mais fácil para países ricos

Rede social virou sinônimo de internet em nações mais pobres, mesmo com polêmicas sobre privacidade

Nina Jankowicz

[RESUMO] Embora seja palco de desinformação e de práticas de desrespeito aos direitos individuais e à privacidade, o Facebook tornou-se sinônimo de internet em muitos países pobres, tal a extensão em que permeia a vida de seus cidadãos. Desafio é tornar a rede social mais justa e democrática

Às vezes me sinto como uma crítica profissional do Facebook. Como pesquisadora da desinformação, os últimos anos de escândalos e passos em falso nas redes sociais levaram meu trabalho a ser visto como sinônimo das condenações públicas do comportamento da empresa. 

Da resposta da plataforma à interferência eleitoral russa à Cambridge Analytica, passando pela desconcertante resolução de Ano-Novo de Mark Zuckerberg de promover discussões controladas sobre tecnologia e sociedade, raramente tenho algo de positivo para dizer a respeito do Facebook. Bem que eu gostaria que fosse diferente; se tivesse mais ocasiões para elogiar, isso seria indício de que a internet estaria ficando mais justa e democrática. 

Apesar de o Facebook e outras plataformas sociais reiterarem publicamente que estão mudando de comportamento, não poderíamos estar mais distantes daquela utopia democrática online.

Frequentemente estou em boa companhia, na medida em que mais usuários das redes sociais tomam consciência de seus direitos e do pouco caso com que são tratados pelas plataformas.

Ultimamente, porém, minha desaprovação pública vem sendo contestada por um coro singular de pseudossábios ansiosos para me informar que é “isso mesmo, é claro que o Facebook é ruim, por que que só me dei conta disso agora?”. O pseudossábio da vez geralmente me informa que ele próprio foi presciente: deletou seu Facebook anos atrás.

Bravo! Eles não entendem, porém, que a capacidade de deletar contas do Facebook e a audácia em gabar-se disso não se devem a uma suposta superioridade intelectual, mas a condições privilegiadas. Para milhões de pessoas fora da América do Norte e Europa Ocidental, a realidade é outra: o Facebook é a internet. Deletá-lo equivale a jogar seu telefone no rio ou lago mais próximo e retirar-se para as profundezas escuras da selva.

A maioria dos usuários ocidentais de redes sociais provavelmente não tem consciência da extensão em que o Facebook permeia o cotidiano de outros países. Escrevo em Kiev, capital da Ucrânia, onde meu plano local de telefonia celular inclui acesso gratuito ao Facebook, ao Facebook Messenger e às suas subsidiárias, WhatsApp e Instagram, entre outros serviços.

Não se trata simplesmente de um bônus para atrair usuários à operadora —é uma necessidade, se as empresas de telefonia quiserem competir no mercado. Segundo relatório da agência de comunicações PlusOne, a Ucrânia é um dos mercados do Facebook que vem crescendo mais rapidamente, atrás apenas da Índia e das Filipinas. A rede tem 13 milhões de usuários no país, 8 milhões dos quais acessam a plataforma exclusivamente por telefones celulares.

Sem acesso gratuito à plataforma em seus contratos de telefonia celular, as empresas de telecomunicações estariam obsoletas. Por causa dessa gratuidade, os ucranianos recorrem a aplicativos pertencentes ao Facebook para suprir muitas de suas necessidades online. 

E os usuários ucranianos do Facebook não compartilham apenas fotos de seus cachorros, filhos ou férias —a plataforma funciona também como motor da política, dos negócios e de outros aspectos da vida profissional. A maioria das entrevistas que programei durante minha estadia na Ucrânia foi coordenada pelo Facebook Messenger. Em vários casos eu enviei uma mensagem de texto a um colega de trabalho ou à pessoa que queria entrevistar, mas a resposta me chegou numa mensagem do Facebook. 

 

Na Ucrânia, cada vez mais, a plataforma se torna a rede social para todos os fins. Enquanto americanos podem usar o email para sua correspondência profissional e o LinkedIn para contatos profissionais, os ucranianos se valem do Facebook também para essas finalidades, incluindo todas as suas credenciais e filiações profissionais em seu perfil.

O Facebook também está se tornando uma ferramenta cada vez mais vital para o discurso e a mobilização política. No passado, muitos influenciadores que se comunicam em russo, e também no idioma ucraniano, usavam o LiveJournal para escrever blogs sobre política. 

Hoje, como me disse em entrevista o especialista em mídia e ativista reformista ucraniano Igor Rozkladai, ucranianos transferiram suas discussões para o Facebook depois de o LiveJournal ter migrado seus servidores para a Rússia e começado a atender aos pedidos de dados feitos pelo governo do país. 

Os ucranianos passaram a usar o Facebook ainda mais para veicular discussões políticas a partir das manifestações populares no país em 2013 e 2014 e da anexação ilegal da Crimeia [península no sul da Ucrânia] pela Rússia. Os protestos começaram quando o ativista Mustafa Nayyem postou no Facebook um chamado à ação, pedindo aos cidadãos para saírem às ruas depois de o então presidente Viktor Yanukovich ter descumprido sua promessa de firmar um acordo de associação com a União Europeia. 

Apesar de a Ucrânia ser amplamente vista como laboratório da desinformação russa, seus cidadãos não abandonaram as redes sociais, pelo contrário. Apenas no último trimestre de 2018, segundo estudo da agência PlusOne, 1 milhão de novos usuários ucranianos criaram conta no Facebook. A rede é a janela da população para a política, para o trabalho e para o mundo. Tanto para o cidadão ucraniano comum quanto para esta jornalista que escreve na Ucrânia, deletar o Facebook não é uma opção.

A situação no país é algo que provavelmente soará familiar aos leitores do Brasil, país em que as operadoras de celular também oferecem acesso gratuito às plataformas de rede social. Minha colega Anna Prusa, do Brazil Institute do Wilson Center, me informa por email que, assim como ocorre na Ucrânia, “Facebook e WhatsApp são fundamentais no modo como os brasileiros se comunicam, desde grupos de família até comunicações profissionais”. 

Com o acesso ao celular tornando-se onipresente, mais pessoas hoje se comunicam quase exclusivamente por serviços baseados na internet. Mais de 83% dos brasileiros fizeram uma chamada de vídeo ou voz no ano passado por meio de algum aplicativo da internet.

Essa dependência gera consequências. A desinformação correu solta na eleição presidencial de 2018. Dispondo de pouco tempo na TV, a campanha de Jair Bolsonaro foi travada quase inteiramente nas redes sociais. O WhatsApp teve um papel essencial: segundo reportagem da Folha, empresários bancaram pacotes de disparos em massa de mensagens contra o PT pelo aplicativo, prática que viola a lei por ser doação não declarada.

Como na Ucrânia, um futuro no Brasil sem o Facebook e suas subsidiárias é quase impensável, escreve Prusa. A dependência é um perigo ainda maior em países menos desenvolvidos que esses dois. 

Por exemplo: um programa, da plataforma Free Basics, oferece uma versão controlada e gratuita da internet a usuários de países em desenvolvimento, com a alegação de “ajudar as pessoas a descobrirem os benefícios da conectividade”. 

Um relatório de 2017, feito pelo coletivo de mídia cidadã Global Voices, demonstra, porém, que o programa não é tão altruísta quanto parece. O Free Basics atende mais aos interesses do modelo econômico do Facebook que aos das populações sem conexão com a internet, concluíram os seis estudos de caso incluídos no relatório. 

O Free Basics não possui a adaptabilidade linguística básica necessária para servir cidadãos de países multilíngues, como o Paquistão. Promove conteúdos corporativos originados no Ocidente, mais notadamente o próprio aplicativo do Facebook. E coleta todos os dados gerados pelos usuários.

A despeito disso, o Free Basics ainda significa que, em países com baixa conectividade, o Facebook representa a internet inteira para milhões de pessoas —e a empresa avança rapidamente para conquistar as que ainda não alcançou.

Maria Ressa, fundadora do Rappler, site baseado nas Filipinas e atacado pelo presidente Rodrigo Duterte por ter trazido à tona campanhas de desinformação patrocinadas pelo governo na internet, conta frequentemente a história de uma conversa em que tentou explicar a Mark Zuckerberg, presidente-executivo do Facebook, o impacto desmedido da penetração da plataforma. 

Ela disse a Zuckerberg que 97% dos filipinos estão no Facebook e o convidou a viajar ao país para ganhar uma compreensão melhor dos perigos resultantes disso. Longe de reagir aos problemas que ela identificara, Zuckerberg disse: “E os outros 3%, o que estão fazendo, Maria?”.

Ucrânia, Brasil e Filipinas não podem abandonar o Facebook. Outros  países que não podem são Mianmar, onde o Facebook fez parte da desinformação que ajudou a desencadear um genocídio de muçulmanos rohingyas, e a Índia, em que notícias falsas veiculadas pelo WhatsApp são ainda mais generalizadas que no Brasil. 

Algumas das maiores democracias do mundo dependem do Facebook para a comunicação, independentemente da ameaça que a plataforma representa para seus sistemas políticos ou suas ecosferas de informação. 

É por isso que, apesar de entender que deletar o Facebook e suas subsidiárias pode ser visto pelos pseudossábios da internet como um sacrifício pessoal nobre, isso é algo que eu, provavelmente, nunca farei. Em vez disso, espero conseguir utilizar minha posição privilegiada para promover uma transformação positiva na plataforma.

Como especialista em mídias sociais e democracia, é crucial para mim conservar minhas contas no Facebook, Instagram e WhatsApp para poder entender em um nível íntimo os riscos que representam, para sentir empatia com as pessoas afetadas pelo vazamento mais recente de dados e para compreender como as plataformas influenciam meus próprios hábitos de consumo de informação. 

Somando isso a minhas pesquisas em países como a Ucrânia, posso lutar por um Facebook mais equitativo, justo e democrático, e, por extensão, uma internet mais equitativa, justa e democrática.

Os cidadãos do Ocidente e do Norte global precisam enfrentar os problemas do Facebook e não simplesmente deletar a plataforma. Ainda somos o principal mercado publicitário do Facebook, logo, sua principal fonte de receita. Os Estados Unidos são o país de origem do Facebook. As consequências da indignação de cidadãos americanos ou de regulamentação adotada pelo governo de lá serão sentidas pelo mundo afora. 

Sozinhos, talvez não sejamos capazes de impedir provedores de celulares de oferecer acesso gratuito à empresa de mídia social ou de impedir elementos mal-intencionados de manipulá-la, mas ao enfrentar e entender os riscos que o Facebook representa ao nível pessoal, podemos usar nossa posição privilegiada para tornar o serviço mais democrático para todos. 


Nina Jankowicz, escritora e analista, integra o instituto americano Wilson Center, onde estuda a intersecção entre tecnologia, democracia e o Leste Europeu.

Tradução de Clara Allain.

Esta reportagem foi produzida em parceria com o Pulitzer Center.

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