Biografia de Mário de Andrade antecipa centenário da Semana de 1922

Livro recompõe vida controversa do expoente do modernismo brasileiro

Eduardo Sombini

[RESUMO] Biografia do escritor, nome fundamental do projeto modernista brasileiro, nacional e cosmopolita, prenuncia onda de lançamentos prevista para as comemorações dos cem anos da Semana de Arte Moderna.

O ano de 2022 já começou —e não só por causa das movimentações relacionadas à próxima eleição presidencial. Nas artes e nas humanidades, o centenário da Semana de Arte Moderna de 1922, marco da formação da cultura nacional, promete renovar o interesse pela produção modernista brasileira.

Inscrita nesse contexto, a publicação da extensa biografia de Mário de Andrade escrita pelo jornalista Jason Tércio dá início a um conjunto de lançamentos e reedições sobre a Semana e o modernismo que certamente irá se avolumar até a efeméride dos cem anos do evento.

Lançado em agosto, "Em Busca da Alma Brasileira" é resultado de uma pesquisa de dez anos em arquivos históricos sobre a vida controversa do autor de "Macunaíma", que, desde sua morte em 1945, foi cercada de especulações, imprecisões e lacunas históricas.

Tela com retrato de homem usando terno e óculos
"Retrato de Mário de Andrade" (1922), de Tarsila do Amaral - Reprodução

Na síntese do biógrafo, Mário de Andrade era um oceano: líder da vanguarda modernista, poeta, jornalista, professor de música, diretor do primeiro órgão cultural do país (o Departamento de Cultura municipal de São Paulo) e responsável por inúmeras outras iniciativas. Na opinião de Tércio, Mário é um dos cinco escritores brasileiros mais importantes de todos os tempos.

"Se não bastasse, ele foi um católico ortodoxo, festeiro, carnavalesco, com uma vida sexual bastante polêmica. Conseguia conciliar os prazeres da carne com os prazeres do espírito", afirmou, em debate promovido pela Folha e pela editora Sextante na última terça (8), em São Paulo.

O biografado, de acordo com Tércio, se via de forma mais depreciativa. "Sou um vulcão de complicações" é uma das frases de Mário lembradas no livro. Em uma carta do inverno de 1928 a Manuel Bandeira, ele escreveu: "Não tenho confiança em nada de mim. É uma tortura de que minha família tem culpa".

Mário de Andrade percorreu a Amazônia, o Nordeste, as cidades históricas de Minas Gerais e morou no Rio de Janeiro entre 1938 e 1941, mas nunca deixou o país. Foi convidado a ir à Europa e aos Estados Unidos várias vezes, mas sempre encontrou uma desculpa. "Talvez tivesse receio de perder o amor profundo pelo Brasil", especula Tércio.

Essas recusas não significam, no entanto, que o expoente do modernismo tivesse uma convicção nacionalista avessa às ideias estrangeiras. Para Marcos Augusto Gonçalves, editor da Ilustríssima e autor de "1922 - A Semana que Não Terminou" (Companhia das Letras), o nacionalismo cultivado por Mário de Andrade era, ao mesmo tempo, radical e aberto ao exterior.

"Esse tipo de visão nacionalista permeável ao internacionalismo está muito presente no modernismo de São Paulo. Um certo cosmopolitismo dentro daquele provincianismo, que veio a marcar a cultura brasileira em seus momentos mais luminosos", afirmou.

Ruy Castro, colunista da Folha e escritor, ponderou que o início do modernismo foi fortemente influenciado pelas vanguardas artísticas francesas, já que a produção literária, musical e teatral dos modernistas ainda era incipiente. "Não me parece que em 1922 eles fossem nacionalistas."

Para Castro, autor de biografias de Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda, é preciso relativizar o que seria uma canonização de Mário. Ele argumentou que havia, antes de 1922, um "temperamento moderno no Brasil", incentivado pelas viagens frequentes da elite intelectual brasileira aos países europeus.

O escritor também destacou os vínculos dos modernistas com as oligarquias políticas que governaram o Brasil até a Revolução de 1930.

"Os modernistas estavam rigorosamente alinhados com a República do Café com Leite, com as oligarquias do café e do escravagismo. O próprio Mário de Andrade observou em 1942 que faltou preocupação social ao modernismo. Enquanto estavam preocupados em destruir um soneto e a colocação de pronomes, havia outros assuntos mais importantes a que eles não deram bola."

Jason Tércio afirmou que é equivocado atribuir às oligarquias paulistas o financiamento do movimento modernista, tema recorrente em leituras sobre o assunto. Para o biógrafo de Mário, as doações de famílias da elite do estado para a organização da Semana de 22 não foram vultosas e, assim, a vinculação que se difundiu na história do modernismo não se justifica.

Marcos Augusto Gonçalves sustentou que os artistas de 1922 estavam ligados à elite do café de São Paulo, e que a Semana "se inscreve em um contexto de projeção de São Paulo como liderança moral, intelectual e cultural do Brasil —porque econômica já era".

Gonçalves reforçou a visão, presente na interpretação do pesquisador Carlos Eduardo Ornelas Berriel (autor de "Tietê, Tejo, Sena: a Obra de Paulo Prado"), que vê numa parcela mais esclarecida e cosmopolita da elite paulista da época, alicerçada na economia do café, a perspectiva ideológica de uma burguesia "clássica", que pretendia formular um projeto universal para o país em formação. "São Paulo era uma cidadezinha, o Rio era uma metrópole. A Semana é São Paulo dizendo no terreno da cultura: o século 20 é nosso, nós somos o projeto de modernização do país".

De certa forma, a profecia se realizou, e a Semana de 1922 continua incontornável nos debates sobre a formação cultural brasileira.

Para Jason Tércio, o descompasso entre a riqueza cultural e o atraso político do país, evidenciado em 1922, perdura até hoje, o que confere atualidade ao movimento modernista. "A Semana de Arte Moderna implantou as bases de uma nação brasileira, que estava em formação, e acho que esse processo não se completou até hoje", disse. "O Estado brasileiro ainda não entrou no século 21."

Há, em sua visão, paralelos das consequências sociais das mudanças tecnológicas do início do século, que estão na base das teses defendidas pelos modernistas, e as transformações sociais relacionadas às tecnologias digitais de hoje —um dos principais motores do modernismo foi a superação de formas tradicionais de arte e pensamento por meio da incorporação de ideais de eficiência e progresso, que se disseminavam na esteira do mundo industrial.

O biógrafo de Mário de Andrade considera que revisitar as heranças da geração de 1922 pode ajudar a entender a cultura brasileira no período atual. "O modernismo como tese pertence à história. O Brasil é outro, mas a essência do espírito de renovação da história da arte continua valendo em qualquer época."

Em Busca da Alma Brasileira - Biografia de Mário de Andrade

  • Preço R$ 63,90 (544 págs.)
  • Autor Jason Tércio
  • Editora Sextante

Eduardo Sombini é jornalista da Folha.

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