Sem rivais, capitalismo se divide entre modelos de EUA e China

Livro ambicioso de Branko Milanovic analisa papel do Estado e desigualdades nas duas superpotências

Jovens em frente a uma loja da Louis Vuitton em um shopping center de Pequim, na China Lalo de Almeida - 17.mai.2019/Folhapress

Celso Rocha de Barros

[RESUMO] Em "Capitalismo sem Rivais", Branko Milanović aborda as duas grandes modalidades capitalistas contemporâneas, a liberal-meritocrática, dos EUA, e a política, da China. O economista não descarta que respostas ao coronavírus influenciem o futuro da disputa e avalia que os chineses vivem momento análogo ao da URSS quando lançou o satélite Sputnik.

O que aconteceu com o capitalismo desde que ele ficou sozinho no mundo, desde que o único outro “game in town”, o comunismo, desmoronou? Branko Milanović tenta responder a essa questão em seu livro mais recente, “Capitalismo sem Rivais”, sobre o qual conversou com a Folha em entrevista por email. A editora Todavia lança a obra no país na quarta-feira (3).

Economista, especialista em estudos sobre desigualdade, o autor trabalhou no Banco Mundial e hoje é professor da City University de Nova York.

Embora radicado nos Estados Unidos há muitos anos, Milanović é sérvio e viveu as primeiras décadas de sua vida na antiga Iugoslávia. Ao menos por algum tempo, observou o capitalismo ocidental de fora. Um de seus primeiros trabalhos de destaque, publicado em 1998, enquanto ainda trabalhava no Banco Mundial, foi um estudo importante sobre pobreza e desigualdade nas transições pós-socialistas dos anos 1990.

Branko Milanović, economista sérvio-americano e professor da City University de Nova York, em fórum da OCDE - OCDE - 29.mai.2018/Divulgação

Nas últimas duas décadas, Milanović se consagrou como um dos principais nomes no debate mundial sobre desigualdade —mais especificamente, no debate sobre a desigualdade global.

Nessas pesquisas, produziu com Christoph Lakner seu achado mais popular, o “gráfico do elefante”. Trata-se de uma imagem que ilustra o crescimento da renda de diferentes grupos da população mundial entre 1988 (próximo do início da atual onda de globalização) e 2008 (o ano do crash).

Para entender o gráfico, imagine que todos os seres humanos estão enfileirados, com os mais pobres à esquerda e os mais ricos à direita. Agora imagine uma linha passando por cima deles, tendo essa linha a altura da porcentagem em que a renda de cada um melhorou entre 1988 e 2008.

Olhando da esquerda para a direita, a linha vai subindo por sobre as cabeças de boa parte dos pobres do mundo e dos que escaparam da pobreza em países como China, Índia e Brasil. Mais ou menos quando chega na faixa de renda em que estão os operários do Primeiro Mundo (que são muito, muito mais ricos que os pobres de outros lugares), ela desaba. Esse pessoal ganhou muito menos com a globalização.

Continuando da esquerda para a direita, a linha volta a disparar para o alto: chegamos nos ricos do mundo (em especial, mas não só, os dos países desenvolvidos), que se deram muito bem com a globalização.

A linha parece desenhar um elefante: um monte alto, como o corpo do elefante, que desce abruptamente para formar a base de uma tromba que, logo depois, se projeta para o alto.

O gráfico do elefante ganhou notoriedade com a ascensão de governos populistas nos últimos anos no primeiro mundo. A Londres global, onde mora a ponta da tromba, votou contra o brexit; as antigas cidades industriais da Inglaterra, velhos redutos operários, votaram a favor.

Regiões industriais dos países ricos que votavam na esquerda havia muitas décadas viraram para a direita nacionalista. A globalização pode ter trancado, dentro das fronteiras das democracias ricas, quem mais perdeu e quem mais ganhou, em termos relativos, com o processo.

No novo livro, Milanović volta a falar de desigualdade e de países que já foram comunistas, mas agora olha para a Ásia. Logo após sua vitória contra o comunismo, o capitalismo se dividiu em duas grandes modalidades, cada uma com sua superpotência: o “capitalismo liberal-meritocrático”, cujo representante paradigmático são os Estados Unidos, e o “capitalismo político”, cujo representante paradigmático é a China.

“Penso que é cada vez mais evidente que existe um conflito de interesses real entre a China e os Estados Unidos”, diz ele. “Em algum momento deste século, a China pode alcançar um desenvolvimento tecnológico inigualável, o que a tornaria o poder econômico supremo.”

A ênfase nos casos paradigmáticos ajuda Milanović a ser didático, mas é difícil não ficar curioso a respeito do que ele diria sobre os casos menos bem-sucedidos de cada modelo (América Latina e Rússia, por exemplo).

A decisão de incluir Singapura entre os exemplos de capitalismo político também é discutível, embora a cidade-estado, com autoritarismo e liberalismo plenamente desenvolvido, seja mesmo um híbrido difícil de classificar.

O capitalismo liberal-meritocrático não é igual ao capitalismo “clássico”, uma vez que sua elite é rica tanto em termos de patrimônio (empresas, imóveis, ações, investimentos etc.) quanto em termos de trabalho (recebe altos salários).

A velha elite incluía, sobretudo, proprietários. A nova também inclui executivos, advogados, engenheiros de software e outros profissionais altamente qualificados que, além disso, são os principais detentores de patrimônio.

Os membros dessa nova elite tendem a se casar entre si, o que dá a seus filhos uma enorme vantagem no mercado de trabalho e perpetua a desigualdade. Note-se que o “meritocrático” aqui não quer dizer “justo”, apenas algo na linha de “baseado em desempenho”, sem julgamento, neste momento da análise, sobre a distribuição dos variados fatores que influenciam o desempenho.

Em sua versão moderna, criada pelo líder chinês Deng Xiaoping, o capitalismo político é gerido por uma burocracia tecnicamente competente, sem, entretanto, o contraponto democrático ou a separação de Poderes característica das democracias modernas.

O modelo tem sucessos espetaculares para apresentar em sua defesa (China e Vietnã pós-reformas), mas gera contradições agudas: sem garantias de direito, é difícil para a gestão tecnocrática se proteger da captura política.

E o capitalismo político, como o liberal-meritocrático, tem seus próprios mecanismos de geração de desigualdade: embora um Estado forte possa, em tese, refrear as assimetrias geradas pelo mercado, a proximidade entre riqueza e poder pode maximizá-las. Nenhuma das duas formas de capitalismo em disputa é particularmente igualitária.

Milanović, a propósito, não tem a menor dúvida de que a China é capitalista: a grande maioria das decisões econômicas são tomadas de maneira descentralizada, e tanto capital quanto trabalho são alocados pelo mercado.

O regime comunista, o “gestor” do capitalismo político, é um legado da trajetória histórica chinesa, mas atua como promotor ativo do desenvolvimento capitalista nacional. O capitalismo político é diferente do capitalismo liberal, mas não por ser anticapitalista.

Milanović, afinal, considera que os regimes comunistas, a despeito das intenções e esperanças de seus fundadores e líderes, acabaram atuando como “equivalentes funcionais” de uma burguesia dinâmica, facilitando a transição de sociedades pobres para o capitalismo.

Essa é uma das discussões mais interessantes do livro —e certamente vai servir de ponto de partida para debates animados. Para o leitor brasileiro, há uma curiosidade adicional: uma hipótese semelhante sobre essa “equivalência funcional” foi formulada na dissertação de mestrado de Fernando Haddad, candidato a presidente em 2018 pelo PT.

É tentador ver a relação entre as variedades de capitalismo, a rivalidade dentro do capitalismo sem rivais, como análoga às disputas travadas na Guerra Fria. Entretanto, a comparação nem sempre funciona. China e Estados Unidos estão profundamente integrados ao mercado global, o que não era o caso da União Soviética, diz Milanović na entrevista.

Seria interessante explorar a possibilidade de que essa integração imponha ao capitalismo político pressões por eficiência às quais o socialismo soviético não estava exposto (a não ser na área militar, em que sempre foi eficiente).

A integração econômica, por sua vez, pode enfraquecer a capacidade de os países ocidentais administrarem suas contradições, como vimos na discussão do gráfico do elefante. Mas, no geral, Estados Unidos e China estão entre os vencedores da economia global, com grande interdependência entre ambos, e formam o “G2” da geopolítica mundial.

Por outro lado, é sempre bom lembrar que a Primeira Guerra Mundial foi desencadeada por países economicamente interdependentes —e antes de o capitalismo ter “rivais”. O desastre de 1914 desmoralizou bastante a ideia de que a integração econômica seria suficiente para evitar guerras.

“Capitalismo sem Rivais” foi publicado no mercado de língua inglesa em setembro do ano passado, portanto em um mundo ainda pré-pandemia, mas suas reflexões ficaram ainda mais pertinentes no cenário atual.

Milanović escreveu recentemente na revista Foreign Affairs que a pandemia de Covid-19 pode ser o “momento Sputnik” da China, análogo ao salto de prestígio internacional que a União Soviética conseguiu quando tomou, por um curto período, a dianteira da corrida espacial.

O satélite artificial Sputnik deu ao comunismo imenso prestígio internacional, ensinou o jovem Stephen King o que era sentir terror de verdade e obrigou o Ocidente a se mobilizar para realizar o esforço educacional e científico necessário para retomar a liderança da exploração espacial.

É inegável que a China está lidando com a pandemia muito melhor do que os Estados Unidos. A falta de transparência das autoridades chinesas no início da crise expôs uma falha sistêmica que poderia ter tido consequências graves, o que talvez não seja contornável em crises futuras. No entanto, o Estado chinês se mostrou mais capaz de tomar decisões difíceis e de mobilizar recursos em larga escala.

Por sua vez, a atual liderança norte-americana não tem parecido preparada para explorar o potencial de flexibilidade e inventividade que uma sociedade democrática deveria demonstrar em uma crise, mesmo que com atraso (como aconteceu na reação ao Sputnik).

O que nos traz ao nosso argumento final. A Covid-19 pegou a democracia ocidental em um momento particularmente ruim —e isso pode influir tanto na disputa dos dois modelos por legitimidade global quanto nos exercícios teóricos de comparação dos mesmos.

Outra liderança americana que não Trump teria sido tão insatisfatória no combate à epidemia? Provavelmente não, mas a resposta não é óbvia, pois as disfuncionalidades da política dos EUA —e, em especial, da direita americana— já vêm de algum tempo.

Entretanto, também é possível que a crise atual das democracias ocidentais seja passageira, superável, por exemplo, pela adoção das políticas reformistas que Milanović recomenda no final do livro.

“Capitalismo sem Rivais” tem tudo isso e muito mais: discussões muito interessantes sobre as formas de legitimação de cada modelo de capitalismo (a do liberal é mais “interiorizada”), sobre teorias da crise em países capitalistas e as relações entre globalização e corrupção.

Vários pontos podem ser fortemente criticados e discutidos —mais difícil é fazer isso no mesmo alto nível em que foram formulados. É uma obra ambiciosa executada por um dos poucos autores que poderia escrevê-la com rigor.

Leia a entrevista completa com o economista Branko Milanović.

Capitalismo sem Rivais

  • Preço R$ 84,90 (376 págs); R$ 39,90 (ebook)
  • Autor Branko Milanović
  • Editora Todavia

Celso Rocha de Barros, servidor federal, é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford e colunista da Folha.

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