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Ana Paula Pacheco e Tiago Ferro

Roberto Schwarz compõe enciclopédia da catástrofe brasileira em nova peça

Não há horizonte de transformação em 'Rainha Lira', em que condição de terra em transe do país parece perpétua

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Ana Paula Pacheco

Crítica literária, ficcionista e professora da USP. Autora de "Ponha-se no seu Lugar!" (Ática), entre outros livros

Tiago Ferro

Crítico literário e autor do romance "O Pai da Menina Morta” (Todavia), vencedor do Prêmio Jabuti em 2019

A divisão do trabalho costuma dizer que crítica e imaginação estão em campos diversos, quando não opostos, que se frequentam pouco. A trajetória de Roberto Schwarz e sua reinvenção de Machado de Assis, cuja leitura entrou para a obra tornando-se um dado objetivo seu, fala por si só.

O lançamento de "Rainha Lira", sua nova peça teatral, faz recapitular outros passos: embora o ensaio seja a forma na qual se especializou, trata-se de um escritor cuja prática de transitar por outros gêneros vem de longe e pode ser entendida tanto como alimento da imaginação crítica quanto como prática de intervenção cultural.

Retrato do crítico literário Roberto Schwarz em sua casa - Adriano Vizoni - 13.nov.19/Folhapress

Respirando o ar pestilento da ditadura brasileira recrudescida em 1968-69, ao mesmo tempo que embebido do espírito demolidor dos estudantes do 1968 francês, mundial e também brasileiro, Roberto buscou dar forma a certo ensimesmamento do ambiente intelectual local diante do fracasso político, escrevendo poemas obscenos nos quais a lírica, ou melhor, a expressão do "eu" poético por vezes se confunde à masturbação mental, imagem eloquente para aquilo a que se reduziu a dimensão épica, coletiva, da inteligência por aqui.

(Vale notar que a prática teve continuidade inclusive durante a redemocratização, vide o poema "Mão no Pau", de 1985.)

Em outro exemplo eloquente, um livro peso-pesado de análise do Brasil contemporâneo, "Sequências Brasileiras", termina com um conto breve, em tom de banalidade tremenda, sobre as maracutaias em torno da compra de uma ponte milhardária, justamente quando, no final dos anos 1990, ficava nítida a adesão interessada da política brasileira à varredura neoliberal do mundo.

Em um texto já clássico, Anatol Rosenfeld, influência central na trajetória de Roberto, afirmou que os gêneros literários correspondem a diferentes visões de mundo. No teatro, como terá dito Sócrates, "o poeta desaparece, deixando falar, em vez dele, personagens".

Não por acaso, é esse o gênero de eleição do nosso autor quando se trata de indagar, pela imaginação ficcional, a política brasileira: como se retomasse sua vocação primeira, o teatro de Schwarz traz ao proscênio, para debate, os assuntos públicos, (que deveriam ser) do interesse de todos.

Ensinado por Brecht, porém, o poeta não desaparece nas personagens de "Rainha Lira". Pelo contrário, coloca-se mais do que nunca à frente delas —inclusive com uma sintaxe e um léxico marcadamente autorais—, como a explicitar o pressuposto de que não há fala que reste descomprometida com os próprios interesses: o da família no poder, o das hienas em busca de cargos políticos, o do tráfico padroeiro, o dos trabalhadores cansados, o dos militantes, o da situação e o da oposição, permutáveis, o da própria consciência narrativa, não por acaso no corpo de um shakespeariano bobo da corte.

No contexto da peça, em que tudo é ao mesmo tempo negociável e de execução sumária, em que os conflitos são muitos e epidérmicos, em que os interesses pessoais, a arbitrariedade e a desorganização coletiva se complementam, não parece haver horizonte para que Brecht ensine alguém ou para que se saiba de antemão a quem ele poderia ensinar.

Um reino convulsionado por manifestações obriga a rainha e suas três filhas (três diferentes posturas ideológicas) a fugirem do palácio. Enquanto caminham pelas ruas, encontram diferentes representantes da sociedade e de interesses: o chefão da favela, o manifestante da nova geração, a velha representante da luta proletária etc.

Nesses encontros, pouco a pouco, revelam-se as manobras dos verdadeiros donos do poder, que não se furtam a autorizar sabotagens e assassinatos para manter seus privilégios, tudo isso sob a sombra da volta de um antigo rei que incluíra a população no conforto do consumo.

Por um lado, as transições canceladas entre norma e prática social avançaram até o ponto em que a condição de uma "terra em transe" parece perpétua. Por outro, o pressuposto de distanciamento insiste na aposta em um renascimento da dialética (ou da imaginação das possibilidades de acabar com o status quo), ensinando a negação ou a negação da negação do que os olhos veem, em um tempo em que as implicações abjetas das formas de autoridade, as de ontem e as de hoje, estão claras como a luz do sol.

Se, em sua primeira peça —"A Lata de Lixo da História", escrita em fins de 1968 e publicada em 1977—, Machado está presente fornecendo enredo e trechos transcritos diretamente do conto "O Alienista" e também em intuições críticas sobre a vida na periferia do capitalismo (que só ganhariam nitidez nos ensaios posteriores de Roberto), em "Rainha Lira" o sentimento de falência múltipla encontrado pelo crítico dialético em Machado vem a galope e escancarado.

Na rubrica que abre "A Lata de Lixo", o autor indica tratar-se de uma peça construída sobre "transições canceladas", na qual a passagem da chanchada à atrocidade, da asneira ao cinismo, das convicções em conveniências se dá de maneira imediata. "Rainha Lira", tratando do nosso hoje, mantém, por questão de plausibilidade com a realidade brasileira, esse tipo de estrutura.

Em suma, não há horizonte de transformação à vista: mesmo o retorno de Lula no final da peça promete, com alívio, não mais que alinhavar as beiradas do abismo, para que não se torne tudo o que resta. A enciclopédia da catástrofe do Brasil contemporâneo, entretanto, está ali, para quem quiser aprender com ela.

Rainha Lira

  • Preço R$ 54 (128 págs.)
  • Autor Roberto Schwarz
  • Editora 34
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