Competição tem de mirar consumidor e qualidade do serviço

Margrethe Vestager é a xerife da livre concorrência da União Europeia

 

Margrethe Vestager, comissária da concorrência na União Europeia, em evento à imprensa
Margrethe Vestager, comissária da concorrência na União Europeia, em evento à imprensa - JOHN THYS / AFP

 

Diogo Bercito
Madri

Margrethe Vestager desperta, vai a seu escritório em Bruxelas e, como parte de sua rotina, multa gigantes como o Google e a Apple em bilhões de euros. "Já estamos acostumados com o processo", diz à Folha a simpática dinamarquesa de 49 anos.

Vestager é a comissária da União Europeia para lidar com a competição dentro do bloco econômico, o que significa que ela é a responsável pelas amargas punições a empresas americanas atuando no continente. O Google, por exemplo, foi multado em 2017 em€ 2,42 bilhões (R$ 9,5 bilhões).

A comissária, que está no cargo desde 2014, tem ditado as regras de um bloco com 500 milhões de consumidores. O trabalho é pautado, diz, pela ideia de que o mercado tem de ser justo.

O Google foi multado em 2017 em € 2,42 bilhões (R$ 9,5 bilhões) por abusar do monopólio de sistema de buscas para promover seu próprio serviço de comparação de preço.

Em outro caso, Vestager ordenou à Apple em 2016 que devolva ao governo irlandês € 13 bilhões (R$ 51 bilhões) pelos impostos que deixou de pagar. Já às grandes fabricantes de caminhões, como Scania e Iveco, a comissária deu multa de € 2,9 bilhões (R$ 11 bilhões).

No início deste ano, em um de seus casos mais emblemáticos, ela multou a Qualcomm —que produz chips para a Apple— em quase € 1 bilhão. A firma, diz ela, pagou bilhões à Apple para favorecer o seu produto em detrimento daquele dos rivais.

"Se uma empresa está formando cartel ou tentando agir com monopólio, se um país está sabotando a competição livre ao dar vantagens fiscais a firmas --para mim, é questão de justiça."
 

 

Folha - A senhora tem um emprego em que desperta, vai a seu escritório e multa uma empresa gigante como a Apple ou o Google. Esse é um trabalho como todos os demais?

Margrethe Vestager - De algum modo, sim. Muito trabalho é feito antes, com tempo. Há idas e vindas. Discutimos. Quando chegamos a uma decisão, ainda que seja espetacular como aquela da Apple, já estamos acostumados com o processo.

Qual é a sua visão para o mercado?

Talvez seja simplista dizer assim, mas o mais importante para mim é que as companhias sirvam aos consumidores. Que a competição entre as empresas seja feita somente de acordo com a qualidade dos serviços que oferecem aos clientes. Se uma empresa está formando um cartel ou tentando agir com monopólio, se um país está sabotando a competição livre ao dar vantagens fiscais a firmas --para mim, é questão de justiça.

Como chegamos a esse ponto? Faltava regulação?

As companhias que estão hoje no top 10 das maiores do mundo não estavam lá há dez anos. As coisas mudam de maneira drástica em períodos curtos. Não é por não termos regulado o suficiente ou por termos feito vista grossa. Mas hoje precisamos atuar mais rapidamente do que há uma década.

Mas há resistência a regulações, mesmo dos usuários...

Sim, mas nos últimos anos vivemos um despertar global. Hoje sabemos que há vantagens na internet, mas que existem também pontos negativos. Precisamos lidar com isso e regular.

No caso do Google e da Apple, são empresas americanas. A regulação tem de ser global?

As empresas que fazem negócios na UE são globais. É importante, pois, que as agências trabalhem juntas. Quando as firmas se globalizam, os reguladores também precisam se globalizar.

A senhora foi acusada de decidir com motivação política ao multar as gigantes americanas.

Levo isso bastante a sério. Um de nossos fundamentos é sermos neutros. Independentemente da nacionalidade, de ser uma firma pública ou privada, de ser uma empresa grande ou pequena. Não, não enxergo viés nas decisões que tomamos.

Como é sua relação com os presidentes-executivos das firmas multadas?

Bem... Depende bastante. Se eles fizeram algo ilegal, então não há muito a ser feito. Mas, por outro lado, se estamos falando sobre uma fusão, as empresas em geral têm interesse em trabalhar conosco para verem se conseguem esclarecer as nossas preocupações.

A insatisfação com a UE levou ao "brexit". A senhora crê que, com um mercado mais justo, pode defender o bloco?

É importante que os cidadãos vejam que alguém está tomando conta do mercado. Muita gente não se interessa pela política, salvo em eleições, mas todos têm de estar dentro do mercado --comprando comida ou o que precisar.

Acho que, se você vê que as condições de mercado estão bem, que você não está sendo roubado, você passa a se sentir mais confortável. Espero que o meu trabalho contribua à União Europeia nesse sentido.

Como o "brexit" e o populismo afetaram o seu trabalho?

Todo o mundo preferia que o "brexit" não tivesse acontecido. Mas muitos europeus hoje olham de uma maneira diferente para a UE e pensam que talvez ela não seja tão ruim assim. Ao menos passaram a apreciar mais a democracia europeia...

A burocracia europeia é bastante masculina, com a maior parte dos cargos ocupada por homens. Como a senhora lida com o fato de, sendo mulher, ter uma posição tão influente?

Bem, o mundo é dominado por homens, no que diz respeito ao poder. Você se acostuma e para de pensar nisso. Mas tentamos mudar. Com mais mulheres, as mudanças começam a acontecer --há novos tons de voz, há mais diversidade.

Raio-X

Cargo: Comissária de competição da UE

 Formação: Economia, na Universidade de Copenhague

Trajetória: Ministra da Educação, vice-primeira-ministra da Dinamarca

Filiação: Partido Social Liberal (centro-esquerda)

Cultura: Inspirou a série “Borgen”, sobre uma política dinamarquesa

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