Descrição de chapéu Ao seu tempo machismo

Executivas debatem machismo e desigualdade de gênero nas empresas 

Segundo elas, diferenças salariais nos cargos mais elevados persistem 

 
Naief Haddad
São Paulo

Quando a consultora Doris Wilhelm, 63, entrou no mercado de trabalho, em meados dos anos 70, o machismo era ostensivo no mundo corporativo.

De lá para cá, a desigualdade entre os gêneros diminuiu, na avaliação dela e da superintendente na área financeira Cecília Magalhães, 31. Mas, segundo ambas, a diferença salarial nos cargos mais elevados se manteve. Apesar da barreira, elas têm carreiras bem-sucedidas.

A convite da Folha, as executivas participaram da série de diálogos entre representantes de diferentes gerações, que integra o projeto “Ao Seu Tempo”. “É o encontro de uma ‘baby boomer’ com a geração Y”, brinca Doris. 

CHOQUE

DORIS - Fui pioneira em várias áreas. Fui, por exemplo, a primeira gerente de relações com investidores de um grande banco.

Quando me formei em economia, passei a trabalhar em um banco em Porto Alegre. Calculava juros, inflação... Nessa área, existiam vários analistas, todos homens. Então, já foi um primeiro choque [para eles] ter uma colega mulher. Eu ouvia sempre brincadeiras como: “Isso não pode falar porque tem uma mulher presente”. 

CECÍLIA - Ainda há esse tipo de comentário. Mas, hoje em dia, acho que não é tão chocante a chegada de uma mulher [a uma empresa]. Existe um mix maior.

DORIS - Nesse meu primeiro emprego, existiam várias fileiras de mesas. Quando entrei no lugar pela primeira vez, vi as gavetas sendo fechadas discretamente. Eu olhava de lado e via “Playboy” e outras revistas daquela época. Na hora do almoço, eles ficavam folheando as revistas [risos]...

ASCENSÃO

CECÍLIA - Só comecei a identificar a diferença de gênero [no trabalho] com a subida na carreira. Quando você é analista [uma das funções iniciais no trabalho em banco], é comum ter pares mulheres. O problema surge quando começa a subir. Torna-se gerente, superintendente e passa a ir a reuniões com diretores. É nessa hora que se pergunta: “Ué, cadê uma mulher aqui?”. 
E você? Sentiu dificuldade para subir na carreira? 

DORIS – Com certeza! Sempre ficavam aquelas dúvidas: “Como chegou lá?” e “Ou ela tem uma influência muito grande, as ‘costas quentes’, ou é amiguinha.” Há sempre insinuações. Nunca precisei disso na minha carreira. Sempre [assumi novos cargos] por competência. 

MATERNIDADE

CECÍLIA - Tenho dois filhos. Quando fiquei grávida do primeiro, me perguntaram [na empresa]: “Quantos você vai ter mais? Você sabe que isso vai atrasar a sua carreira, né?”. Eu respondia: “Seis meses numa vida profissional não são nada, isso não afeta a minha competência”. 

Quando eu tive o segundo filho: “E agora? Já está bom, né?” [risos]. Eu brinco e falo que vou ter dez. Mas, com certeza, você sente a intensidade do preconceito...

DORIS – Hoje as mulheres buscam mais esse equilíbrio. Na minha geração, a cobrança era tão grande que você era profissional ou mãe, tinha de escolher. 

Atualmente, tenho colegas que trabalham até o último minuto [refere-se à véspera do parto]. No dia seguinte, estão indo para a maternidade. 

FILHOS

CECÍLIA – Meu filho de 4 anos já fala: “Mamãe, essa coisa é de menino e essa é de menina”. E eu: “Isso não existe. É tudo igual”. Ele diz: “Menina não pode”. Eu: “Não, não... Quem está te falando essa besteira? Menina pode tudo!” [risos]. E menino também.

Não quero pesar para nenhum dos lados. É um trabalho, um esforço mental constante.

MARIDO

CECÍLIA – Quando vejo que o meu salário está defasado, costumo pensar: “Vão me reconhecer, o meu bônus vai aumentar”. Mas não, eu tenho que ir lá, vou brigar. E o meu marido fica no meu ouvido: “Vai lá, reclama!” [risos].

DORIS – Que bom que você tem um parceiro que te apoia. Infelizmente, os parceiros da minha geração tinham no DNA (colocado pelos pais, naturalmente) que o provedor da casa é o homem. Chegar a um momento em que a mulher ganhasse mais do que ele criava um dilema terrível. E começavam os problemas no relacionamento. 

DIFERENÇA SALARIAL

DORIS - Só fui quebrar essa barreira [da diferença salarial] com uma idade já avançada. Estudos mostram defasagem entre 20% e 30% [entre homens e mulheres], dependendo do setor. Cabe à mulher se impor. 

Outro aspecto [a ser considerado] é a escolaridade. Hoje em dia, elas têm mais anos de estudo do que eles. Há mais mulheres com mestrado, doutorado... 

CAPACIDADE DE SE IMPOR

CECÍLIA – A sua geração fez muito pela nossa. Vocês desbravaram o caminho, mas ainda existem muitas coisas para melhorar. 

DORIS – Olhando retrospectivamente, acho que demorei para me impor em relação a cargos maiores. Em situações assim, o homem costuma ser mais corajoso. Ele chega e diz: “Eu quero esse cargo”.  

A mulher não tem essa postura mais agressiva de dizer exatamente o que quer na carreira. A gente abafa as ambições porque é feio a mulher se mostrar ambiciosa, isso é visto como coisa de homem.

BANHEIRO

CECÍLIA - Fui representar o banco em reunião com vários outros bancos e, no meio, precisei ir ao banheiro. Só havia o masculino, o que me deixou indignada. 

Quando a reunião acabou, eu disse a eles: “Como representante do meu banco, acho um absurdo que só tenha um banheiro masculino. Vocês têm três soluções: constroem um novo banheiro ou botem uma placa de banheiro feminino e masculino (unissex) ou acabem com o banheiro, porque isso é um absurdo.

Se 50 anos atrás isso era normal, hoje em dia não é”. 
[O episódio ocorreu em meados de 2017; até agora, segundo a executiva, o problema não foi resolvido].

DORIS - [Nos meus primeiros anos de carreira,] Eram poucas mulheres na empresa. Havia só um banheiro feminino e vários masculinos. O nosso sempre estava ocupado e tínhamos que aguardar. Mas isso tem mudado. 

MULTIFUNCIONAL

DORIS – A mulher tem visão mais sistêmica enquanto o homem é um pouquinho unifocado. Hoje, nas reuniões de conselho de administração, vejo que o homem se preocupa com uma coisinha pontual, e a mulher mostra que isso é parte de um todo, que terá implicação nas finanças, no RH, no ambiente... A sociedade e os nossos pais sempre nos ensinaram a ser multifuncionais.

ADJETIVOS

CECÍLIA – Ainda são comuns comentários como: “Aquela mulher é grosseira, ela atropela...” E os homens que atropelam? Dificilmente se escuta o mesmo tipo de adjetivo para os homens.

DORIS – Eu já ouvi muito: “Eu gosto da Doris porque, para tomar decisão, ela parece um homem” [risos]. Quando você é mais assertiva, parece um homem. Nossa! Ainda há esse preconceito de que mulheres bem-sucedidas se parecem com homens. 

ESTRATÉGIA

CECÍLIA – Quando assumi uma nova área [no banco], pessoas de setores parceiros não me conheciam. E na minha equipe, só há homens, meus subordinados, alguns mais velhos do que eu. No início [nessa nova função], eu tive que adotar a estratégia de não levá-los às reuniões para que todos soubessem que a chefe da área era eu.
 
DORIS – Demarcando o território mesmo.

CECÍLIA – Se não, eles seriam vistos como os chefes!

COTAS

DORIS – Será que a gente vai precisar de proteção por mais um tempo? Quero dizer: cotas para a mulher poder ascender ou, pelo menos, metas de diversidade nas empresas... Acho interessante. Não é questão de ser bonzinho com as mulheres, isso é bom para a empresa, agrega valor, traz uma visão diferenciada. 

DISCRIMINAÇÃO

DORIS - Trabalhei em uma empresa que produz equipamentos de segurança, e há uma feira dedicada a esse mercado todo ano nos EUA. Eu lidava com investidores e tinha que conhecer os concorrentes nessa feira, mas o então vice-presidente da empresa, que era muito machista, não queria que eu fosse. 

Ele achava que eu não deveria ir porque seria “um ambiente meio estranho”. 

“Mas qual é o problema?”, questionei. “Estou legitimamente no cargo de diretora de relações com investidores”. Foi uma resistência grande. [Doris conseguiu viajar para a feira nos EUA depois de recorrer ao presidente da empresa]

CECÍLIA – Não sinto [que isso ocorra no meu ambiente de trabalho]. Há a questão salarial, dificuldades de crescimento... Mas nada tão explícito como: “Você não vai porque você é mulher”. Nunca senti nem imagino uma situação assim atualmente. 

COMPOSIÇÃO DE CONSELHOS

DORIS - No Brasil, os conselhos das empresas são formados por homens brancos com mais de 65 anos, que vieram de uma carreira executiva. Existe resistência em ter alguém fora do clube, é um clube fechado. 

Se você está em um grupo em que todos pensam igualmente, não terá resultados diferentes. Depois da entrada de uma mulher em um conselho, todos dizem que há melhora, que o ambiente fica mais leve, que surgem novas ideias. 

CECÍLIA – Não é uma questão só de igualdade. A diversidade é positiva.

RISCO

CECÍLIA - As empresas costumam exigir uma prova no processo de seleção. Há mulheres que ficam com o pé atrás, achando que não irão bem, e nem se arriscam. Os homens não se importam, vão com a cara e a coragem. Então, é preciso haver incentivos nesse sentido. E também programas de MBA renomados que busquem mais mulheres, mais diversidade.

DORIS – Já ouvi amigas comentarem: “Surgiu essa oportunidade, mas eu acho que não estou preparada”.

A mulher tem uma auto-cobrança maior do que o homem. Para se candidatar a algum cargo, ela vai tentar se preparar bem. Mas a gente tem que arriscar mais. 

NOVA GERAÇÃO

DORIS - Para finalizar, eu só espero que os “baby boomers” tenham ajudado a geração Y. E que vocês possam ajudar a próxima geração, os Millennials, que já nasceram no tecladinho, num universo mais fechado. 

Nós queríamos sair de casa, fazer tudo sem os pais. Mas essa geração não. Está cada vez mais isolada no seu quarto, com o celular, o computador. Ela vai ter dificuldades, e novos desafios virão.
 

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