Empresas rivais mantêm silêncio sobre crise do Facebook

Evitam falar com temor de serem vítimas de ataques públicos no futuro

 
Facebook enfrenta diversas crises nos últimos 12 meses - Mladen Antonov / AFP
Nick Wingfield
The New York Times

As recentes tribulações do Facebook, que vem cambaleando de crise a crise nos últimos 12 meses, a mais recente das quais envolve entregar dados pessoais sobre usuários a terceiros, levaram alguns nomes importantes do setor de tecnologia a criticar a companhia.

Marc Benioff, presidente-executivo da Salesforce.com, comparou os efeitos deletérios da mídia social aos do tabaco e do álcool, e apelou por mais regulamentação dessas empresas de tecnologia. Tim Cook, o presidente-executivo da Apple, também deu a entender que novos regulamentos de proteção a dados talvez venham a ser necessárias para negócios como os do Facebook.

"Creio que essa situação específica é tão grave e se tornou tão grande que provavelmente certa dose de regulamentação bem redigida será necessária", disse Cook em evento recente na China, falando sobre os mais novos problemas do Facebook.

Mas não imagine que outros líderes do setor estejam entrando na fila para falar sobre os problemas, por enquanto.

Ainda que as empresas de tecnologia tenham suas diferenças, em momentos de crise prevalece entre seus líderes um espírito de cortesia. Por exemplo, os líderes do setor de tecnologia no geral mantiveram o silêncio quanto aos problemas da Uber - dos esforços da empresa para contornar a fiscalização das autoridades a um atropelamento por um de seus carros autônomos que causou a morte de uma pedestre -, mesmo que possam ter expressado opiniões em foro privado.

Representantes de empresas tão diversas quanto a Amazon, Microsoft e Slack se recusaram a comentar para este artigo. Parte do silêncio, dizem pessoas do setor, vem do desejo de evitar o equivalente empresarial do karma ruim - já que eles sabem que um dia também podem se ver sob ataque público.

Outros observadores dizem que empresas não têm estatura moral suficiente para criticar as práticas do Facebook, já que elas mesmas recorreram à rede social, usando as mesmas táticas de direcionamento de publicidade baseadas em dados pessoais que fomentaram tamanha controvérsia no campo da políticas.

"Acho que simplesmente temos de admitir a cumplicidade de todo o setor naquilo que está acontecendo no Facebook", disse Glenn Kelman, presidente-executivo da Redfin, uma imobiliária online. "É quase como se fôssemos o inspetor Renault, em 'Casablanca', nos declarando chocados com as irregularidades até que alguém um pouco depois vem nos entregar o lucro da nossa aposta".

"Todos nós anunciamos avidamente no Facebook", disse Kelman.

Muitas empresas também estão vinculadas ao Facebook por meio de parcerias, organizações profissionais e uma visão de mundo quanto ao poder dos dados que não difere tanto assim da visão de Mark Zuckerberg, o presidente-executivo da rede social.

"Vem sendo realmente difícil para os executivos deixar de lado a mina de ouro do big data, mesmo diante de argumentos convincentes para fazê-lo", disse Roger McNamee, um dos primeiros investidores no Facebook e mentor inicial de Zuckerberg, antes de se tornar um dos mais fervorosos detratores da empresa. "Os presidentes-executivos que estão se pronunciando agora são aqueles que pensam em longo prazo".

Vanessa Chan, porta-voz do Facebook, se recusou a comentar.

Há muitos críticos do Facebook no Vale do Silício. Eles incluem antigos profissionais de tecnologia, executivos de capital para empreendimentos e empreendedores como Brian Acton, que se tornou bilionário quando o Facebook adquiriu o WhatsApp, um app de mensagens que ele ajudou a criar. Acton postou no Twitter em março que "é hora de deletar o Facebook".

Mas existem poucos líderes empresariais ativos no Vale do Silício que tenham se posicionado. A maioria dos poucos executivos que se pronunciaram contra o Facebook expressam opiniões fortes sobre a privacidade há muito tempo. Não é por coincidência que seus negócios não dependem tanto da coleta de dados pessoais quanto é o caso na maioria das empresas de internet. Cook, da Apple, que extrai a maioria absoluta de sua receita da venda de aparelhos, vem declarando há anos que "quando um serviço online é gratuito, você não é o cliente; você é o produto".

Steve Dowling, porta-voz da Apple se recusou a comentar.

Perguntada sobre as dificuldades do Facebook em um evento recente na China, Ginni Rometty, presidente-executiva da IBM, disse que as empresas precisam oferecer aos seus clientes controle melhor sobre suas informações pessoais. "Ginni acredita há muito tempo que as pessoas e os clientes são donos de seus dados - não as plataformas", disse Edward Barbini, porta-voz da IBM.

Noah Theran, porta-voz da Internet Association, uma associação setorial que tem Facebook e Salesforce entre seus membros, mas não a Apple, disse que manter a privacidade e segurança era grande prioridade para as empresas de Internet.

"As companhias de internet cumprem grande variedade de leis e normas de segurança e privacidade de dados, aplicadas ativamente pela Comissão Federal do Comércio (FTC) e pelos secretários de Justiça estaduais norte-americanos", disse Theran. "Confiança em e conforto com os nossos produtos e serviços são essenciais para uma internet próspera, e o setor de internet tem o compromisso de oferecer informações às pessoas e ferramentas para que elas tomem decisões sobre como suas informações pessoais são usadas, vistas e compartilhadas online".

Outro líder do setor de tecnologia, Elon Musk, presidente-executivo da Tesla e da SpaceX, escreveu recentemente no Twitter que nenhuma de suas empresas faz anúncios na rede social, e prometeu tirar do Facebook as páginas oficiais da Tesla e SpaceX.

"Não se trata de uma declaração política e nem estou tomando essa decisão por alguém ter me desafiado a fazê-lo", ele escreveu. "Só não gosto do Facebook. Para mim, é repulsivo. Lamento".

McNamee acredita que mais líderes setoriais deveriam se pronunciar, em parte porque ele prevê que os Estados Unidos podem e devem adotar regulamentos mais severos no futuro, semelhantes aos que estão emergindo na Europa.

"As empresas que se anteciparem a isso", ele disse, "terão muito mais sucesso do que aquelas que fingirem que serão capazes de sustentar o velho modelo".
 
Tradução de PAULO MIGLIACCI

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