Dólar sobe e encosta em R$ 3,57 após EUA deixarem acordo nuclear com Irã

Crise cambial na Argentina também preocupa, mas analistas veem pouco contágio para o Brasil

Presidente americano, Donald Trump, deixa conferência em que anunciou saída do acordo nuclear com Irã
Presidente americano, Donald Trump, deixa conferência em que anunciou saída do acordo nuclear com Irã - SAUL LOEB/AFP
Danielle Brant
São Paulo

A decisão dos Estados Unidos de se retirarem do acordo nuclear com o Irã fez o dólar encostar em R$ 3,57 nesta terça-feira (8). A preocupação é que possa haver retaliações por outros países, o que poderia levar a uma guerra. Já a Bolsa brasileira subiu impulsionada pelas ações da Petrobras, que divulgou lucro.

 

O dólar comercial subiu 0,42%, para R$ 3,568, ainda no maior nível desde 2 de junho de 2016, quando fechou a R$ 3,588. O dólar à vista, que encerra mais cedo, subiu 0,86%, para R$ 3,576.

A Bolsa brasileira teve alta de 0,29%, para 82.956 pontos. O volume financeiro foi de R$ 12,97 bilhões, ante média diária de R$ 11,2 bilhões em maio.

O dia foi marcado pela cautela com a decisão americana de se retirar com acordo firmado com o Irã em 2015 e que incluía sete países (EUA, Irã, França, Alemanha, Reino Unido, China e Rússia).

À época, o pacto impôs limites ao programa nuclear do Irã. Como contrapartida, sanções econômicas impostas ao país foram aliviadas. Nesta terça, Trump reinstalou algumas medidas. 

O Departamento do Tesouro americano informou que, após 90 dias, será revogada a licença que autorizava a exportação de aeronaves ao Irã e, após 180 dias, serão reinstituídas as sanções para transações com o banco central Iraniano e determinadas instituições financeiras do país, além de empresas do setor de energia.​

Entre as sanções que começam a valer em 90 dias estão a compra ou venda de dólar pelo governo e negócios com títulos da dívida do governo, enquanto em 180 dias passam a vigorar medidas que restringem transações envolvendo petróleo e produtos petroquímicos e o setor de energia.

"O Trump está adotando medidas pouco diplomáticas. O dólar reage muito mais a este cenário. Ele ameaça promover uma guerra tarifária, sair de acordo", diz Celson Plácido, estrategista-chefe da XP Investimentos.

"Isso tudo leva a uma alta do petróleo e gera um efeito inflacionário no mundo, o que pode fazer o Fed (banco central americano) acelerar as altas nos Estados Unidos e provoca o fortalecimento do dólar em relação a outras moedas."

A crise cambial argentina também aumentou a cautela, mas teve um efeito menor, avalia o banco UBS em relatório. A instituição considera que há riscos limitados aos emergentes por causa da situação argentina, mesmo para o Brasil, maior parceiro comercial da Argentina na região.

"A pressão sobre o peso argentino responde largamente a um fenômeno global [alta de juros nos Estados Unidos e um dólar mais forte] exacerbado pelas condições idiossincráticas da Argentina", afirma o relatório.

No entanto, o relatório diz que os atuais problemas da Argentina provocam cautela no sentido de que mostram que mercados em que as condições de financiamento estão mais apertadas, países com grandes desequilíbrios externos e fiscais permanecem vulneráveis.

O Banco Central vendeu pelo quarto dia a oferta integral de até 8.900 contratos em swaps cambiais tradicionais (equivalentes à venda de dólares no mercado futuro). Até agora, já rolou US$ 1,780 bilhão dos US$ 5,650 bilhões que vencem em junho.

O CDS (credit default swap, espécie de termômetro de risco-país) se valorizou 4,3%, para 198,4 pontos. 

No mercado de juros futuros, os contratos mais negociados subiram. O DI para julho deste ano avançou de 6,245% para 6,269%. O DI para janeiro de 2019 teve alta de 6,300% para 6,325%.

AÇÕES

Das 67 ações do Ibovespa, 29 subiram, 35 caíram e 3 fecharam estáveis.

Logo pela manhã, os analistas repercutiram a decisão do ex-ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Joaquim Barbosa de desistir da corrida presidencial

"Foi um dia agitado, o impacto do anúncio foi pontual e absorvido rapidamente pelo mercado", diz Filipe Villegas, analista de ações da Genial Investimentos.

"As eleições ainda estão longe, e ainda estão muito abertas. O engajamento e posicionamento dele devem favorecer Marina Silva (Rede). Mas, com a saída dele, partidos como PSDB e PT podem ser beneficiados, por ser um candidato a menos para disputar voto."

A sessão foi marcada ainda por resultados corporativos. 

Os papéis da Petrobras subiram após a empresa registrar lucro de quase R$ 7 bilhões no primeiro trimestre, alta de 56,4%. A petrolífera também voltará a pagar dividendos.

Os papéis mais negociados da estatal, que dão preferência no pagamento de dividendos, subiram 1,15%, para R$ 22,91. As ações ordinárias fecharam estáveis em R$ 24,74.

A maior alta foi registrada pelos papéis da Magazine Luiza, que subiram 14,6%. A empresa viu seu lucro saltar 152% no primeiro trimestre, para R$ 147,5 milhões. As ações do Banco do Brasil subiram 2,72%, e a Estácio Participações teve alta de 2,7%.

Na ponta negativa, a Bradespar, que tem participação na Vale, liderou novamente as baixas do Ibovespa. A empresa está envolvida em disputa com a Elétron, do grupo Opportunity, de acordo com o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo.

A mineradora Vale caiu 0,1%, para R$ 49,19.

No setor financeiro, o Itaú Unibanco avançou 0,32%. As ações preferenciais do Bradesco perderam 0,52%, e as ordinárias tiveram alta de 0,26%. As units —conjunto de ações—​ do Santander Brasil recuaram 1,06%.

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