Lira turca despenca depois de promessa de Erdogan sobre economia

Presidente da Turquia disse que assumirá controle firme da política monetária se vencer eleição

O presidente da Turquia Recep Tayyip Erdogan em Londres
O presidente da Turquia Recep Tayyip Erdogan em Londres - Matt Dunham/AFP

A lira recorde bateu recorde de baixa na terça-feira (15), depois que o presidente Recep Tayyip Erdogan prometeu que assumiria controle mais firme da política monetária caso vença as eleições do mês que vem.

Falando em visita a Londres, Erdogan reafirmou seu compromisso de baixar as taxas de juros e disse que, depois que a transformação do país de democracia parlamentar em democracia presidencialista entrar em vigor, após as eleições convocadas inesperadamente para 24 de junho, ele teria mais controle sobre a economia.

"Quando as pessoas enfrentam dificuldade por causa da política monetária, a quem elas responsabilizam?", disse Erdogan em entrevista à Bloomberg Television. "Elas responsabilizam o presidente. Porque perguntarão ao presidente sobre isso, temos de criar a imagem de um presidente que influencie as políticas monetárias."

Ele admitiu que a expansão de seu papel "pode causar desconforto a alguns", mas acrescentou que "precisamos fazê-lo, porque são aqueles que governam o Estado que devem prestar contas aos cidadãos".

A lira sofreu queda de mais de 17% diante do dólar do começo do ano para cá, chegando à sua marca mais baixa depois que as declarações de Erdogan foram veiculadas. Pelo final da manhã, em Londres, a moeda turca estava cotada a 4,4310 liras por dólar, com queda de 1,5%.

A onda de vendas da lira surgiu como parte de uma rejeição mais ampla aos ativos de mercados emergentes, dada a preocupação dos investidores com o enfraquecimento do crescimento econômico e a alta das dívidas nas economias de mercado emergente.

Na semana passada, o presidente da Argentina, Mauricio Macri, de tendência reformista, foi forçado a solicitar assistência ao FMI (Fundo Monetário Internacional) depois que uma série de aumentos de juros decretados pelo banco central fracassou em conter a queda do peso argentino.

A despeito de os juros terem sido elevados para 40% e da solicitação de ajuda ao FMI, o peso retomou sua queda na segunda-feira, com recuou de mais de 7%.

Depois de algumas semanas turbulentas para a lira turca, os investidores estrangeiros esperavam que Erdogan aproveitasse sua visita de três dias a Londres para reassegurar os mercados financeiros de que permitiria que o banco central agisse para apoiar a moeda, conter a inflação que já chegou aos dois dígitos e moderar o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), dada a preocupação com o possível superaquecimento da economia turca. Mas ele preferiu dobrar a aposta. 

Erdogan há anos se opõe fortemente às taxas de juros altas, adotando a posição, fortemente heterodoxa, de que elas causam, e não controlam, a inflação. Na semana passada, ele alertou que elas eram "a mãe e pai de todos os males", alimentando preocupações de que não daria liberdade ao banco central para elevar os juros. 

O presidente turco disse à Bloomberg que cortar os juros reduziria a inflação. "Quanto menor for o juro, menor será a inflação", ele disse. "Quando cortarmos bem os juros, o que acontecerá ao custo dos insumos? Ele também cairá... surgirá a oportunidade de vender produtos a preços muito mais baixos... É uma questão bastante simples".

De acordo com pessoas presentes, Erdogan fez outras declarações igualmente "espantosas" sobre as taxas de juros em um evento privado em Londres na segunda. Diversas pessoas presentes disseram ao Financial Times que Erdogan delineou seu pensamento sobre taxas de juros e inflação na Chatham House, uma instituição de pesquisa sobre assuntos internacionais.

Questionado se as declarações do presidente turco na segunda o haviam reassegurado, um representante de uma administradora internacional de fundos de investimento disse que "de maneira alguma". Ele acrescentou que "quando você ouve coisas assim, começa a realmente a se preocupar".

Erdogan também disse em sua entrevista à Bloomberg que suas frequentes intervenções quanto à taxa de juros influenciavam o banco central, e declarou sua intenção de continuar. "É claro que nosso banco central é independente", ele disse.

"Mas o banco central não pode tomar sua independência como forma de desconsiderar os sinais dados pelo presidente, que comanda o ramo executivo. O banco fará sua avaliação de acordo com isso, tomará suas medidas de acordo com isso. E acredito que isso resultará em medidas muito benéficas no futuro".

Questionado sobre reportagens na imprensa turca de que o primeiro-ministro assistente Mehmet Simsek, que tem um relacionamento bem próximo com investidores estrangeiros, poderia deixar o governo depois da eleição, Erdogan não respondeu. 

Tradução de PAULO MIGLIACCI

Financial Times

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