Divergências sobre política de preços levam Parente a deixar Petrobras

São Paulo , Brasília e Rio de Janeiro

Pedro Parente, presidente da Petrobras, pediu demissão na manhã desta sexta (1º), em reunião com o presidente Michel Temer. Para substituí-lo o conselho de administração da estatal indicou como interino o nome de Ivan Monteiro, diretor financeiro.

Temer não apenas aceitou a sugestão como indicou Monteiro para ser sucessor permanente. Pelos trâmites, essa nova indicação deve passar pelo crivo do conselho em uma nova reunião, mas Monteiro já é considerado novo presidente da Petrobras.

Parente estava na estatal desde junho de 2016. Apesar de ter recuperado as finanças e a credibilidade da Petrobras após os escândalos de corrupção investigados na Operação Lava Jato, ele vinha sendo criticado.

No governo e no Congresso desagradava a sua insistência em manter a política de reajustes de preços dos combustíveis implantada durante sua gestão, em julho do do ano passado, e que levou a aumentos expressivo no valor do gás de cozinha, da gasolina e do diesel, que culminaram com a paralisação dos caminhoneiros.

Antes mesmo da mobilização nas estradas, Temer já vinha discutindo com Parente a flexibilização da política da estatal diante da alta elevada dos preços para a população. Mesmo assim, o governo diz que Parente se recusava a entender que era preciso dar uma folga. No governo, Parente já era chamado de "cabeça-dura".

Na avaliação de investidores e analistas a saída de Parente foi interpretada como uma apoio à manifestação dos caminhoneiros e um retorno a velha política, baseada em populismo.

Pesquisa Datafolha identificou que 87% dos brasileiro s apoiam o movimento dos caminhoneiros. A conceituada revista inglesa The Economist aborda o tema em sua edição desta semana e diz que viu a reação da população "com perplexidade".

 

Segundo a publicação, o que explica o sentimento favorável às manifestações é o fato de que os brasileiros ainda pagam impostos altos e não recebem serviços de qualidade em troca e, devido aos escândalos de corrupção, têm um sentimento de indignação generalizada contra a classe política.

Segundo a Folha apurou, o estopim para o pedido de demissão de Pedro Parente da presidência da Petrobras foi a percepção de que a política de preços da estatal já está sofrendo uma "intervenção branca" da administração de Michel Temer.

O executivo --que acabou concordando com a redução temporária do preço de óleo diesel para apaziguar os caminhoneiros em greve --percebeu que também teria de aceitar a política de subvenção do governo para gasolina e para o gás de cozinha.

Os efeitos sobre o caixa da Petrobras no médio e longo prazo tendem a ser nocivos. O cenário é que a estatal volte a operar no vermelho. Diante dessa perspectiva, Parente, que foi o responsável por recuperar a Petrobras após o escândalo da Lava Jato e a interferência política do governo Dilma sobre as operações da estatal, preferiu sair.

Segundo pessoas que acompanham o assunto de perto, a "intervenção branca" na política de preços da Petrobras seria feita por um artifício técnico na fórmula de cálculo da subvenção a ser paga pelo governo à estatal pela redução do preço do óleo diesel.

A subvenção será determinada pela diferença entre o preço de referência, definido com base na cotação internacional do petróleo, e o preço de comercialização, que será praticado nas refinarias. Se o preço de comercialização for inferior ao de referência, o governo vai subsidiar até o limite de R$ 0,30 por litro – acima disso autorizará o repasse.

O embate entre a Petrobras e o Ministério de Minas e Energia girou em torno do preço de referência. A Petrobras pleiteou o direito de estabelecer ela mesma esse valor, enquanto a Fazenda defendeu que essa é uma atribuição da Agência Nacional de Petróleo (ANP). A posição do ministério prevaleceu.

Sob condição de anonimato, pessoas próximas à estatal dizem que basta a ANP não repassar corretamente a variação do petróleo para que o governo – que controlaria na prática os preços de comercialização e de referência - determine o tamanho da subvenção conforme sua disponibilidade de caixa.

Além disso, o preço do petróleo no mercado internacional é apenas um dos itens que a Petrobras considera para definir seus preços. Também estão embutidos no seu cálculo variáveis como despesas administrativas, investimentos e margens de lucro. Na prática, a empresa perdeu autonomia na sua política de preços e sofreu um tabelamento indireto.

Auxiliares do presidente Michel Temer dizem que a intenção do governo é manter a atual diretoria e não alterar a política de preços da empresa, muito embora haja forte pressão para isso, inclusive na base aliada do governo.

O ministro Moreira Franco (Minas e Energia) diz que nem ele, nem a Fazenda, nem o presidente Michel Temer fizeram qualquer tipo de pressão sobre Pedro Parente para alterar a política de preços da Petrobras.

"Da mesma maneira que o governo não interfere na política de preços da Shell, da Esso, não vai interferir na política de preços da Petrobras. Posso garantir que sobre esse tema não nenhum tipo de pressão nem minha, nem do ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, nem do presidente da República sobre o Pedro", disse o ministro.

Moreira ressaltou que, o que vem propondo é a criação de alternativas para aliviar o impacto do preço para o consumidor. "O que eu venho propondo –publicamente– é que o governo tenha uma política para mitigar a volatilidade dos preços dos combustíveis", explicou, repetindo tese dita em entrevista à Folha.

Raquel Landim , Julio Wiziack , Nicola Pamplona , Talita Fernandes , Daniela Lima , Angela Boldrini e Daniel Carvalho

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