Dominar linguagem de computadores definirá sucesso da nova geração, diz especialista

Colega de Bill Gates e Steve Jobs, Stephen Wolfram diz que estamos perto de viver como nos filmes de ficção

Milionário que criou linguagem de computação, Stephen Wolfran, falou à Folha no Rio de Janeiro, durante o Congresso Internacional de Matemática
Milionário que criou linguagem de computação, Stephen Wolfran, falou à Folha no Rio de Janeiro, durante o Congresso Internacional de Matemática - Ricardo Borges/Folhapress
Beatriz Maia
Rio de Janeiro

Currículo digno de personagem da série “The Big Bang Theory”, conta bancária de empresário do Vale do Silício. Stephen Wolfram, 58, é considerado um dos maiores especialistas do mundo em inteligência artificial.

Ele não tem medo de se arriscar em futurologia. Exemplos extremos podem ser pensados na política, segundo ele.

“Imagine um mundo onde as pessoas podem expressar suas preferências em código. Dá para alimentar um grande sistema de inteligência artificial que decide o que deve ser feito. É claro que isso nos levará a problemas clássicos da filosofia”, diz.

Wolfram publicou seu primeiro artigo científico aos 15 anos. Aos 20, já era doutor pelo Caltech, o Instituto de Tecnologia da Califórnia. Um ano depois foi o mais jovem ganhador da MacArthur Fellowship, apelidada de “bolsa dos gênios”.

No fim dos anos 1980, fundou a Wolfram Research, que ainda comanda. A empresa desenvolve soluções computacionais avançadas. Entre elas, destaca-se o Mathematica, desenvolvido por ele.

Quando se pede para que explique como o software funciona, ele sorri, abre o notebook e digita o comando para que a câmera tire uma foto de seu rosto. Em seguida, escreve pedindo que o computador identifique se há uma pessoa notável na imagem (“Isso pode ser um pouco embaraçoso”, diz). 

Rapidamente, seu nome aparece na tela, e ele suspira aliviado. O programa funcionou.

No Rio de Janeiro para o Congresso Internacional de Matemática, Wolfram falou à Folha sobre suas visões para o futuro da inteligência artificial.

 

Como o senhor imagina que o mundo será quando boa parte da população puder programar? No futuro, quando todos souberem escrever um código, o cardápio provavelmente será um punhado de códigos que basicamente dizem como sua comida será preparada por um robô cozinheiro.

Um exemplo interessante, que provavelmente não será aplicado exatamente dessa forma, é a política.
Agora temos algo como cinco candidatos, dos quais você precisa escolher um. Imagine um mundo, e isso é um exercício de imaginação, onde todos possam expressar suas preferências como grandes apanhados de código.

As pessoas poderão escrever um ensaio computacional que descreva suas preferências sobre como as coisas devam funcionar. Imagine então que você use isso para alimentar um grande sistema de inteligência artificial, e ele resolverá o que fazer.

É claro que isso nos leva a problemas da filosofia clássica. Conhecendo todas essas preferências, há a possibilidade de se optar por contentar a maior parte das pessoas, ou pelo contentamento médio de todos.

Este será um problema que precisará ser resolvido fora do sistema.

O senhor acha que as crianças devem aprender a programar desde cedo? Algumas pessoas dizem que as crianças ficarão confusas de aprender linguagem computacional tão cedo, mas isso não acontece.

Elas estão acostumadas a aprender regras sobre como as coisas funcionam que lhes parecem arbitrárias.
Para esta geração de crianças, o pensamento computacional será a principal habilidade que irá distinguir as pessoas que realmente terão sucesso.

E o mais assustador é que na maior parte do mundo as escolas ainda não começaram a ensinar isso.

A inteligência artificial pode ajudar a resolver os entraves da educação mesmo em países pobres? O santo graal da inteligência artificial é construir uma máquina de ensinar. Isso ainda não teve sucesso.

A educação está industrializada, com várias crianças em sala recebendo a mesma lição. A inteligência artificial pode ajudar a personalizar o ensino.

Tem havido muitos experimentos. O desafio é reproduzir nas máquinas o modelo de aprendizado humano.
Podemos fazer um sistema que preveja, a partir das suas respostas anteriores, como você vai responder a próxima questão. Se a máquina conseguir identificar em qual parte você está confuso, será valioso.

É claro que o contato entre humanos é importante, bem como ter professor motivado.

Estamos perto do que mostram os filmes de ficção científica? Algumas coisas são previsíveis, como a inteligência artificial prevista nos filmes. O que é difícil de imaginar são as consequências sociais.

Por exemplo, é óbvio que poderíamos ter as redes sociais, mas a importância que alcançaram não era previsível. Pelo menos não para mim.

A realidade aumentada também certamente irá acontecer. Em uma conversa como a nossa, no futuro, eu terei um dispositivo que estará ouvindo o que eu digo, olhando o que acontece, e me dará várias sugestões: faça isso, faça aquilo.

Ele irá procurar informações sobre você e me dirá: “Ela pode estar interessada em tal assunto”. Será simbiose entre humanos e inteligência artificial.

A inteligência artificial poderá dominar o mundo? Eu digo com certeza é que a inteligência artificial irá sugerir o que os humanos devem fazer, e na maior parte do tempo seguiremos esses conselhos. As pessoas que dirigem com GPS, por exemplo, normalmente vão para onde o aparelho manda.

Outra coisa que aparece muito nos filmes é a criogenia [técnica de manter um corpo congelado para ressuscitá-lo], e certamente isso será realidade. Falta apenas um pequeno detalhe para alcançar, assim como a clonagem e a edição genética dependiam de apenas um detalhe.

Eu tenho várias informações gravadas sobre a minha vida, como cada tecla que já digitei, e esse tipo de coisa. A grande questão é: tenho informação suficiente para fazer um robô de mim mesmo?

O senhor gostaria de ter um desses? Eu poderia me aposentar e fazer algo diferente. Tem várias coisas que eu gostaria de fazer. As pessoas dizem que, se as máquinas fizerem tudo, não sobrará nada para os humanos fazerem, mas o que queremos fazer é uma questão intrinsecamente humana. As suas motivações não são automatizáveis porque não há resposta certa para isso.

O que entusiasma o senhor hoje? Ainda jovem eu era conhecido por realizar cálculos muito elaborados da física, mas o que as pessoas não entendiam, apesar de eu nunca ter escondido, é que eu estava apenas usando o computador para fazer essas coisas. Mas ninguém havia tido essa ideia.

Hoje em dia é uma coisa óbvia. Eu não gostava de fazer cálculos. Era possível desenvolver ferramentas computacionais para calcular, então eu fiz.

Eu fundamentalmente pego uma coisa muito complicada e processo ela até um nível primitivo para entender quais são os fundamentos. Depois reconstruo como um grande produto de engenharia tecnológica. O que me entusiasma é essa alternância entre ciência básica e aplicação tecnológica.

Eu gosto de entender as coisas e de usar esse conhecimento para construir ferramentas poderosas que me ajudam a entender mais coisas. Gosto de construir o que chamo de “artefatos alienígenas”.

São coisas que, ao existirem, as pessoas conseguem entender para que servem, mas antes, ninguém teria adivinhado que existiriam.

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