Ameaça de Trump derruba lira turca e arrasta mercados

Presidente diz que elevará tarifa de aço em retaliação à prisão de pastor; no Brasil, Bolsa recua 2,9% e dólar vai a R$ 3,86

Donald Trump e  Recep Tayyip Erdogan
Em mensagem no Twitter, republicano disse ter autorizado tarifa sobre o alumínio turco - Benoit Doppagne/AFP
Danielle Brant Anaïs Fernandes
Nova York e São Paulo

O presidente dos EUA, Donald Trump, mirou a Turquia nesta sexta (10), ao ameaçar dobrar as tarifas sobre aço e alumínio importados do país, mas acabou acertando o próprio mercado americano e outras Bolsas globais, contaminados pela piora na crise cambial turca.

Pela manhã, em mensagem no Twitter, Trump disse ter autorizado que se dobrassem para 20% e 50%, respectivamente, as tarifas sobre alumínio e aço comprados da Turquia. “Nossas relações com a Turquia não estão boas neste momento”, afirmou.

O aumento nas tarifas de aço é uma retaliação à detenção do pastor americano Andrew Brunson, acusado de apoiar um grupo que teria feito uma tentativa de golpe na Turquia em 2016.

A mensagem agravou a a crise cambial vivida pela lira turca. A moeda, que caía em torno de 10%, passou a despencar mais de 20%, antes de fechar em baixa de 14,6%. No ano, a desvalorização é de 41,1%.

As moedas emergentes sentiram o baque e também perderam valor em relação ao dólar. Em relação ao real, a divisa americana subiu 1,6%, cotada a R$ 3,864. No fim do pregão, 23 das 24 moedas emergentes se depreciaram ante o dólar.

As Bolsas também foram impactadas, inclusive as americanas. O índice Dow Jones recuou 0,77%. O S&P caiu 0,71%,  e o índice da Bolsa de tecnologia Nasdaq teve baixa de 0,67%. No Brasil, o Ibovespa, das ações mais negociadas, fechou em queda de 2,86%, para 76.514 pontos.

Além da crise cambial, os investidores se preocupam com a saúde financeira do país, que tem uma das maiores dívidas externas entre as economias emergentes e uma das menores reservas internacionais.

Alguns sinalizam que, em breve, a Turquia terá de pedir socorro ao FMI (Fundo Monetário Internacional), como fez a Argentina alguns meses atrás.


Mas o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, há 15 anos no poder, não dá mostras de que pretende recorrer ao Fundo. Nesta sexta, ele afirmou que vai enfrentar a “guerra econômica”. 

O primeiro passo dado por Erdogan nesta sexta foi ligar para o presidente russo, Vladimir Putin, para reforçar os laços econômicos bilaterais.

A ameaça de Trump foi vista como uma resposta a um apelo de Erdogan para que a população parasse de converter lira turca em dólar e outras moedas estrangeiras, em meio à forte desvalorização da divisa local.

“Troque os euros, o dólar e o ouro que vocês estão mantendo debaixo do travesseiro por lira em nossos bancos. Essa é uma luta doméstica e nacional”, disse o presidente turco. 

Antes do tuíte do americano, Erdogan havia dito que estava pronto para suportar a pressão dos EUA. 

A moeda turca vem sofrendo fortes desvalorizações nos últimos meses em meio a uma crise econômica e institucional no país.

Erdogan tem constantemente entrado em choque com o banco central turco, colocando em xeque a autonomia da autoridade monetária para conduzir a política monetária do país. 

Ele quer manter os juros na Turquia em patamares baixos para continuar estimulando o crescimento econômico, em um contexto de alta das taxas nos Estados Unidos, que joga pressão sobre moedas de emergentes.

O presidente afirma que aumentar os juros elevaria a inflação —o contrário do que prega a teoria econômica ortodoxa.

Em relatório, o banco Goldman Sachs diz que as recentes quedas da lira turca são fruto das tensões políticas, de um “fracasso em entregar” aumento de juros e de uma ampla política heterodoxa.

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