Eletrobras arrecada R$ 1,3 bilhão em leilão com baixa competição

Leilão de ativos de geração eólica e de transmissão ocorreu em São Paulo, nesta quinta-feira

Taís Hirata
São Paulo

 Eletrobras arrecadou R$ 1,3 bilhão com a venda de sua participação em ativos de geração eólica e de transmissão de energia, em um leilão com baixa competição e lotes sem interessados. 

Inicialmente, a estatal pretendia levantar R$ 3,1 bilhões com a venda das participações, que foram divididas em 18 lotes. No entanto, não houve propostas para 7 deles no certame, realizado nesta quinta (27), em São Paulo.

A baixa competição já era esperada, devido ao prazo curto que os investidores tiveram para analisar os lotes e o fato de que a participação da Eletrobras na maior parte dos projetos era minoritária, o que afastou companhias que preferem ter o controle dos empreendimentos.

A combinação desses fatores favoreceu os sócios que já tinham participação nos ativos: além de já conhecerem bem os empreendimentos, o que facilita a análise, viram uma oportunidade de ampliar sua fatia ou assumir o controle nos projetos. 

Apenas dois lotes foram arrematados por grupos de fora, que ainda não tinham participação no ativo.

O resultado foi considerado “um sucesso” pelo presidente da estatal, Wilson Ferreira Júnior. 

“Nosso objetivo era terminar este ano com alavancagem [endividamento em relação à geração de caixa] abaixo de 3 vezes. No primeiro semestre, estava em 3,4. Com o resultado de hoje chegamos bem perto da meta, com cerca de 3,1”, afirmou. 

Os recursos das vendas deverão entrar no caixa da companhia ainda neste ano. Eles representam cerca de 7,4% da dívida líquida da estatal no primeiro semestre (último dado divulgado).

O leilão desta quinta é parte de um plano de reestruturação da estatal que vem sendo conduzido pelo presidente desde meados de 2016, quando assumiu. 

As medidas têm reduzido o endividamento da companhia: ao fim de 2016, a dívida líquida da estatal era de R$ 23,4 bilhões, valor que caiu para R$ 20,3 bilhões no ano seguinte e, ao fim de junho deste ano, para R$ 17,6 bilhões.

A reestruturação inclui também a venda das distribuidoras da Eletrobras no Norte e no Nordeste do país, a redução do número de funcionários por meio de programas de demissão voluntária, redução de investimentos, renegociação de passivos, entre outros. 

Após o leilão, Ferreira afirmou que a Eletrobras tentará leiloar novamente os lotes que não foram arrematados nesta quinta. 

“Eram os lotes maiores, o pessoal precisaria de um tempo maior. Agora vamos conversar com advogados [para um novo leilão]. O interesse de vender continua o mesmo, o objetivo do processo continua reduzir o endividamento.”

Além dos prazos curtos, o preço mínimo dos empreendimentos foi “mais apertado” neste leilão, o que também contribuiu para a menor competição, afirma Thais Prandini, diretora-executiva da consultoria Thymos. 

Ainda assim, ela avalia a concorrência como positiva para a Eletrobras. “Aumentar o prazo de análise dos projetos seria um risco, por jogar o leilão para depois das eleições. Fazendo antes, garantiu-se pelo menos a venda de uma parte”, afirma.

Para Fabiano Brito, sócio do escritório Mattos Filho, a Eletrobras e os órgãos de controle poderiam reavaliar a necessidade de leilão nos casos em que acionistas têm direito de cláusula de preferência –já que estes já teriam, mesmo com o leilão, direito de comprar o ativo mesmo que outra companhia vença a disputa no certame. 

Uma venda direta para a companha privada poderia inclusive destravar a venda dos ativos que não receberam propostas neste leilão, afirma o advogado.

O interesse mais baixo ocorreu entre os empreendimentos eólicos: dos 8 lotes, 5 não receberam proposta, e os demais foram vendidos pelo preço mínimo, sem disputa.

Os ativos de transmissão tiveram desempenho melhor, embora dois lotes não tenham recebido oferta.
Em alguns deles, houve concorrência e o preço ficou acima do mínimo ofertado –caso da linha de transmissão Uirapuru, no Paraná, arrematado pela Copel com ágio de 20,35%. 

Outro lote, com ativos de transmissão em Minas Gerais, recebeu propostas da Taesa e da Alupar, que ofereceram o preço mínimo. Como nenhuma das duas quis aumentar a oferta, a decisão foi feita por sorteio, vencido pela Alupar.

A Equatorial levou o lote de maior valor do leilão. O grupo já era acionista majoritário da Intesa (que tem linhas de transmissão em Tocantins, Goiás e Pará) e comprou os 49% restantes da Eletrobras por R$ 277,5 milhões. 

A Taesa levou três lotes, com valor total de R$ 161,1 milhões. A Alupar ficou com dois, de R$ 188 milhões.

O resultado de dois lotes ainda pode ser alterado, porque o edital prevê o direito de preferência dos acionistas que já têm participação no ativo. Ou seja, dois vencedores desta quinta não necessariamente levarão o ativo, já que os acionistas que já estavam no projeto poderão fazer a mesma oferta e ficar com a participação.

É o caso da Copel, na linha de transmissão de Uirapuru e de um consórcio liderado pela Alupar, que levou um lote de linhas na Amazônia.

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