Trump diz que Brasil trata empresas americanas injustamente

Presidente americano deu declarações durante entrevista sobre acordo com Canadá para manter Nafta com três países

Danielle Brant Arthur Cagliari
Nova York e São Paulo

O presidente americano, Donald Trump, acusou, nesta segunda-feira (1º), o Brasil de ser um dos mais difíceis do mundo para ter relações comerciais e disse que a forma como as empresas americanas são tratadas no país é injusta.

“É uma beleza, eles cobram de nós o que querem. Se você perguntar a algumas das empresas, elas dizem que o Brasil está entre os mais difíceis do mundo, talvez o mais difícil do mundo. Nós não ligamos para eles e dizemos: ‘ei, vocês estão tratando nossas empresas injustamente, vocês estão tratando nosso país injustamente’”.

Para Trump, o problema é que nenhum presidente americano anterior tentou negociar as relações comerciais com o Brasil. 

Presidente Donald Trump
Presidente Donald Trump - Leah Millis/Reuters

Foi a primeira vez que o americano reclamou das relações comerciais com o Brasil. Mas não é a primeira vez que o país se torna alvo do governo americano.

A principal disputa no momento diz respeito ao desejo do Brasil de ingressar na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

Em junho de 2017, o país deu entrada no pedido formal.Em março deste ano, os EUA bloquearam o início do processo de análise da solicitação dentro do organismo internacional. Um dos motivos para a resistência seria a intenção americana de manter o grupo limitado –a OCDE tem 37 países. Em maio, porém, a Colômbia foi aceita no clube.

Os ataques ao Brasil ocorreram após um jornalista questionar o republicano sobre as relações comerciais com a Índia, também acusada de cobrar “enormes tarifas”.

“A Índia cobra de nós tarifas tremendas. Quando enviamos Harley-Davidson, motocicletas, eles cobram elevadas tarifas. E eu falei com o primeiro-ministro Modi, ele vai reduzi-las, substancialmente”, afirmou. 

Trump acusou ainda “o resto do mundo” de querer tirar vantagem dos EUA. “Como região, temos que trabalhar muito perto de México e Canadá, porque conseguiremos competir com qualquer um. Temos coisas que ninguém tem, temos energia que ninguém tem. Temos madeira que ninguém mais tem”, disse.

O republicano convocou a coletiva de imprensa para comentar a decisão do Canadá de embarcar no acordo comercial que os Estados Unidos já haviam negociado com o México no final de agosto.

Havia um prazo, que terminava à meia-noite de domingo (30), para que os governos canadense e americano chegassem a um consenso sobre os termos do pacto renegociado. Poucas horas antes do horário limite, os dois lados alcançaram um acordo.

“Era um acordo injusto, seja em relação ao México ou ao Canadá. E agora é um acordo justo para todo mundo. É um acordo diferente, é um novo acordo, não é um Nafta refeito”, afirmou Trump nesta segunda.

Até no nome. O novo acordo trilateral se chamará USMCA, acordo entre EUA-México-Canadá na sigla em inglês.

No pronunciamento, o republicano afirmou em diferentes ocasiões que o novo pacto é “bom para os três”. “E só esse fato torna bom para nós. É um acordo muito diferente do Nafta, é muito mais recíproco para os Estados Unidos, o que é muito bom.”

Apesar de bater na tecla de que é um pacto novo, boa parte dos termos do Nafta se manteve. As principais mudanças dizem respeito a novas regras para produção automotiva e ao maior acesso de fabricantes americanos ao setor de laticínios canadense --um dos grandes impasses às negociações.

O documento repactuado inclui ainda provisões para a indústria automotiva com objetivo de incentivar a produção de veículos nos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que protegerá empresas de Canadá e México de um aumento de tarifas por parte da Administração de Trump.

Há cláusulas sobre comércio digital, propriedade intelectual e regras sobre serviços financeiros.
A renegociação do Nafta, “o pior acordo comercial já feito”, nas palavras de Trump, era uma promessa de campanha do republicano.

Após o acordo deste domingo, o representante de Comércio dos EUA, Robert Lighthizer, e a ministra de Relações Exteriores canadense, Chrystia Freeland, emitiram comunicado conjunto.

Eles afirmaram que o acordo vai “fortalecer a classe média, e criar empregos bons e bem pagos e novas oportunidades” para as cerca de 500 milhões de pessoas que vivem nos três países.

Economia fechada

O presidente do conselho da Amcham (Câmara Americana de Comércio), Hélio Magalhães, discorda de Trump sobre o Brasil ser difícil nas negociações. “Não é que nós negociamos de uma forma mais dura. A questão é que o Brasil é um país que sempre protegeu a produção interna. Mas isso não é nenhuma novidade.”

Para Magalhães, porém, esse comportamento deixa a participação do país no comércio global muito aquém de sua capacidade. “O Brasil tem a 8ª maior economia do mundo, mas sua participação é de 1,2%.”

Um papel mais forte nas negociações globais depende do país melhorar a competitividade aqui dentro, afirma o executivo. “Isso passa por uma carga tributária menor e menos complexa, os parceiros comerciais precisam sentir uma estabilidade jurídica. Há também uma burocracia ineficiente que não colabora e deixa tudo mais caro.”

Sobre o comentário de Trump de que nenhum presidente americano tentou negociar as relações comerciais com o Brasil antes, Magalhães disse ver nisso uma oportunidade para o Brasil. “Se Trump realmente tem o interesse, creio que é uma grande oportunidade para o governo brasileiro iniciar um acordo comercial.”

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