Polícia da Bahia apura maus-tratos a jumentos abatidos para a China

No transporte, animais morrem de fome e sede; couro é exportado para produção de remédio

Mário Bittencourt
Vitória da Conquista (BA)

Abandonados à beira de uma estrada, jogados de uma ribanceira por um caminhoneiro após saírem de Pernambuco e viajarem por quatro dias rumo ao abate no sudoeste baiano.

Este foi o fim de nove jumentos que, segundo a Polícia Civil da Bahia, morreram de fome e sede após uma viagem de pé, amontoados com outros 53 animais na carroceria, sem poderem se movimentar.

O caso foi flagrado em 30 de outubro pela polícia na cidade baiana de Itororó.

Na vizinha Itapetinga, outro caso suspeito de maus-tratos ocorreu dois meses antes, com 300 animais achados mortos e outros 750 com sinais de desnutrição.

Os jumentos nordestinos são abatidos na Bahia e depois exportados para a China depois de passarem por Hong Kong e Vietnã.

A indústria chinesa extrai da pele e couro do animal uma substância usada para fazer o ejiao, remédio que promete combater o envelhecimento, aumentar a libido nas mulheres e reduzir doenças do órgão reprodutor feminino.

Cerca de 350 jumentos encontrados em confinamento ilegal em uma fazenda em Itapetinga (BA)
Cerca de 350 jumentos encontrados em confinamento ilegal em uma fazenda em Itapetinga (BA) - Divulgação

Nas duas situações flagradas na Bahia, a responsável seria a empresa chinesa Cuifeng Lin, segundo a Polícia Civil de Itapetinga, o Ministério Público Estadual e a Adab (Agência de Defesa Agropecuária da Bahia), órgão do governo estadual.

A multinacional compra os animais abatidos e fica responsável pela aquisição e transporte até o local de abate.

As autoridades apontam que ela transportou animais sem GTA, guias de trânsito que atestam a origem do animal e serve como comprovante sanitário, e confinou os jumentos de forma ilegal.

O frigorífico Sudoeste, para onde seriam levados animais e que tem contrato com a Cuifen Lin, respondeu que apenas recebe jumentos cujos caminhões têm a GTA.

O cenário encontrado em Itapetinga foi descrito como de horror por agentes da Adab e pela prefeitura.

Além dos cadáveres, os outros 750 bichos ainda vivos estavam sem comida ou água, a maioria debilitados, definhando, sem conseguirem ficar em pé.

Algumas fêmeas já estavam em procedimento abortivo, relata a Adab em um relatório usado pelo Ministério Público da Bahia como base para uma ação civil pública contra o confinamento.

Pelo caso de Itapetinga, a Cuifeng Lin foi multada em cerca de R$ 30 mil por maus-tratos e transporte e confinamento ilegais de jumentos. A reportagem tentou contato por telefone, sem sucesso, na filial baiana e na sede, em São Paulo. Depois do caso, os confinamentos foram proibidos na Bahia.

Em geral, os jumentos são pegos nas estradas à noite ou comprados por R$ 30 em estradas do Nordeste. A Bahia, segundo o Ministério da Agricultura, é o único estado brasileiro que tem frigoríficos autorizados a abater jumentos —são três no estado.

Estão sendo abatidos na Bahia 300 a 400 jumentos por semana. Segundo a Adab, o estado tem um plantel de 96 mil jumentos, segundo produtores, mas se estima que a quantidade de animais, incluindo os soltos, chegue a 200 mil. 

No Nordeste, a projeção é de 800 mil jumentos.

Segundo o ministério, a Bahia exportou para o Vietnã 1,28 mil toneladas de carne e couro de “cavalos, asininos e muares”, a US$ 2,5 milhões (R$ 9,7 milhões), neste ano. Para Hong Kong, foram 24,4 toneladas, por US$ 36.814 (R$ 142.282,43). O destino é sempre a China.

“Esse é um ato cruel contra esses animais, eles são pegos em todos os lugares. O jumento é patrimônio cultural, tem de ir para um santuário, tem de ter respeito”, disse a coordenadora da Frente Nacional de Defesa dos Jumentos Gislane Brandão.

Os chamados santuários também têm problemas. No Nordeste, havia um deles em uma fazenda em Apodi (RN), na divisa com o Ceará.

No dia 12 deste mês, porém, o local foi flagrado pela Polícia Civil potiguar e pelo Ibama (órgão federal) em situação de maus-tratos. Segundo a polícia, havia no local três cemitérios com centenas de carcaças de animais: 500 cachorros, 700 jumentos e 150 gatos.

“Ele recebe esses animais de prefeituras, mantendo os bichos doentes e alimentados com um tipo de mistura”, diz comunicado da polícia. A reportagem não localizou Nobre, que não tem advogado.

O diretor do Frigorífico Sudoeste, José Marcos Ribeiro Costa, defende o abate dos animais. “O jumento é abatido como ocorre com o gado, não tem maus-tratos.”

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