Temor de paralisação do governo americano reforça queda nas Bolsas

Ameaça de Trump de não assinar Orçamento adiciona tensão ao mercado, já debilitado após o Fed

Tássia Kastner
São Paulo

Um banco central americano insensível ao medo de investidores de uma desaceleração da economia global levou a uma nova rodada de perdas nos mercados financeiros nesta quinta-feira (20) e coloca as Bolsas americanas em tendência de queda. A baixa se acelerou ainda por risco de um apagão nos serviços do governo dos Estados Unidos a partir de sábado.

O presidente americano, Donald Trump, disse que não assinaria a proposta de Orçamento do Congresso porque ela teria recursos insuficientes para garantir a segurança na fronteira com o México. 

Sem a aprovação até esta sexta (21), parte dos serviços americanos pode ser suspensa por falta de verba. 

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Operador se lamenta na Bolsa de NY em pregão marcado por novas perdas - Brendan McDermid/Reuters

O risco maior de apagão alimentou o temor disparado pela decisão Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA) na quarta-feira.

O Fed seguiu as expectativas de mercado ao elevar os juros para o intervalo de 2,25% a 2,5% ao ano e também ao sinalizar que no próximo ano ocorrerão dois novos aumentos.

Mas investidores entenderam que, para o banco central americano, um recrudescimento do cenário global não mudaria a postura de aumento de juros, o que prejudicaria a economia.

“O receio é um erro na política monetária, que poderia levar a uma desaceleração maior da economia nos anos subsequentes”, escreveu a XP em relatório a clientes.

Juros sobem para controlar risco de alta da inflação, mas isso significa também a redução de dinheiro em circulação na economia. Essa tem sido uma das principais críticas de Trump ao Fed. Ele acusa o banco central de ser o responsável por frear a expansão dos EUA.

A desaceleração americana já estava contratada, segundo economistas, e ganha risco adicional com o acirramento da guerra comercial travada entre governo Trump e China.

Os ânimos do mercado pioraram a partir de outubro e começaram a afetar preços. O exemplo mais concreto do aumento do risco é o preço do petróleo, que saiu da máxima em quatro anos, alcançada no começo de outubro, para a mínima em mais de 12 meses. Neste período, o brent se desvalorizou mais de 40%.

A desaceleração da economia global reduz a demanda por matérias-primas, e é o temor de excesso de combustível em estoque que derruba os preços.

Também é o risco de desaceleração, somado à menor circulação de dinheiro devido às altas de juros, que pressiona as Bolsas americanas. 

No acumulado do ano, o índice S&P 500 recua mais de 8%, enquanto o Dow Jones tem perda de 7,3%.

Já o índice de tecnologia Nasdaq recua 19,5% desde o pico de agosto, entrando no que o mercado conhece como território de baixa (chamado no jargão de bear market). É quando o ativo perde 20% de valor depois de um pico.

 

Na Europa, as perdas no ano são ainda mais expressivas. O índice Euro Stoxx 50 cede quase 15% no ano, enquanto a Bolsa de Frankfurt recua mais de 18%. Os índices renovaram no pregão desta quinta as mínimas em dois anos.

A Bolsa brasileira seguiu o dia negativo no exterior e fechou em queda. O Ibovespa, principal índice acionário do país, recuou 0,47% e terminou a 85.269 pontos. O volume financeiro foi de R$ 16,2 bilhões.
O mercado local foi pressionado pela queda das ações da Petrobras, que sentiram a desvalorização do petróleo. 

No acumulado do ano, porém, a alta ainda supera 12%, reflexo do retorno de investidores locais para o mercado, confiantes na recuperação da economia e a aprovação de reformas propostas pelo governo do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL).

A ausência de estrangeiros no mercado em meio a piora no ambiente global e demora na apresentação de uma proposta de reforma da Previdência, considerada fundamental para o crescimento do país e equilíbrio das contas públicas, têm afastado o Ibovespa das máximas histórias atingidas no começo do mês.

Do pico de quase 90 mil pontos, de 2 de dezembro, até esta quinta, o Ibovespa perdeu 5% e sepultou a expectativa acalentada pelo mercado de que o índice poderia se aproximar dos 100 mil pontos ainda neste ano.

O dólar caiu ante o real e fechou a R$ 3,8520. Entre os emergentes, a moeda brasileira foi a que mais se valorizou ante a americana —de uma cesta de 24 delas, 14 ganharam ante o dólar.

“O mercado ainda acha que o Fed vai mudar de tom. Como ainda tem a questão comercial acontecendo lá fora, o Brexit e questões orçamentárias na Europa, expectativa de desaceleração mundial, o mercado acredita que o Fed deve adotar uma postura mais expansionista o quanto antes”, avaliou a estrategista de câmbio do Banco Ourinvest, Fernanda Consorte

O pregão foi marcado, porém, por nova ação do Banco Central no mercado. O BC realizou novo leilão de linha —venda com compromisso de recompra— de US$ 1 bilhão. 

O objetivo é dar liquidez ao mercado em um momento em que empresas elevam a demanda por moeda estrangeira para enviar remessas e lucros para matrizes no exterior. Na prática, a intervenção ajuda a conter a tendência de alta do dólar, que superou os R$ 3,90 por várias sessões neste mês.

Com Reuters

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