Descrição de chapéu Crítica Cifras & Letras

Big techs controlam usuários ao explorar dados, diz autora

Professora afirma que capitalismo de vigilância criou nova forma de poder

JOHN THORNHILL
Londres

The Age of Surveillance Capitalism

  • Preço R$ 32,90, 705 págs.
  • Autor Shoshana Zuboff
  • Editora PublicAffairs

Enquanto tateamos a escuridão para tentar divisar os contornos de nossa era digital, "The Age of Surveillance Capitalism" [a era do capitalismo de vigilância], de Shoshana Zuboff, ilumina a maneira pela qual a mais recente revolução está transformando nossa sociedade.

Como criadora do conceito de "capitalismo de vigilância", Zuboff desempenha um papel persuasivo ao explicar as maneiras pelas quais "esse projeto comercial, voraz e novo" está reescrevendo radicalmente as regras do jogo econômico, criando assimetrias novas e extraordinárias de conhecimento e poder.

Ao rastrear cada clique, cada expressão digital de interesse, ambição, anseio e desejo, os capitalistas de vigilância são capazes de penetrar em nossas cabeças e de vender os insights que extraem sobre o nosso comportamento ao seu verdadeiro cliente, os anunciantes.

Zuboff, professora emérita da escola de administração de empresas da Universidade Harvard, está determinada a despertar nosso senso de espanto e de indignação sobre como essa forma renegada de capitalismo evoluiu para dominar e degradar nossas vidas, de modo quase despercebido e incontestado. 

Ela também faz outra afirmação mais preocupante: a de que o capitalismo de vigilância criou uma nova forma de poder que presta contas a ninguém, o instrumentalismo. 

Ela define esse poder como a instrumentação do conhecimento para fins de modificação, previsão, monetização e controle, que ameaçam desafiar fundações do Estado e usurpar a soberania do povo. 

Mesmo que acionemos os alarmes, não devemos esperar que os governos detenham esses desdobramentos, porque de muitas formas são seus cúmplices e beneficiários.

O principal foco da análise de Zuboff é o Google. Ela argumenta que a companhia inventou e aperfeiçoou o capitalismo de vigilância. 

Mas outros praticantes do instrumentalismo também levam bordoadas, especialmente a Microsoft e o Facebook. 

Visitantes da CES, em Las Vegas, viajam em trenzinho do Google Assistant na feira de tecnologia - Robyn Beck - 10.jan.19/AFP

Na opinião de Zuboff, a missão original do Google, a de tornar todas as informações acessíveis, mudou para um imperativo impiedoso de ganhar dinheiro por meio da exploração e modificação do comportamento humano, ao encaminhar anúncios aos usuários no exato momento em que eles estão mais suscetíveis a persuasão, gerando necessidades que nem sabiam ter.

O Google busca capturar todos os nossos dados, inventando produtos a fim de sugar cada migalha que reste no mapa digital. Cada aparelho "inteligente" --de assistentes digitais a termômetros retais, carros autoguiados e casas conectadas-- se tornou um mecanismo de coleta de dados. 

O Facebook, de sua parte, tem mais de 2 bilhões de usuários e também está expandindo seus interesses no mundo físico. 

Os usuários do Google não são os clientes da empresa, o que o torna radicalmente indiferente a seus interesses reais. Os serviços de busca bancados por publicidade sempre priorizarão aqueles que pagam as contas, ante aqueles que usam seus serviços, pelo menos enquanto os usuários continuarem fisgados.

Zuboff adentra território mais controverso na análise do poder. Os capitalistas de vigilância não só são capazes de monetizar nossos dados mas de usá-los para prever nosso comportamento e, com isso, modificá-lo. Em termos mecânicos, eles não são mais apenas sensores: são atuadores.

A tese geral dela pode ser contestada em muitos níveis. Zuboff em geral ignora o lado positivo da revolução tecnológica. Quase certamente subestima a dinâmica competitiva do mercado. E retrata os jovens como otários indefesos, que usam seus celulares 157 vezes por dia --ainda que eles pareçam cada vez mais antenados quanto à tecnologia e céticos a seu respeito.

A análise do poder também é discutível. As pessoas que teoricamente o exercem tem pouco interesse em fazê-lo, para além de se enriquecerem. Elas não têm grandes projetos para a humanidade, exceto ideias vagas de fazer o bem.

O maior pecado de Larry Page, Mark Zuckerberg e Satya Nadella certamente não é o de serem maus, mas sim o de serem ingênuos.


Tradução de Paulo Migliacci

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Lista feita com amostra informada pelas livrarias Curitiba, da Folha, da Vila, Saraiva e Argumento; os preços são referências do mercado e podem variar 
 

Financial Times

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