Empresa de Buffett perde US$ 4,3 bilhões com queda de ações da Kraft Heinz

Companhia é controlada pelo fundo brasileiro 3G e pela Berkshire Hathaway

Danielle Brant
Nova York

A Berkshire Hathaway, empresa do bilionário americano Warren Buffett, perdia US$ 4,3 bilhões (R$ 14,9 bilhões) até 14h20 (horário de Nova York) por causa da queda de cerca de 28% das ações da Kraft Heinz nesta sexta-feira (22), depois de a empresa anunciar uma série de notícias ruins, incluindo uma investigação do regulador do mercado de capitais americano.

A Kraft Heinz é controlada pelo fundo 3G, dos brasileiros Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, e pela Berkshire Hathaway. No Brasil, o portfólio de produtos da empresa inclui ketchup, mostarda e maionese da marca Heinz, entre outros.

No final de 2018, a Berkshire tinha 325 milhões de ações da gigante alimentícia, o que a tornava a sexta maior holding detida pela empresa de Buffett, atrás de Apple, de alguns bancos e da Coca-Cola.

Potes de ketchup da Heinz
Berkshire Hathaway perde US$ 4 bilhões em um dia após ações da Kraft Heinz desabarem - Arnd Wiegmann/Reuters

O investidor é conhecido por comprar ações que considera baratas e mantê-las em sua carteira por bastante tempo, em vez de buscar somente o lucro no curto prazo. Ele também procura boas pagadoras de dividendos, e um dos anúncios da Kraft Heinz foi justamente o corte em um terço da fatia do lucro que será distribuída aos acionistas.

A Kraft Heinz tem sofrido queda nas vendas em razão da mudança de hábito de consumidores, que vêm trocando alimentos industrializados por produtos mais saudáveis. A companhia também viu seu poder de negociação com varejistas diminuir nos últimos anos.

Na quinta, a empresa divulgou uma receita de US$ 6,89 bilhões (R$ 25,7 bilhões) no quarto trimestre, abaixo da expectativa de analistas. A Kraft Heinz também fez uma baixa contábil de US$ 15,4 bilhões (R$ 57,5 bilhões) pela reavaliação das marcas Kraft e Oscar Mayer. Com isso, registrou prejuízo de US$ 12,6 bilhões (R$ 47,1 bilhões) no período.

O diretor financeiro da companhia, David Knopf, sugeriu que marcas menos atrativas podem ser vendidas para tentar reequilibrar a situação financeira.

As dores de cabeça da Kraft Heinz incluem ainda uma investigação na SEC (Securities and Exchange Commision), órgão regulador do mercado americano, por questões relacionadas à sua contabilidade.

A SEC autuou a empresa em US$ 25 milhões por não ter declarado custos com ingredientes e outras despesas no balanço. A empresa afirmou colaborar com o regulador e que abriu investigação interna para apurar o caso.

As notícias ruins fizeram analistas rebaixaram as projeções para a empresa. A PiperJaffray cortou para neutra sua avaliação. Em relatório, Michael Lavery afirmou que a casa acredita que foi “excessivamente otimista” com a expectativa de crescimento da Kraft Heinz.

Com a reavaliação de US$ 15,4 bilhões das marcas Kraft e Oscar Mayer, Lavery diz não estar confiante de que a empresa possa construir ou manter uma marca que consiga competir no atual contexto de consumo de maneira sustentável e atrativa.

O analista diz ainda que a visão otimista sobre a empresa era motivada pela expectativa de um acordo grande no setor, que poderia agregar de 15% a 25% de valor à empresa.

“Nós não sabemos por que a KHC [Kraft Heinz] não foi capaz de executar um acordo em dois anos desde a tentativa fracassada de comprar a Unilever, mas agora nós devemos aceitar que conseguir fechar um acordo atrativo é muito menos provável do que esperávamos.”

Os analistas Ken Goldman e Thomas Palmer, do J.P. Morgan, também reduziram para neutra a perspectiva para a empresa. Segundo eles, as projeções otimistas, que incluíam a expectativa de criação de valor com fusão e aquisição e o corte de custos, desapareceram, ao menos por enquanto.

Para eles, a ação está sendo negociada perto de seu valor justo –fechou a US$ 34,95, queda de 27,5%.

Os analistas questionam ainda se algum valor para a empresa foi criado desde a fusão da Kraft com a Heinz, e contestam a estratégia do 3G. “Investidores por anos perguntaram se o modelo de aperto de cintos extremo do 3G poderia, no fim, resultar em erosão de marca. Nós achamos que a resposta provavelmente veio ontem, na forma de uma redução de US$ 15 bilhões em ativos intangíveis para as marcas Kraft e Oscar Mayer.”

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