Descrição de chapéu Alalaô

Bebida de R$ 3, Corote repagina marca e vira atração entre universitários

Conhecida pela cachaça barata, marca vê crescimento de 40% com venda de coquetel saborizado

Heloísa Negrão Arthur Cagliari
São Paulo

As garrafinhas redondas de plástico nas mãos (e bocas) de jovens causam olhares tortos dos mais velhos. A embalagem e a marca Corote —conhecida por causa das suas cachaças de R$ 2— prometem virar hit do Carnaval de 2019.

Ao contrário do que parece, ninguém está bebendo cachaça como se fosse refrigerante. A Corote Sabores é feita a base de vodca. E diferente da sua “irmã mais velha”, de quem herdou a embalagem “barrigudinha”, possui 13,5% de graduação alcoólica, bem menos que os 40% da aguardente.

Os 500ml de vodca misturada com essências que vão do tradicional limão ao exótico blueberry eram vendidos por de R$ 8 nos blocos de Carnaval de São Paulo. Nos bares, três garrafas saiam por R$ 10 —mesmo valor pago por três latinhas de 269ml de cerveja. No varejo, a garrafinha custa R$ 3.

“Com duas garrafinhas dessas eu já estou bêbado. Fica muito mais barato [do que beber cerveja]”, disse um folião durante o bloco Baixo Augusta, no domingo anterior ao do Carnaval, enquanto tomava a segunda garrafa da bebida sabor pêssego.

 

Ao todo são oito sabores, para o Carnaval, a Missiato vai lançar o de Tutti Fruti. “O pessoal ficou louco. Mandamos umas caixas para os clientes experimentarem e não vamos dar conta de entregar os pedidos feitos para o Carnaval”, afirma o diretor-presidente da empresa, Paulo Missiato.

Os universitários do interior de São Paulo foram os principais responsáveis pelo sucesso da Corote Sabores. Segundo Missiato, a empresa viu “uma grande oportunidade voltada ao público universitário, pois além de fazer muitas festas, eles buscam produtos mais acessíveis”.

A “barrigudinha” se deu bem na crise econômica dos últimos dois anos. “Principalmente o consumidor mais jovem, e mais afetado pelo desemprego e pela informalidade no mercado de trabalho, queria manter suas ocasiões de lazer, mas queria algo mais barato”, afirma Maria Angélica Salado, analista sênior de pesquisa da Euromonitor Internacional.

Criada há quatro anos, a Corote Sabores é tida como um divisor de águas dentro da Missiato. A indústria com mais de 60 anos, localizada em Santa Rita do Passa Quatro (250 km de São Paulo). Nos últimos dois anos, a empresa cresceu 40%, em grande parte por causa da bebida saborizada.

Para falar com o novo público consumidor, a marca precisou mudar a forma de lidar com os varejistas.

“Com a cachaça, a gente colocava um banner nos mercados ou dava um pano de prato para os donos dos bares, mas com a Corote Sabores tivemos de fazer uma comunicação diferenciada, contratamos agência, investimos nas redes sociais’, afirma.

Entre as fotos que a marca publica no Instagram não faltam universitárias dando beijinhos nas garrafinhas de bebida. Tem até uma dupla de braços masculinos com o ‘C’ da marca tatuado. “Os universitários adotaram a Corote Sabores como um filhinho”, diz Missiato.

Para atender os fãs, a empresa já planeja criar um e-commerce, onde vai vender bonés e camisetas com o logo da Corote.

Além a internet, as vendas cresceram depois que o produto passou a ser divulgado nas atléticas das faculdades (normalmente, responsáveis por organizar as festas).

Hoje, a marca está entre as patrocinadoras das grandes festas universitárias do interior de São Paulo, como Tusca, InterUnesp e Federal Fantasy. Tanto que no estado, a bebida com sabor é líder de vendas –a empresa também fabrica cachaça, vodca, ice e catuaba.

Em uma festa da faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, a reportagem acompanhou a chegada e o rápido fim das garrafinhas –as primeiras a acabar no bar.

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Bebida sabor blueberry é servida em festa da faculdade Cásper Libero, em São Paulo - Isabella Faria/Folhapress

“Eu fico louco muito mais rápido”, disse um dos frequentadores da festa.

Segundo o dono da marca, para as festas, os universitários chegam a comprar 500 caixas da bebida, com 12 unidades em casa. Ele diz que o segredo do sucesso está na qualidade e no custo-benefício. “A bebida é filtrada sete vezes e tri-destilada. Todas as impurezas vão embora e você não tem aquela dor de cabeça no dia seguinte”.

Esse ano, a Missiato aposta no Carnaval. A empresa fez uma parceria com a União dos Blocos de Carnaval de Rua de São Paulo e terá mais de 500 pontos de degustação da bebida.

Missiato aguarda o fim da festa para confirmar os bons resultados. “Esse ano a distribuição foi muito maior, vamos esperar como vão ser os pedidos de reposição dos clientes”, diz.

“Levando em consideração a situação do nosso país nos anos anteriores, a Missiato vem na contramão de outras empresas, alcançando números crescentes a cada ano, tanto em volume físico, como em faturamento”.

O teor alcoólico mais baixo também colabora para o negócio, dado que os impostos são menores. O tributo sobre a cachaça, por exemplo, chega a 80% do valor final.

"A cachaça hoje é o produto mais tributado no Brasil. O IBPT [Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário] estima que cerca de 82% do preço final de uma cachaça são impostos”, afirma Carlos Lima, diretor-executivo do IBRAC (Instituto Brasileiro da Cachaça).

De acordo com a Euromonitor, seguindo a tendência que começou em 2017, o consumo das bebidas alcoólicas saborizadas deve continuar em alta nos próximos cinco anos — estima-se serão bebidos 171 mil litros desses produtos em 2022.

Colaborou Isabella Freitas

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