Descrição de chapéu Entrevista da 2ª

Bolsonaro precisa ter foco para aprovar a reforma da Previdência, diz presidente do Bradesco

Para executivo, desvinculação do Orçamento seria mais difícil de ser implementada e outras mudanças precisam ser feitas

Fernando Canzian Tássia Kastner
São Paulo

O presidente do Bradesco, Octavio de Lazari, cobra foco do presidente Jair Bolsonaro (PSL) para a aprovação da reforma da Previdência e diz que é preciso “ter cuidado com as coisas que a gente coloca na rede social”.

Octavio de Lazari, presidente do Bradesco, em entrevista à Folha.
Octavio de Lazari, presidente do Bradesco - Victor Parolin/Folhapress

Lazari diz que, se a reforma não sair no primeiro semestre, o mercado pode começar a questionar o quanto o governo conseguirá implantá-la. 

“Em isso acontecendo, pode ter desdobramentos muito prejudiciais à economia.” 

Questionado sobre o comportamento um tanto errático de Bolsonaro até aqui, o executivo afirma: “Todo mundo erra. Não estou dizendo que ele errou, mas estou dizendo que faz parte do ser humano essa curva de aprendizado.”

“Como presidente, vai ser orientado e terá uma postura de ter esse foco naquilo que a gente precisa fazer no país.”

O novo governo começou com tropeços, caso Queiroz [ex-assessor de Flavio Bolsonaro suspeito de desvio de verba de gabinete], a queda do ministro Gustavo Bebianno [Casa Civil] e ainda os tuítes polêmicos no Carnaval. Qual é a sua avaliação desse início de governo? A gente tem uma expectativa muito boa, o mercado está apostando nisso. Pode ter tido alguns desencontros, mas a gente tem uma pauta preponderante, a Previdência. O que o governo precisa fazer é focar absolutamente essa reforma, trabalhar com muito afinco e concentrar as forças para que ela possa andar rápido. O ideal é que a gente tivesse [a aprovação] no primeiro semestre. Se isso não acontecer o mercado pode começar a questionar o quanto o governo conseguirá implantar da reforma. Em isso acontecendo, pode ter desdobramentos muito prejudiciais à economia brasileira.

O governo está perdendo tempo em pautas não essenciais? Na iniciativa privada, quando assume uma empresa, a primeira coisa que um executivo faz é ter foco. Elege dois, três, quatro índices que precisa trabalhar e foca para resolver rapidamente. Essa receita se aplica também ao setor público. Se temos uma pauta prioritária, precisamos lutar por ela. E todo o governo, Paulo Guedes [ministro da Economia] e o próprio presidente Bolsonaro, [Sergio] Moro [Justiça], têm o foco para fazer com que a reforma saia. 

O comportamento um pouco errático do presidente, colocando assuntos fora da pauta, criticando a imprensa, atrapalha o foco que o sr. cobra? Eu acho que sim. Tudo é uma curva de aprendizado. As pessoas têm livre arbítrio para fazer o que precisam, mas a gente tem que saber as nossas necessidades. E ele, como presidente, vai ser orientado e terá postura de ter foco naquilo que a gente precisa fazer no país.

Todo mundo erra. Não estou dizendo que ele [Bolsonaro] errou; estou dizendo que faz parte do ser humano essa curva de aprendizado, especialmente quando você está enfrentando um cargo novo e da importância que tem. 

Notícia falsa viraliza mais que informações verdadeiras. As postagens de Bolsonaro sobre a Previdência mostraram isso. A gente tem quer ter cuidado com as coisas coloca na rede social. Acho que aí é critério de cada um o que vai postar. Volto a repetir, a gente tem prioridades que devem ser colocadas em primeiro plano para que as coisas possam acontecer na velocidade que a gente precisa. Esses desvios vão ser solucionados.

O projeto da Previdência prevê economia de R$ 1,1 trilhão. Mas logo na saída, Bolsonaro disse que poderia reduzir a idade mínima para mulher e flexibilizar outros pontos. Ele está sendo um bom vendedor da reforma? A gente tem que lutar pelo projeto da forma como foi escrito. É lógico que talvez algumas concessões precisem ser feitas para atender os interesses da nação. Não interesses de grupos específicos, isso tem que deixar claro. E, lógico, proteger as pessoas que mais necessitam. Se tivermos que abrir mão de alguns valores por conta disso, vamos ter que encontrar outras fontes para supri-los.

Qual piso o mercado consideraria? R$ 1 trilhão. O mercado estava satisfeito com os R$ 700 bilhões do Temer, só que as coisas mudam. Qualquer número abaixo de R$ 1 trilhão não é adequado. Isso é o que eu estou dizendo e é o que ouço dos analistas do mundo inteiro: de R$ 800 bilhões a R$ 900 bilhões seria razoável, acima de R$ 1 trilhão seria essencial. Se for mais que isso, R$ 1,2 trilhão, R$ 1,3 trilhão, passa a ser excepcional. 

O crescimento de 2019 foi atrelado à reforma, mas ela não deve passar no primeiro semestre. Se a reforma escorregar para o segundo semestre, não vamos conseguir crescer o que prevíamos, 2,8%, 2,9%. 

Alguns analistas já não contam com essa alta. Estão falando em 2,4%, 2,3%, porque estão prevendo que até passar no Congresso, vai para o segundo semestre e então o PIB não vai vir na velocidade que a gente gostaria. Toda a recuperação que poderia ter, vamos escorregar para 2020. É um ano a menos para aproveitar as benesses que um crescimento maior pode fazer.

O governo diz que a reforma fará o país voltar a crescer. Foi o que Temer fez com a reforma trabalhista, dizendo que criaríamos 10 milhões de empregos, o que não se concretizou. Isso não coloca areia na venda da reforma? E Temer não errou ao aprovar o teto de gastos antes da Previdência? Tenho convicção de que não há bala de prata, um só movimento não vai resolver. A reforma trabalhista foi importante, desonerou ou vai desonerar as empresas porque diminui o volume de ações trabalhistas. Aqui no banco a redução foi de 47%. Isso dá tranquilidade maior para prever o que pode acontecer no futuro. Quer queira, quer não, nós temos 70 mil ações trabalhistas. 

A reforma trabalhista é importante, a da Previdência é importante, a simplificação tributária é importantíssima para o crescimento, a desoneração da atividade produtiva é importantíssima. Mas não dá para fazer tudo de uma vez. Você depende de uma para que outras possam acontecer. A urgência da reforma da Previdência não é só por conta dela, é por outras coisas que também precisam ser feitas.

Há espaço para tocar uma reforma paralela, como sugerido por Paulo Guedes com a desvinculação do Orçamento? Essa seria a segunda opção caso a da Previdência não possa sair nos moldes que deveria. Nós temos que dar foco, olhar a Previdência. Se o governo não tiver o sucesso que pretende, você pode voltar energias para outra pauta. Só que eu acho ela muito mais difícil de ser implementada. 

A Previdência, bem ou mal, a população já sente que vai mudar; só precisa saber qual é a regra do jogo. Tenho 55 anos de idade e 40 de trabalho, não vou mais me aposentar aos 55, vou me aposentar aos 60, 62, 65. Não importa. Se a nova é que tenho que trabalhar mais dois anos, deixe isso claro.

O sr. completou um ano na chefia do Bradesco. Os resultados de 2018 foram elogiados pelo mercado, e as metas de 2019 são ambiciosas. Será possível entregar os resultados se o PIB não tiver o desempenho esperado? A gente vem observando um crescimento dos retornos do banco nos últimos 13 meses, e o último trimestre foi particularmente muito bom. Óbvio, depende de o país crescer. Sei que os guidances [projeções] são audaciosos, mas não posso fazer um guidance tímido, pensando no pior. Eu tenho que fazer acreditando que as coisas vão melhorar.

Existe um questionamento sobre a lucratividade dos bancos, e a própria Febraban (federação de bancos) fez campanha para esclarecer os juros cobrados. Não dá para dar uma resposta mais objetiva para a população? Esse assunto tem que ser discutido. Dos spreads no Brasil —e isso falado pela Febraban e comprovado por BC e consultorias—, o que fica como resultado do banco é 14%. Todo o resto vai em tributo, inadimplência, vários outros custos. 

Se pegar carteiras que cresceram em 2018 no Bradesco, e também nos outros bancos, foi principalmente crédito imobiliário, que tem uma taxa que não é nenhum absurdo.

O problema é a taxa do cheque especial. Sou o maior defensor de baixar para 3% ou 4%. Por que que ela não é 3% ou 4%? Porque a inadimplência é muito diferente de um consignado. Em qualquer país do mundo o cheque especial tem tarifa. Quando o sujeito vê que estourou a conta e pagou uns R$ 20, vai pensar duas vezes antes de estourar de novo. Isso é educação financeira. Nós não podemos cobrar tarifa, é proibido.

O que eu digo é o seguinte: deixem as pessoas terem direito a seu livre arbítrio e tomarem suas decisões, e deixem que os bancos cobrem tarifas.

O sr. diz que gostaria de cobrar mais tarifas em um ambiente em que fintechs estão crescendo com serviços sem tarifas. Eu estou fazendo um trade-off, estou dizendo que vou reduzir juros de 14% para 3%, 4%. É diferente. A partir da cobrança da tarifa, será que a inadimplência não vai cair? Se cair, os juros podem diminuir, ou até a tarifa. Não dá para conviver com o cheque especial a 14%.

No rotativo, o juro caiu bastante, mas voltou a subir Algumas casas sim, aí é de cada um. Agora, a entrada das fintechs é uma concorrência sadia. Se estão dando um serviço melhor, uma taxa de juro melhor e uma tarifa melhor, nós vamos ter que nos adaptar.

Octavio de Lazari, 55

  • Presidente do Bradesco há um ano, começou sua carreira no banco como office-boy em 1978
  • Passou a integrar a diretoria em 2017, quando assumiu a Bradesco Seguros.
  • É formado em Ciências Econômicas pela Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas de Osasco e possui especializações pela FIA (Fundação Instituto de Administração), FGV e Fundação Dom Cabral

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