'Decisão de fechar ou abrir fábricas é privada', diz secretário de Bolsonaro

Carlos Costa participa nesta quinta de reunião para discutir fechamento da fábrica da Ford

Raquel Landim
São Paulo

O economista Carlos da Costa, secretário especial de Produtividade, Emprego e Competitividade do Ministério da Economia, disse à Folha que a missão do governo federal é requalificar os trabalhadores que devem ser dispensados pela Ford.

A montadora anunciou que vai fechar sua fábrica de caminhões em São Bernardo do Campo (SP).

"Essa é uma das últimas fábricas de caminhões da Ford no mundo —se não for a última. Vou dar um incentivo fiscal para continuar fabricando caminhões, um produto no qual a Ford parou de investir? O que podemos fazer é ajudar os trabalhadores a se requalificarem e se recolarem —de preferência, em empregos melhores", disse ele.

Costa se reúne nesta quinta-feira (7) com representantes da montadora, do governo estadual e da prefeitura local.

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Carlos da Costa, secretário especial de Produtividade, Emprego e Competitividade do governo de Jair Bolsonaro - Karime Xavier / Folhapress

 


A Ford anunciou que vai fechar sua fábrica de caminhões em São Bernardo do Campo. Existe algo que o governo federal possa fazer?

A decisão de fechar ou abrir fábricas é privada. Precisamos entender com profundidade qual é o fenômeno que está em curso.

Está ocorrendo uma transição tecnológica ou o enfraquecimento de uma empresa, que não quer mais produzir determinado produto? Neste caso, o governo tem de requalificar as pessoas, para que se dirijam a setores que estão crescendo. 

Agora também é verdade que existem setores que sofrem com políticas públicas equivocadas. Se for isso, temos de corrigir as políticas e apoiar o setor enquanto isso não acontece. Evitar que o setor sucumba aos problemas criados pelo próprio governo.

Mas em qual das duas realidades está o setor automotivo?

Depende da fábrica. Vamos pegar a Ford, por exemplo: a fábrica deles na Bahia vai bem. Existem incentivos fiscais, mas não é só por isso. É uma fábrica moderna, com produtos modernos.

A Ford parou de fabricar caminhões no mundo. 

O que acontece com uma empresa global que desiste de uma determinada linha? Ela para de investir em tecnologia, design, promoção.

A realidade é a seguinte: essa é uma das últimas fábricas de caminhões do Ford no mundo —se não for a última. Vou dar um incentivo fiscal para a Ford continuar fabricando caminhões, um produto no qual ela parou de investir?

Tomara que encontrem um comprador para a fábrica. Supondo que não encontrem, o que podemos fazer é ajudar os trabalhadores a se requalificarem e se recolarem —de preferência, em empregos melhores do que tinham antes.

Alguns especialistas dizem que o setor automotivo está em crise e não apenas uma empresa.

O Brasil está em crise. Quando um país está em crise, algumas indústrias são mais afetadas. A indústria automobilística é uma das que mais sofrem, porque as pessoas postergam a decisão de trocar de carro.

No nosso diagnóstico, o maior problema da indústria automobilística hoje é a crise econômica. Além disso, no mercado de ônibus e caminhões, os programas que foram implementados no governo do PT criaram uma situação artificial e estamos pagando o preço até agora.

E a frase que o sr. disse à chefia da GM "se precisar fechar, fecha" quando eles expuseram os problemas da fábricas da empresa. Em que contexto ela foi dita?

Não comento declarações que dou a portas fechadas. E não gostaria que ninguém da minha equipe comentasse.

Agora se alguém da GM passou isso para a imprensa, lamento. A nossa prática é manter as conversas restritas, porque tem muitas políticas públicas em que existe um contexto da conversa.

Qual é o plano do governo Jair Bolsonaro (PSL) para reduzir o desemprego?

O aumento da produtividade é o que garante emprego de qualidade no longo prazo. A recuperação da economia vai reduzir o desemprego naturalmente, mas não podemos esperar o ciclo sem fazer nada.
Por isso estamos reformulando o Sine, que é o sistema nacional do emprego.

Queremos abrir as informações do Sine, preservando a privacidade das pessoas, para dezenas de empresas de recrutamento. A ideia é que essas empresas se "pluguem" ao sistema.

Queremos ainda implementar um programa efetivo de requalificação profissional. E estamos perto de promover algumas medidas para destravar os setores com maior potencial de geração de emprego: construção civil, comércio e pequenas empresas.

Haverá algum estímulo fiscal para esses setores?

Não. O estímulo fiscal hoje é o equilíbrio. Se gastarmos mais para estimular um setor, as contas públicas se deterioram e as expectativas se arruínam.

Hoje vivemos o que chamo de dominância fiscal do emprego. Dada a situação arriscada das contas públicas, o equilíbrio fiscal hoje gera mais emprego que o aumento de gastos.

Os analistas projetam alta de 2% para o PIB neste ano e 2,6% para o ano que vem. O senhor já chegou a estimar aumento de 4% em 2020. Como o governo pretende estimular a economia?

Não é o governo que estimula a economia, mas as empresas. Ou o Brasil vai crescer 4% em 2020 ou vai ser zero.

Se aprovarmos a reforma da Previdência e avançarmos na agenda de produtividade, vamos crescer muito.

Nos governos anteriores, o país avançou estimulado pelo crédito, só que isso tem um limite. Hoje nosso foco é o aumento da produtividade. Estamos trabalhando em uma série de medidas que serão anunciadas em breve.

O sr. pode dar exemplos? 

São medidas microeconômicas. Prefiro falar conceitualmente e só anunciar as medidas quando tiver algo concreto.

Vamos atacar cinco frentes: menos amarras governamentais, promoção da competição, investimento em infraestrutura, qualificação do trabalhador e modernização das empresas. Se atuarmos nessas áreas, vamos elevar de maneira forte a capacidade de produzir no Brasil.

Mas há setores com capacidade ociosa alta. Nesses casos, falta demanda?

Temos setores com capacidade ociosa alta, mas o que falta são condições adequadas para que a demanda ocorra. Se estimularmos a demanda com as pessoas sem renda e com dívida, afundamos mais a economia.

O Brasil tem desemprego alto, renda estagnada, empresas em dificuldades e governo com déficit. Essa situação é um nó e só tem uma maneira de sair: melhorar a expectativa de consumidores e empresários.

A confiança vem aumentando e já temos alguma recuperação nas vendas, mas isso só vai acontecer de verdade quando todos tiverem certeza de que vamos fazer as reformas, começando pela Previdência.

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