Ações da Uber fecham quase 8% abaixo do preço de IPO

Queda é um dos oito piores resultados de ações em seu primeiro dia de mercado

Shannon Bond Nicole Bullock
San Francisco e Nova York

As ações da Uber caíram para quase 8% abaixo de seu preço de oferta inicial, nesta sexta-feira (10), dando à companhia de serviços de carros uma capitalização de mercado decepcionante, de menos de US$ 70 bilhões —bem distante da avaliação de US$ 100 bilhões que a companhia esperava atingir até recentemente.

As ações fecharam a US$ 41,57, ante o preço de oferta pública inicial (IPO) de US$ 45. A queda registrada pela Uber é um dos oito piores desempenhos de ações em seu primeiro dia de mercado, para IPOs realizados nos Estados Unidos e envolvendo mais de US$ 1 bilhão, de acordo com a Dealogic.

A estreia problemática fez com que os investidores questionassem o apetite por companhias de serviços de carros deficitárias, que vêm dependendo de um influxo generoso de capital privado para bancar a expansão acelerada e a concorrência feroz em que estão envolvidas.

0
O presidente da Uber, Dara Khosrowshahi, e convidados tocam sino de abertura da Bolsa de Valores de Nova York - Wang Ying/Xinhua

A queda no preço das ações da Uber se seguiu ao mau desempenho da rival Lyft, cujas ações estão sendo negociadas bem abaixo do preço de sua oferta inicial, realizada em março; as ações da Lyft também caíram na sexta-feira.

Representantes da Citadel Securities, que funciona como "market maker" [provedora de liquidez] para a Lyft, afirmaram que o sentimento com relação à empresa provavelmente foi afetado pelo onda de vendas mais ampla de ações americanas.

Os índices S&P 500 e Dow Jones passaram a maior parte do dia em queda, devido a preocupações com o comércio internacional. Mas as ações da Uber e Lyft se mantiveram em queda mesmo quando os principais índices americanos mudaram de curso, no final da tarde. As ações da Lyft caíram em 7,4%, para US$ 51,09 - ante um preço de IPO de US$ 72.

"Um dia não servirá como medida de nosso sucesso ou fracasso", disse Dara Khosrowshahi, o presidente-executivo da Uber, ao Financial Times. "Não se pode controlar a semana em que sua ação entrará no mercado. Tivemos uma situação com o presidente e a China que causou muita volatilidade e incerteza".

Ele acrescentou que "o importante é que conseguimos realizar nossa transação. Levantamos mais de US$ 8 bilhões em capital primário, que servirá como importante propulsor de crescimento".

Cerca de 33 milhões de ações trocaram de mãos quando a Uber começou a ser negociada na Bolsa de Valores de Nova York, às 11h50 da sexta-feira. A Uber vendeu 180 milhões de ações por US$ 45 cada na quinta, levantando US$ 8,1 bilhões em capital novo e dando à empresa uma capitalização de mercado de US$ 82,2 bilhões, considerando todas as opções de ações e debêntures.

O preço anunciado na quinta-feira ficou na ponta mais baixa da faixa de entre US$ 44 e US$ 50 previamente anunciada pela empresa, e também ficou abaixo dos US$ 48,77, preço pelo qual a Uber vendeu ações a investidores privados três anos atrás. Os bancos Morgan Stanley, Goldman Sachs e Bank of America assessoraram a companhia.

Khosrowshahi disse que a Uber havia calculado o preço de seu IPO "no nível certo", e que havia considerado cuidadosamente a que investidores alocar ações. "Colocamos as ações em mãos de investidores de qualidade, não só para o próximo ano mas para os próximos três a cinco anos", ele disse, acrescentando que "muitos" desses investidores eram também investidores na Expedia, a empresa de que ele era presidente-executivo antes de assumir o comando da Uber em 2017.

Mas alguns investidores afirmaram que a resposta do mercado refletia ceticismo sobre as operações deficitárias da companhia, que cresceu agressivamente ao subsidiar tarifas e pagar bonificações a motoristas. "Essa é uma estratégia de saída para os investidores privados. Ao observar o modelo de negócios inerente e a forma pela qual ele foi estruturado, percebe-se que ele não é sustentável", disse Michael Underhill, vice-presidente de investimento da Capital Innovations.

O tropeço da Uber pode acionar alarmes sobre outras empresas do Vale do Silício, deficitárias mas avaliadas generosamente, que planejam abrir seu capital, ele disse. "Eu vivi a crise de 1999, e isso parece e cheira a 1999 - você está no pico das finanças comportamentais e todo mundo está correndo para fazer dinheiro mas os investidores experientes já estão de saída", disse Underhill.

Desde sua fundação em 2009, a Uber se tornou símbolo dos excessos e das oportunidades tornados possíveis pelo afluxo de capital privado ao Vale do Silício. Seu IPO foi a maior oferta de ações de tecnologia desde o do Facebook, em 2012, e a 10ª maior abertura de capital nos Estados Unidos em termos de capital arrecadado, segundo a Dealogic.

A entrada da Uber no mercado representa um marco para uma companhia que se provou profundamente divisiva entre as autoridades regulatórias, consumidores e taxistas. Ela pôde acumular bilhões de dólares em prejuízos graças à torrente de capital privado que alimentou seu crescimento explosivo.

A Lyft declarou que 2019 será seu "ano de pico" em termos de prejuízos. Khosrowshahi declarou à CNBC na sexta-feira que a Uber tem esperanças semelhantes. "Essa seria a nossa intenção, mas não há qualquer garantia", ele disse. Em apresentações a investidores, Khosrowshahi posicionou a Uber como "plataforma" de transportes - tanto para serviços de carros quanto para o transporte coletivo e entregas de comida e pacotes, enfatizando a amplitude da oportunidade de mercado e comparando sua empresa à Amazon.

Mas a Uber registrou estagnação no crescimento de seu faturamento, em trimestres recentes, porque a concorrência a forçou a elevar seu subsídio às corridas e os incentivos aos motoristas, o que despertou questões sobre quando ela conseguiria sair do vermelho.

Alejandro Ortiz, principal analista da SharesPost, uma plataforma para transações com ações de empresas de capital fechado, disse que "o problema da Uber é que os serviços de carros, como setor, ainda não mostraram lucro".

Khosrowshahi foi contratado para substituir o fundador da Uber, Travis Kalanick, dois anos atrás, depois de uma série de crises que ameaçavam tirar dos trilhos as ambições da Uber. O presidente-executivo e quatro outros dos principais dirigentes da empresa detêm opções sobre quase quatro milhões de ações, como incentivo para reverter a situação da Uber e chegar rapidamente ao IPO. Mas os benefícios só se aplicam caso o valor de mercado da Uber se mantenha acima de US$ 120 bilhões por pelo menos três meses. A equipe de gestão tem prazo até 2023 para atingir sua meta de desempenho.

Financial Times, tradução de Paulo Migliacci

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.