Emprego formal tem melhor junho em 6 anos, mas ritmo ainda é morno, dizem economistas

Saldo positivo, porém, ainda é pequeno, reforçando retomada lenta, diz secretário do Trabalho

Danielle Brant
Brasília

A criação de 48,4 mil vagas com carteira assinada em junho, a melhor para o mês em seis anos, ainda não sugere uma recuperação do mercado de trabalho formal brasileiro, afirmam economistas, que veem, contudo, espaço para que a geração de emprego neste ano seja melhor que a de 2018.

O resultado veio em linha com a estimativa de consultorias especializadas. Ainda assim, a criação de menos de 100 mil vagas é relativamente recente no país: de 2002 a 2013, a média de empregos formais gerados era de 175 mil.

Para o economista Cosmo Donato, da LCA Consultores, mesmo afinada com sua expectativa, a geração de 40 mil postos de trabalho em junho foi “bastante moderada.” “Está muito alinhada com cenário de criação de vagas bastante morno, que ainda não colheu efeitos benignos de um possível choque de confiança e de melhora do ambiente de negócios pela perspectiva de aprovação da reforma da Previdência”, afirmou.

Mesmo o secretário de Trabalho, Bruno Dalcolmo, reconheceu que a geração de junho não foi tão expressiva. Mas, segundo ele, a tendência é que o resultado do ano fechado seja melhor que o de 2018. “Óbvio que isso não pode ser descolado do desempenho geral da economia”, disse.

“Nós estamos saindo de três anos de recessão muito grave, da pior recessão que este país já enfrentou na sua história. Então os desafios são realmente brutais que estão colocados ao governo Bolsonaro”, acrescentou Dalcolmo. “Nem mesmo a nova Previdência é suficiente para corrigir todos os problemas.”

No acumulado do ano, foram geradas 408.500 vagas, acima do registrado nos seis primeiros meses de 2018, quando a criação de empregos com carteira somou 392.461.

“Se tivesse a manutenção do ritmo de junho, seria uma geração abaixo da de 2018, porque houve uma crise política que se estendeu no ano todo. Agora teve uma ‘interrupção’ nessa crise, sinalizando que há espaço para melhora de confiança, com a retomada de contratações que tenham sido represadas pelos empresários no começo de 2019”, afirma Donato.

Nem todos compartilham do otimismo, no entanto. Bruno Ottoni, pesquisador associado do FGV Ibre, avalia que a situação ainda é ruim. “A gente não está em uma situação boa. Tudo indica que a gente está caminhando para um ano, em termos de Caged, parecido com o do ano passado”, ressaltou.

“Os números sugerem muita informalidade: há pouca geração de postos formais, muita geração de postos informais, queda não muito acentuada na taxa de desemprego. No quadro atual, parece ruim”, disse Ottoni.

Por setores, o de serviços gerou 23.020 empregos. Agropecuária, extração vegetal, caça e pesca criou 22.702. Já indústria da transformação eliminou 10.988 empregos com carteira em junho, enquanto no comércio foram fechadas 3.007 vagas.

Matheus Stivali, subsecretário de políticas públicas e relações do trabalho, atribui à fraqueza da economia o saldo negativo de vagas no segmento. “O comércio, em geral, emprega pessoas de qualificação média. É supermercado, pequenos comércios, e é onde mais a crise econômica é sentida”, afirmou.

Será também o setor onde haverá mais impacto das recentes medidas de estímulo adotadas pelo governo, como a liberação do FGTS. “Se você pensar em outros setores, indústria, lavoura, são coisas que dependem de capital. No comércio, se a economia melhora, você só precisa de mais pessoas.”

Donato, no entanto, vê impacto limitado da liberação do FGTS no mercado de trabalho. “O que viu de geração de emprego em outros momentos não foi algo expressivo, nem algo que se perpetuou por muito tempo”, disse.

O saldo de geração de vagas foi positivo em quatro das cinco regiões do país –no Sul, ficou praticamente estável, com queda de 0,04%. Em maio, a mesma região eliminou 10.935 postos. O Sudeste liderou a geração no mês passado, com 31.054, seguido pelo Centro-Oeste, com 10.952.

Em junho, houve um saldo positivo de 10.177 vagas criadas na modalidade intermitente, comparadas com 7.818 em maio. Na modalidade parcial, foram gerados 1.427 postos, ante 1.530 em maio.

 
 
 
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