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Monica de Bolle

Não saber como Brasil vai crescer atenua animação do investidor estrangeiro

Ainda que investidores externos passem a olhar para o Brasil com um pouco mais de otimismo, predomina a cautela

Após a surpreendente votação em primeiro turno da reforma da Previdência na Câmara com os 379 votos recebidos, há grande curiosidade em saber como esse avanço está sendo repercutido fora do Brasil.

Não há dúvida de que o considerável apoio recebido tem sido visto com algum otimismo, sobretudo entre os que acompanham o Brasil mais de perto. Afinal, os problemas fiscais de médio prazo e a urgência da Previdência já eram bem conhecidos.

No entanto, há muitos que, como eu, acreditam que a reforma não será uma bala de prata para o crescimento. Portanto, ainda que investidores externos passem a olhar para o Brasil com um pouco mais de otimismo, predomina a cautela.

A cautela se explica tanto pelos problemas que o Brasil ainda haverá de enfrentar para reduzir o desemprego e aumentar o crescimento, quanto pelas incertezas no quadro internacional. Muitas dessas incertezas foram recentemente verbalizadas pelo atual dirigente do Banco Central norte-americano, Jerome Powell, em testemunho para o Congresso.

Disse Powell que o Fed está monitorando de perto vários riscos para a economia dos EUA e para a economia global, como os efeitos da guerra comercial entre a China e os Estados Unidos, problemas geopolíticos, e indicadores setoriais que mostram alguma fragilidade econômica incipiente, apesar de estarem os EUA ainda com crescimento robusto.

Os riscos destacados pelo dirigente do Fed tem estado bastante presente entre os investidores internacionais, cujo grau de aversão ao risco aumentou nas últimas semanas.

Traduzindo isso para a realidade brasileira, investidores internacionais estão no momento mais preocupados com as tendências dos EUA e do mundo do que com a reforma da Previdência no Brasil.

Além disso, a questão de como o Brasil voltará a crescer é motivo suficiente para atenuar qualquer animação precoce.

Tenho escrito e refletido sobre as possibilidades de crescimento da economia brasileira. Hoje, elas não são aupiciosas mesmo com a aprovação da Previdência. Parece-me que o Brasil vive a versão tropical do que os economistas se acostumaram a chamar de “estagnação secular”, situação em que o país padece do baixo crescimento associado à produtividade estagnada ou em queda, às tendências demográficas adversas, e à perda de dinamismo da economia.

Tal perda de dinamismo fica evidente quando se considera que mesmo com a taxa de juros real —a taxa nominal descontada a inflação— em patamares bastante baixos como temos hoje, a economia não reage ou reage pouco. Em situações normais, níveis mais baixos da taxa de juros real deveriam estimular o investimento privado e, portanto, o crescimento da economia.

O fato de estar a inflação abaixo da meta e de muitos defenderem a queda dos juros pelo Banco Central por esse motivo sublinha a perda de dinamismo do Brasil: afinal, se todos esperam que a taxa de juros real seja ainda menor do que o nível atual, o investimento já deveria estar dando alguns sinais de vida.

Essas constatações, aliadas a um quadro internacional complicado, continuarão a deixar os investidores externos cautelosos em relação ao Brasil. Ou seja, é difícil enxergar como haverá de se materializar o cenário apresentado por Paulo Guedes de uma reforma da Previdência que repentinamente destrava os fluxos de fora para o Brasil, bem como a capacidade de investir das empresas brasileiras.

O cenário mais provável é que todos continuem na espera dos próximos desdobramentos globais – que devem se complicar com as eleições presidenciais norte-americanas em 2020 – e das demais reformas prometidas pelo governo brasileiro.

Em matéria de crescimento econômico, não existe bala de prata. O que existe é muito esforço para aprovar reformas difíceis, muitas vezes politicamente impalatáveis. Ao que tudo indica, a próxima será a reforma tributária, ainda mais complicada do que a reforma da Previdência. Os investidores internacionais estão bastante cientes do tamanho desse desafio.

Monica de Bolle
Economista e pesquisadora do Instituto Peterson de Economia Internacional

 

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