Argentina restringe remessa de lucro de bancos ao exterior

Com grau de incerteza na economia, especialistas preveem controles de capital

Buenos Aires

O banco central argentino anunciou nesta sexta-feira (30) que os bancos deverão pedir autorização para remeter lucros ao exterior, e economistas já preveem que o governo será empurrado a levantar controles de saída de capital nos próximos dias.

Desde as eleições primárias, que apontaram larga vantagem da chapa de oposição ao atual presidente Mauricio Macri, a demanda por dólares escalou. As reservas internacionais do país encolheram quase US$ 9 bilhões até a última quarta-feira (28), quando o governo enfim anunciou a moratória a alguns devedores de sua dívida interna. 

Desde então, porém, a cotação da moeda americana seguiu em alta, mesmo com a contínua intervenção do banco central argentino. Só nesta sexta a autoridade teria vendido no mercado à vista US$ 387 milhões.

Media do Banco Central argentino busca assegurar liquidez do sistema financeiro - Ronaldo Schemidt/AFP

Foi nesse contexto que o BCRA (banco central) anunciou o controle sobre a distribuição de lucros dos bancos. Empresas de demais setores estão fora da restrição. 

Segundo o BCRA, a medida já vigorou anteriormente, de 2006 a 2018.

A intenção da autoridade monetária é dar liquidez ao sistema financeiro em momento de fuga do peso, acionada pelos próprios argentinos, acostumados a poupar em dólar e feridos por calotes no passado, como o de 2001.

A moeda americana fechou a semana a 62,04 pesos —na véspera das eleições primárias, que ocorreram no último dia 11 de agosto, o dólar valia 46,55 pesos. 

O economista Fausto Spotorno, da consultoria Orlando Ferreres & Associados, crê que o governo terá de lançar mão de outros controles à saída de capital nos próximos dias.

“Não há muito o que [o banco central] possa fazer agora. A incerteza é grande, e o poder de fogo para se defender é débil”, afirma. 

Segundo ele, a demanda por dólares é basicamente de argentinos que estão buscando refúgio na moeda estrangeira. 

O elevado grau de incerteza foi acionado pela insegurança sobre como tratará do tema o candidato favorito à eleição, o peronista Alberto Fernández, que tem como vice a ex-presidente e hoje senadora Cristina Kirchner. 

Fernández afirma que a culpa pelo endividamento excessivo é de Macri, que tomou emprestados US$ 57 bilhões do FMI (Fundo Monetário Internacional) e não tirou a economia das cordas. Os pagamentos, no entanto, caberão ao presidente que estiver no comando da Argentina a partir de dezembro. 

Desde que assumiu, Macri elevou a dívida pública do país de 52% do PIB para cerca de 90%, mas os indicadores sociais seguiram em deterioração em meio a uma inflação de 54% ao ano. Nas ruas, o sentimento é que o dinheiro injetado pelo FMI evaporou.

Nesta sexta, em entrevista, Fernández voltou a disparar contra Macri e o FMI e a responsabilizá-los pela frágil situação econômica do país.

“O que quero que entendam no FMI é que eles são culpados por essa situação. Foi um ato de cumplicidade com a administração Macri, foi a campanha de reeleição mais cara da humanidade”, afirmou.

Ainda que tenha descartado dar o calote no FMI e em demais credores, em entrevista ao jornal Clarín há pouco mais de duas semanas, Fernández assumiu um discurso duro, indicando que não aceitará as exigências do Fundo —que, por sua vez, impõe contrapartidas para ajudar países em crise.

A incerteza já está provocando especulação sobre se o FMI liberará a próxima parcela, no valor de US$ 5,4 bilhões, prevista para setembro. 

Na entrevista desta sexta, Fernández afirmou ainda que a Argentina está em “default virtual e escondido”, alimentando críticos que começam agora a desconfiar da versão do governo sobre a moratória decretada na quarta (28) —a versão oficial fala em um “reperfilamento” da dívida.

As agências de classificação de risco Standard & Poor’s e Fitch rebaixaram a nota de crédito do país após o anúncio de reestruturação. A S&P inicialmente atribuiu a classificação de “default seletivo”, mas nesta sexta recolocou a Argentina um degrau acima do calote.

Já a Fitch rebaixou a Argentina para RD (do inglês restricted default) no início da noite desta sexta-feira.

 
 

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