Preço do petróleo tem forte queda após Arábia Saudita retomar produção

Barril de Brent recua 7%; ações da Petrobras acompanham retração

Júlia Moura
São Paulo

O petróleo perdeu cerca de metade da valorização obtida com os ataques na Arábia Saudita. Depois de subir 14,6% na segunda-feira (16), o contrato futuro do barril de Brent tem queda de 7% até o início da noite desta terça (17), a US$ 64,15. 

O mercado futuro se refere a negociação de contratos de ativos que serão liquidados posteriormente. Ele funciona como uma espécie de termômetro sobre a expectativa atual do mercado para o valor do ativo na data de vencimento. No caso do Brent, o contrato ativo no momento vence em novembro.

Outra característica do contrato, é que seu horário de negociação é estendido, para atender diferentes mercados. No horário de Brasília, a cotação é negociada das 21h às 19h.

Funcionário da Petrobras coleta amostra em unidade de bombeio de petróleo no interior da Bahia.
A cotação do barril de petróleo teve queda de 7% nesta terça (17), a US$ 64 - Diego Padgurschi /Folhapress

Na véspera, a alta do contrato ultrapassou os 13% registrados no início da noite e foi a 14,61%. Analistas do mercado financeiro apontam que esta é a maior alta percentual diária da história da cotação.

Nesta terça, no entanto, a matéria-prima se desvalorização com estimativas do mercado e declarações do governo saudita de que o país retomaria a produção de forma rápida. Sobre os ataques às refinarias, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman disse que as ameaças iranianas não eram direcionadas apenas contra o reino, mas contra o Oriente Médio e o mundo.

Na tarde desta terça, o Ministro de Energia saudita confirmou as expectativas e disse que as exportações do país não seriam afetadas pelos ataques de sábado (14). Ele afirmou ainda que a capacidade de produção será de 11 milhões de barris de petróleo (bdp) em duas semanas, 1,2 milhão de barris a mais que a quantidade produzida antes dos ataques.

O presidente americano Donald Trump, por sua vez, declarou que não julga necessário liberar petróleo da reserva estratégica dos EUA, alegando que os preços da commodity não subiram muito.

Apesar da queda no preço, o patamar de US$ 64,15 por barril é US$ 3,93 maior que o registrado antes dos ataques a petroleira Saudi Aramco. De acordo com a cotação atual do dólar, a alta corresponde a R$ 16,03.

Nesta terça, a cotação da moeda americana fechou em queda de 0,26%, a R$ 4,079. A depreciação do dólar veio com a expectativa de um acordo comercial entre China e Estados Unidos e de cortes de juros por parte dos bancos centrais americano e brasileiro.

Trump declarou nesta terça que seu governo pode fechar um acordo comercial com a China antes da eleição presidencial dos EUA, em novembro de 2020, ou no dia seguinte à eleição.

O presidente afirmou ainda que a China acha que ele vai ganhar a eleição, mas que as autoridades chinesas prefeririam lidar com outra pessoa. Ele disse que alertou à China que, se o acordo vier após a disputa eleitoral, será em termos "muito piores" para Pequim do que se fosse alcançado agora.

As falas animaram investidores e índices da Bolsas de Nova York fecharam no azul.  Dow Jones teve leve alta de 0,13%, S&P 500 subiu 0,26% e Nasdaq, 0,4%.

O mercado também conta com um corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros dos EUA nesta quarta (18), como forma de estímulo a economia. ,

O Ibovespa seguiu o viés positivo e fechou em alta, com a recuperação de companhias que registraram queda na véspera, com aversão a risco provocada pelos ataques à Arábia Saudita. O índice subiu 0,9%, a 104.616 pontos, maior patamar desde 18 de julho.

A Gol subiu 5,5% nesta sessão, a R$ 33,83, depois de cair 7,7% na véspera. A Azul teve alta de 3%, a R$ 48,45 depois de cair 8,45% na segunda (16). 

Já as ações da Petrobras, reverteram parte dos ganhos de segunda. Os papéis preferenciais (mais negociados) da companhia recuaram 1,6%, a R$ 27,60. Os ordinários (com direito a voto) caíram 1,87%, a R$ 30,42. 

Além da forte queda na cotação do petróleo na sessão, a valorização da estatal foi afetada pela decisão de não repassar, de imediato, a recente alta da commodity para os consumidores. 

O ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que a empresa tem autonomia na questão. Na véspera, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) disse em entrevista à Rede Record que conversou com o presidente da estatal, Roberto Castello Branco, e foi informado de que não será elevado o valor ao menos neste primeiro momento.

“Ele me disse que, como é algo atípico e a principio tem um fim para acabar, ele não deve mexer no preço do combustível”, afirmou.

Depois da declaração do presidente, a estatal publicou um comunicado ao mercado em que explica a decisão de não fazer um ajuste de forma imediata, já que "o mercado apresenta volatilidade e a reação súbita dos mercados ao evento ocorrido pode ser atenuada na medida em que maiores esclarecimentos sobre o impacto na produção mundial sejam conhecidos".

A empresa ressalta ainda que não há periodicidade mínima em sua política de preços, que prevê acompanhar as cotações internacionais, com base em um conceito conhecido como paridade de importação —que simula quanto custaria para trazer combustíveis ao mercado interno.
 
A estatal vem fazendo ajustes em períodos mais estendidos do que durante o governo Michel Temer, quando as mudanças chegaram a ser diárias. Essa política gerou insatisfações que culminaram com a greve dos caminhoneiros, em maio de 2018.

“A decisão acende um sinal de alerta quanto à autonomia da estatal na política de determinação de preços, mas, a princípio, no curtíssimo prazo, o efeito da elevação na cotação da commodity é majoritariamente positivo, beneficiando a exportação de petróleo bruto. Uma defasagem dos preços por um período razoável de tempo, por outro lado, traz de volta à tona prejuízos na área de abastecimento e distribuição de combustíveis”, afirma relatório da Coinvalores.

O mercado vê a atual alta do petróleo como teste de fogo para a estatal. Caso a valorização da matéria-prima se prolongue, e a Petrobras não faça um ajuste nos preços, as vendas de ativos previstas no plano de desestatização pode ser impactada, com desconfiança de investidores e potenciais compradores.

(Com Reuters)

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.