Quando a entrega rápida e grátis da Amazon causa desgosto

Enquanto a empresa diz não tem responsabilidade por mortos em entrega, ela mantém um controle rígido de como os motoristas realizam seu trabalho

Patricia Callahan
The New York Times

Quando ela acrescentou o nome de Gabrielle à tabela em sua cozinha, Judy Kennedy pôde imaginar o ritual anual. Nos aniversários, ela pediria à neta mais nova que ficasse de pé ereta, com os calcanhares encostados no batente da porta, para marcar a altura da menina ao lado da de sua outra neta, na casa do Maine onde a família vive desde o século 19.

Mas não há linhas para Gabrielle.

Em janeiro, a menina de 9 meses foi morta quando um motorista que entregava pacotes da Amazon bateu um caminhão alugado de 8 metros na traseira do Jeep de sua mãe. O bebê estava amarrado em uma cadeirinha no assento de trás.

O motorista-entregador, um subcontratado que transportava paletes de caixas da Amazon do subúrbio de Boston para cinco localidades no Maine, disse que estava atrasado e não conseguiu avistar o Jeep a tempo de evitar o acidente.

Se os pais de Gabrielle, que contrataram advogados, tentarem culpar a Amazon, enfrentarão uma empresa que se protege firmemente da responsabilidade por acidentes com os motoristas que entregam seus bilhões de pacotes por ano.

Em seu esforço incansável pelo domínio do comércio eletrônico, a Amazon construiu uma enorme operação logística para levar mais mercadorias às casas dos clientes em cada vez menos tempo.

Enquanto age para reduzir sua dependência de transportadoras tradicionais como a United Parcel Service, o varejista criou uma rede de prestadores de serviços em todo o país que permite à empresa expandir e reduzir a força de entrega conforme necessário, evitando os custos de contratar funcionários fixos.

Mas a promessa de entrega rápida da Amazon tem um preço. Uma investigação da ProPublica identificou mais de 60 acidentes desde junho de 2015 envolvendo entregadores terceirizados da Amazon que resultaram em ferimentos graves, incluindo dez mortes. Essa contagem é provavelmente uma fração dos acidentes que ocorreram: muitas pessoas não processam, e as que o fazem nem sempre sabem quando a Amazon está envolvida, segundo mostram registros judiciais, relatórios policiais e reportagens na mídia.

Enquanto a Amazon argumenta que não tem responsabilidade legal pelo número de mortos, ela mantém um controle rígido de como os motoristas de entrega realizam seu trabalho.

Seus contracheques são assinados por centenas de empresas, mas muitas vezes a Amazon direciona, por meio de um aplicativo, a ordem das entregas e a rota para cada destino. O software da Amazon rastreia o progresso dos motoristas, e um despachante em um armazém da empresa pode telefonar para eles se estiverem atrasados. A Amazon exige que 999 de mil entregas cheguem na hora, de acordo com as ordens de serviço obtidas de empresas contratadas com motoristas em oito estados americanos.

A Amazon disse repetidamente em julgamentos que não é responsável pelos atos de seus contratados, citando acordos que os obrigam, como colocou um deles, a "defender, indenizar e isentar a Amazon". Na semana passada, um gerente de operações da companhia testemunhou em Chicago que ela faz tais acordos com todos os seus "parceiros de serviços de entrega", que assumem a responsabilidade por indenizações e pelos custos legais. Os acordos cobrem "todas as perdas ou danos à propriedade pessoal ou danos corporais, incluindo a morte".

A Amazon aplica com vigilância os termos desses acordos. Em Nova Jersey, quando a seguradora de uma empresa contratada não pagou as contas legais da Amazon em uma ação movida por um médico ferido em um acidente, a Amazon processou para forçar a seguradora a pagar a conta. Na Califórnia, a empresa processou companhias contratadas, informando aos tribunais que quaisquer danos decorrentes de acidentes no local deveriam ser cobrados das empresas de entrega.

"Acho que quem pensa na Amazon tem sentimentos muito conflitantes", disse Tim Hauck, cuja irmã, Stacey Hayes Curry, foi morta no ano passado por um motorista que entregava pacotes da Amazon em um centro de escritórios em San Diego. "Certamente é bom receber algo em dois dias e de graça. Você sempre fica impressionado com esse lado. Mas essa ideia de que eles se eximem da responsabilidade é perturbadora."

Maior varejista do mundo, a Amazon é famosa pelo sigilo sobre os detalhes de suas operações, incluindo a escala de sua rede de distribuição. Em muitos acidentes envolvendo seus prestadores de serviços, os motoristas usavam carros, caminhões e vans de carga que não davam o menor sinal de serem da Amazon. O caminhão envolvido na morte de Gabrielle Kennedy, por exemplo, estava marcado apenas como "Penske Aluguel de Caminhões".

A empresa disse que mesmo um incidente já era demais, mas não divulgou quantas pessoas foram mortas ou gravemente feridas por motoristas que transportavam pacotes da Amazon de armazéns para as casas dos clientes —a etapa final da jornada, que a empresa chama de "última milha".

Em uma declaração escrita à ProPublica e ao BuzzFeed, que publicou um artigo na semana passada sobre as práticas de entregas da Amazon, a companhia disse: "As afirmações não oferecem uma representação precisa do compromisso da Amazon com a segurança e de todas as medidas que tomamos para garantir que milhões de pacotes sejam entregues aos clientes sem incidentes.

"Seja a telemetria de ponta e a tecnologia de segurança avançada em vans na última milha, programas de treinamento de segurança de motoristas ou aperfeiçoamentos constantes em nossa tecnologia de mapeamento e roteamento, investimos dezenas de milhões de dólares em mecanismos de segurança em nossa rede e comunicamos regularmente as melhores práticas de segurança aos motoristas. Estamos comprometidos com maiores investimentos e foco no gerenciamento para melhorar continuamente nosso desempenho em segurança."

Entre os mortos nos acidentes em entregas da Amazon examinados pela ProPublica estavam um ex-aluno da Universidade Temple de 22 anos, esmagado quando um terceirizado virou à esquerda e bateu em sua motocicleta; uma ex-vendedora da Macy's de 89 anos atingida quando atravessava uma rua em Nova Jersey; e uma avó de 89 anos da Pensilvânia atropelada na frente de uma churrascaria Outback.

Telesfora Escamilla estava andando na faixa de pedestres em Chicago três dias antes do Natal de 2016, quando um entregador contratado pela Amazon virou à esquerda e a atingiu. Escamilla se preparava para comemorar as festas e seu 85º aniversário com a família. Em vez disso, eles organizaram seu funeral.

Rene Romero tinha trabalhado como motorista de caminhão em Honduras durante décadas, mas entregava pacotes para a Amazon havia apenas dois meses antes do acidente que matou Gabrielle Kennedy, disse ele.

O trabalho de Romero era pegar paletes de encomendas em um armazém da Amazon no sul de Boston e entregá-los em agências de correios na Nova Inglaterra. Ele estava trabalhando para a DSD Vanomos, empresa com apenas dois caminhões subcontratada da XPO Logistics, grande empresa de transporte que lidava com entregas de "injeção postal" para a Amazon.

Ele chegaria ao armazém por volta da 0h, disse ele, e esperaria para receber uma rota. Seu prazo para entregar os pacotes era 6h, disse, e os correios os adicionariam às rotas de entregas.

Em 10 de janeiro, Romero começou tarde porque havia outros motoristas à sua frente, lembrou. A XPO disse que, de acordo com seus registros, às 6h Romero chegara a apenas duas das cinco agências de correios em sua lista. Romero disse que estava atrasado quando dirigiu por Waterboro, no Maine. Nas viagens anteriores, segundo ele, tinha sido pressionado por despachantes.

"Eles ligam para você dizendo: 'Ei, você não chegou lá ainda? Quando vai chegar?'", disse Romero, 54.

Não está claro se esses expedidores trabalhavam para a XPO ou a Amazon. A XPO afirmou ter um acordo de "despacho conjunto" com a Amazon, que não quis comentar.

Ainda assim, ele disse que não pensava estar acelerando na rua principal da cidade, onde o carro de Ellen Kennedy estava parado à sua frente, esperando num cruzamento para dobrar. Ele lembrava que o limite de velocidade era de 88 km/hora --na verdade são 56--, mas disse que não estava indo tão rápido porque estava escuro e enevoado. Ele pisou no freio quando estava a cerca de três metros do carro, lembrou, mas não conseguiu parar a tempo.

"Olhe", disse ele, "a verdade é que eu não vi o veículo na minha frente."

Acusado de condução agravada por perigo, ele foi preso.

Romero disse que ligou para o proprietário da DSD Vanomos, Denis Rolando Vasquez, para pedir ajuda, mas soube que a XPO tinha rescindido seu contrato com a DSD no dia do acidente.

"Ele disse: 'Você vai ter que se virar sozinho'", Romero lembrou que Vasquez disse sobre o processo criminal.

Vasquez contou que o motorista não pediu ajuda para sair da cadeia. Ele explicou que a XPO tinha sido um cliente importante e que, sem esse trabalho, sua empresa de dois caminhões não poderia permanecer no mercado.

"O acidente foi muito terrível para todos nós --para Rene e sua família, para mim e minha família, e especialmente para a família da criança", disse Vasquez. "Todo mundo perdeu aqui".

Um porta-voz da XPO, Bob Josephson, contestou a descrição de Romero sobre sua rotina de trabalho e os acontecimentos que levaram ao acidente. Josephson disse que o motorista chegou ao armazém da Amazon à 1h11 e começou o percurso à 1h50 --10 minutos mais cedo. O prazo para entregar seus paletes de embalagens, segundo Josephson, era 8h, e não 6h.

Quando perguntado se a XPO transmitia essas expectativas a Romero em espanhol, idioma que ele fala, Josephson respondeu que as instruções estavam no "mesmo formato que nos dias anteriores". Ele acrescentou que, na semana anterior, Romero havia concluído uma entrega em uma das mesmas agências do correio do Maine às 7h26.

Romero não podia pagar por um advogado. A entrega de pacotes da Amazon lhe rendia cerca de US$ 600 por semana, e ele tinha apenas US$ 100 no banco, segundo registros do tribunal. Ele solicitou um defensor público e passou sete dias na prisão antes que sua filha angariasse dinheiro para socorrê-lo.

Neste verão, a promotoria retirou a acusação criminal e começou a praticar uma ação civil --violação com veículo a motor resultando em morte-- punível com multa e suspensão dos privilégios de dirigir. O escritório não respondeu a uma indagação sobre por que havia retirado a acusação criminal.

Antes da manhã de 10 de janeiro, Ellen Kennedy, mãe de Gabrielle, sentiu que finalmente tinha tudo o que sempre quis.

Seu casamento terminou pouco depois de Gabrielle nascer, mas ela e o ex-marido, Chad Kennedy, haviam estabelecido uma rotina. Ela tinha a guarda primária, ele tinha direitos compartilhados dois dias por semana. As avós de Gabrielle apareciam para ajudar.

"Eu literalmente pensei que nunca fui tão feliz, porque tive meu bebê e estava fazendo isso como mãe solteira", lembrou Kennedy.

Após o acidente, disse ela, sentou-se no sofá de seu trailer, assistindo vídeos de Gabrielle, chorando e bebendo.

"Eu simplesmente mandava todo mundo embora", lembrou.

Com seu carro destruído, ela não tinha como ir ao trabalho. Ficou atrasada nas contas e perdeu a casa-trailer.

No que teria sido o primeiro aniversário de Gabrielle, Kennedy escreveu uma carta para ela e a postou no Facebook. "Não passa um dia, hora, minuto ou segundo que eu não pense em você, e gostaria que você estivesse aqui. Gostaria de saber o tamanho que você tem agora", escreveu ela. "Anseio vê-la engatinhando, brincando com seus brinquedos e rindo dos cachorros."

A mensagem continuava: "Não é JUSTO, mas quero que você saiba que te amo muito, muito, e espero o dia em que possa vê-la novamente. Até essa hora, bebê, cuide de mim. Preciso de você. Te amo, sua mãe aqui embaixo".

O ex-marido não suportava ver fotos ou vídeos da filha. Ele ficou deprimido e bebia muito, disse. Em março, passou oito dias no hospital sendo tratado de problemas no fígado. Os médicos avisaram sua mãe, Judy, que ele talvez não sobrevivesse.

Mas ele conseguiu. "Gabrielle não quer que eu morra", disse.

Tanto ele como sua ex-mulher disseram que estão sóbrios agora. Ele dorme em uma poltrona reclinável na sala de estar de seus pais. A mãe dele dorme no sofá para poder observá-lo e conversar com ele em momentos mais sombrios.

Chad Kennedy e seu pai, Brian, estavam sentados na varanda em uma noite de maio passado, quando a conversa se voltou para a Amazon e sua busca pela velocidade --como exigem os clientes.

"E se os pacotes demorarem três dias em vez de dois?", indagou Brian Kennedy. "Sabe, isso não tem muita importância para mim. Mas algumas pessoas, se não receberem em dois dias, talvez fiquem furiosas."

O filho dele concordou. "Essas grandes empresas como a Amazon devem perceber qual é o impacto quando aceleram as entregas", disse Chad Kennedy. Elas deveriam ver "as famílias trágicas que perderam alguém ou se feriram por negligência de alguém", disse ele, "apenas porque querem um pacote entregue um dia antes de outra empresa".

Esta reportagem foi copublicada com ProPublica.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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