Defeito em software causou incêndio no Onix, diz vice da GM

Executivo descarta erro no desenvolvimento do carro e afirma não se preocupar com prejuízo à imagem da marca

São Paulo

A direção da General Motors no Brasil ligou o alerta ao receber o vídeo de um sedã Chevrolet Onix Plus 1.0 turbo em chamas, parado em uma estrada entre o Maranhão e o Piauí. A imagem se espalhou pelas redes sociais e foi associada a outro incêndio, ocorrido no pátio da fábrica, em Gravataí (RS).

Marcos Munhoz, vice-presidente da GM no Mercosul, revela a causa do problema e as ações para solucioná-lo.

O que a GM fez após ter conhecimento do problema? Mandamos três engenheiros para a região. No dia 1°, viram que o carro estava destruído e que o bloco do motor estava quebrado. Ou algo externo atingiu o motor ou...

...ou quebrou de dentro para fora. Sim. Ainda no dia 1°, nessa mesma região, os engenheiros souberam de dois novos casos de quebra.

Sem incêndio? Houve um princípio de incêndio em um carro, que foi controlado. No outro, foi só a quebra. Aí existe uma coisa interessante: quando o motor tem uma anomalia, acende uma luz no painel e a instrução diz “pare o carro e procure a assistência”. Nem sempre fazemos isso.

Marcos Munhoz, 65, vice-presidente da General Motors América do Sul, em entrevista
Marcos Munhoz, 65, vice-presidente da General Motors América do Sul, em entrevista - Lucas Seixas - 08.nov.2019/Folhapress

O fato de ser um carro novo leva o consumidor a pensar que não é nada grave? Leva, mas as instruções são claras. Isso não importa agora, o cliente tomou a decisão que quis e está certo. Os engenheiros pediram autorização para recolher os carros, desmontaram peças e recolheram amostras.

Chegaram à conclusão de que, de fato, o problema era de dentro para fora. Sob pressão, o motor acabou quebrando.

O software [que gerencia o motor] não estava impedindo que o problema acontecesse. Uma de suas funções é definir o exato momento da ignição, quando a vela solta a faísca. Se está antecipado ou alternado, há uma alteração. Os engenheiros começaram a simular condições externas que poderiam interferir.

Qual foi a conclusão? Havia uma combinação de pressão atmosférica muito alta, carros com gasolina e baixíssima umidade do ar. Quando retornaram a São Paulo, os engenheiros começaram a tentar repetir o evento naquelas condições [do Piauí] e descobriram o que poderia acontecer.

No comunicado que a GM emitiu, é mencionada a qualidade do combustível. Os carros estavam abastecidos com gasolina. Se estivessem com etanol, isso não teria acontecido. 

Então o problema não é ligado diretamente à qualidade do combustível. Exato. O poder calorífico do etanol é menor.

Na segunda (4), o pessoal descobriu que, realmente, seria possível que o software tivesse algum problema. A diretoria validou a decisão de fazer uma atualização.

Houve algum erro de processo durante o desenvolvimento do Onix? Erro de processo não. Houve uma conjugação de circunstâncias. Foi uma condição que nunca tínhamos experimentado antes.

Tomamos decisões importantes. Mandamos um comunicado para o governo dizendo “temos um problema”. É a lei, temos dez dias para investigar, mas resolvemos tomar uma atitude agora.

Autorizamos o pessoal a reescrever ou adicionar as linhas do software. Mandamos um comunicado para a rede concessionária, que dizia o seguinte: não entregue mais nenhum carro para clientes; vamos recolher todos os carros já entregues; vamos oferecer uma solução de mobilidade. Não havia tantos carros disponíveis, por isso a gente bateu na porta da [locadora] Localiza, que foi uma grande parceira.

As vendas estão interrompidas? Estão. Os próprios vendedores ligaram para explicar a situação aos clientes.

Isso gerou alguma revolta? Pelo contrário, explicávamos que o risco era baixo, mas que a segurança estava em primeiro lugar.

Mas há relatos em redes sociais de pessoas que querem devolver o produto. Tem de tudo. Há 15 mil carros faturados, dos quais 7.400 já estavam com os clientes. 

Usamos também o On Star [sistema de monitoramento].

Quando o cliente opta por habilitar o serviço, há um dispositivo que faz um checkup do carro. Rastreamos o diagnóstico dos carros habilitados.

Em quantos veículos o defeito foi detectado? Seis carros tinham diagnóstico de problema [número inclui os três que já haviam sido encontrados]. Fomos atrás desses clientes e todos estavam na mesma região do Nordeste. De terça-feira (5) a sexta (8), já tínhamos contatado 6.000 proprietários.

A atualização do software ocorre sem troca de componentes? Sim. O arquivo é entregue às concessionárias e plugado no carro. Agora temos a solução, sabemos exatamente o que temos de fazer. O software novo está sendo testado, em alguns dias iremos liberá-lo. A atualização será feita em todos os carros, independentemente da região.

E isso não tem nada a ver com o ocorrido na fábrica de Gravataí. Naquele caso o carro estava parado e, por alguma coisa que aconteceu durante o transporte, houve o problema. Foi um caso isolado.

Foi esse caso que gerou a repercussão de todos os outros. As pessoas ligam um ao outro, mas um aconteceu do lado de dentro do carro e outro, do lado de fora.

No início do ano, a General Motors manifestou dificuldade para conduzir projetos no Brasil. Isso prejudicou o desenvolvimento do Onix? Não, o Onix faz parte do primeiro ciclo de investimentos, de R$ 13 bilhões. Em janeiro, o carro já estava pronto. Há os R$ 10 bilhões adicionais, para coisas novas.

O primeiro ciclo de investimento está fechado? Falta lançar um par de produtos.

A versão hatch do novo Onix chega ao mercado no fim do mês. A estratégia será revista? Nada será mudado, mas vamos atualizar o software também dos hatches.

As versões sem turbo também serão atualizadas? Não, a sensibilidade é diferente.

O motor já estava presente em outros mercados. A GM considera que houve alguma falha de adaptação?Não. O motor da China é diferente do nosso, o da Argentina também. Cada um tem sua calibração.

A produção do Onix foi interrompida? Não, o carro continua sendo produzido.

Há outros casos de incêndio que ficaram na memória, a exemplo do que ocorreu com o Fiat Tipo nos anos 1990. A GM tem medo do que isso possa gerar? Não, apenas um veículo queimou por inteiro. A empresa agiu ao primeiro carro, outras, sem entrar em detalhes, esperaram muito tempo. E o problema não vai mais acontecer [Munhoz bate três vezes na mesa de madeira].

O que a GM espera para 2020? A expectativa de vendas está mantida? O mercado vai crescer em torno de 10% ou mais, o juro mais baixo deve chegar na ponta. Vamos continuar líderes e mostrar que é assim que se trata o cliente. Se há problema, agimos rápido.

Mas os riscos envolvidos estão do dois lados, afetam a segurança do cliente e a imagem da marca. A segurança vem primeiro, imagem de marca é consequência. Não tenho a mínima preocupação com isso.

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