Dólar vai a R$ 4,207, maior valor nominal da história

Cotação sobe 0,4% nesta segunda-feira (18) e quebra recorde

São Paulo

A cotação do dólar voltou a subir nesta segunda-feira (18) e fechou a R$ 4,207, maior valor nominal (sem contar a inflação) da história. O recorde em valores reais (corrigido pela inflação brasileira) é de 2002, quando a moeda chegou a R$ 4 nominalmente, que hoje seriam R$ 10,80.

O dólar está em trajetória de alta desde o leilão do pré-sal, em 6 de novembro. A expectativa do mercado era de alta participação dos estrangeiros e grande entrada de dólares no país, o que não se concretizou. 

Desde então, a cotação da moeda americana acumula alta de mais de 5%, indo de R$ 3,99 a quase R$ 4,21 nesta segunda (18).

Nesta sessão, o dólar subiu 0,4% ante o real, terceira moeda emergente que mais se desvalorizou, atrás do peso colombiano e rand sul-africano. Na outra ponta, o peso chileno e o argentino se recuperam depois de fortes desvalorizações nas últimas semanas.

O movimento desta segunda (18) foi impulsionado pelo temor de investidores com o acordo comercial entre China e Estados Unidos. Os países vêm negociando há meses o que chamam "fase 1" do acordo, que retiraria algumas tarifas de importação entre si. 

Segundo a rede de televisão americana CNBC, chineses estariam pessimistas com relação ao acordo com a relutância do presidente americano Donald Trump em remover tarifas a importações chinesas.

“A instabilidade da América Latina pesa na cotação há algumas semanas. Hoje, isso se juntou ao mau humor do mercado, que reflete a falta de um acordo entre China e Estados Unidos”, afirma José Francisco de Lima, economista-chefe do Banco Fator.

Países da América Latina vivem instabilidade nas últimas semanas, com protestos no Chile, no Equador, na Bolívia e na Venezuela. 

Carlos de Freitas, economista-chefe da Ativa Investimentos, aponta que também há um efeito sazonal na alta do dólar. “No último trimestre do ano temos remissão de dividendos de companhias brasileiras para investidores estrangeiros, em dólar”, diz.

Com a notícia, índices acionários americanos fecharam estáveis. A Bolsa brasileira caiu 0,3%, a 106.269 pontos. O volume negociado foi R$ 27 bilhões, sendo que R$ 9 bilhões foram exercício de opções ​de ações.

O risco-país medido pelo CDS (Credit Default Swap) de cinco anos sobe 2,2%, a 124 pontos, maior valor desde a aprovação da reforma da Previdência em segundo turno no Senado, em 23 de outubro. Neste período, o CDS chegou ao menor patamar desde 2013.

Além dos protestos nos países vizinhos, analistas citam a saída de Jair Bolsonaro do seu partido, o PSL, como um componente de instabilidade no Brasil. 

No ano, há saída de mais de R$ 34,5 bilhões em investimento estrangeiro da Bolsa de valores brasileira. Este é o pior saldo desde 2008, ano da crise financeira.

Segundo o relatório de movimento de câmbio contratado do Banco Central (BC) da última quarta (13), o déficit de dólares na balança financeira em 2019 é de R$ 152 bilhões, superior ao total retirado no mesmo período de 2018.

Freitas aponta que, neste montante, há empresas brasileiras que emitem mais dívidas no Brasil, onde o juros está mais baixo, em detrimento de dívidas no exterior.

A queda do juros no Brasil é outra explicação para a alta do dólar no país. Com a Selic na mínima histórica, a 5% ao ano, o carry trade perde força. 

O carry trade é uma estratégia de investimento em que o ganho está na diferença do câmbio e do juros. Nele, se toma dinheiro a uma taxa de juros menor em um país para aplicá-lo em outro, com outra moeda, onde o juro é maior.

Em 2016, com a Selic a 14,25%, o diferencial entre a taxa brasileira e a americana ficou ao redor de 13,75% ao ano. Hoje, com a Selic a 5% e o juro americano a 1,5%, esse diferencial fica ao redor de 3,5%, e perde atratividade frente ao investidor estrangeiro.

Além de afetar o carry trade, o juro baixo deixa o hedge cambial —proteção contra oscilação do dólar— mais barato e vantajoso. Geralmente, essa proteção é feita por meio da compra de um contrato de dólar futuro na Bolsa brasileira, a um juro semelhante ao carry trade, de 3,5%. O valor é bem inferior a volatilidade do dólar no país, que chegou a 12% nos últimos 100 dias.

Quando o investidor estrangeiro entra no país com dólares e usa o hedge para se proteger, não há impacto na cotação da moeda e o valor do dólar não cai.

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) evitou comentar a alta do dólar. Ao chegar ao Palácio da Alvorada na noite desta segunda-feira (18), foi questionado se o governo tomaria alguma ação para conter a disparada da moeda americana. 

"O dólar subiu? Conversa.... quer o telefone do Roberto Campos [presidente do Banco Central]?", disse.

Colaborou Talita Fernandes, de Brasília

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