Copom reduz taxa básica para 4,25% e sinaliza que juro não cairá mais

BC mostra preocupação com inflação em 2021, quando a Selic pode voltar a subir

São Paulo

O Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central reduziu a taxa básica de juros nesta quarta-feira (5), de 4,50% para 4,25% ao ano, e afirmou que a sequência de cortes iniciada no ano passado chegou ao fim.

No comunicado da decisão, disse que é necessário ter cautela, pois a política monetária se tornou mais potente e os cortes realizados desde julho ainda não se manifestaram totalmente na economia.

A instituição também divulgou cálculos que mostram inflação na meta em 2021, mas em um cenário de juros mais altos no próximo ano.

"Considerando os efeitos defasados do ciclo de afrouxamento iniciado em julho de 2019, o Comitê vê como adequada a interrupção do processo de flexibilização monetária", disse o BC em seu comunicado.

Esse foi o quinto corte na gestão do presidente Jair Bolsonaro. Desta vez, a magnitude da redução foi menor: 0,25 ponto percentual, após quatro cortes de 0,50 ponto percentual cada. Desde dezembro de 2017 os juros vêm renovando as mínimas históricas.

O corte ocorre em um momento de recuperação ainda lenta da economia brasileira, reforçada pelas incertezas trazidas pelo surto do coronavírus a partir da China, e de expectativa de queda da inflação, após a alta registrada no final de 2019 por causa do preço da carne.

Contribui ainda o cenário de taxas de juros baixas em praticamente todas as economias relevantes, por conta do fraco desempenho da economia mundial. A maioria dos países encerrou seu ciclo de corte nos últimos dois meses.

O BC não citou a questão do coronavírus, mas afirmou que, apesar do recente aumento de incerteza no cenário externo, os juros baixos nas principais economias têm produzido ambiente favorável para economias emergentes.

O ciclo atual de corte de juros começou em julho, quando a taxa estava em 6,50% ao ano, logo após a aprovação da reforma da Previdência pela Câmara. O BC tem condicionado a redução dos juros ao andamento das reformas.

Mauricio Oreng, superintendente de Pesquisa Macroeconômica do Santander Brasil, afirma que o BC deixou claro que encerrou o ciclo de corte de juros e que a dúvida agora é quando voltará a subir a taxa.

"Vai depender principalmente da resposta da atividade econômica. Nosso cenário é que vai começar no segundo trimestre do ano que vem e encerra em 6% ao ano."

Ele diz que os números mais recentes indicaram dinamismo menor da economia brasileira e que isso pode contribuir para que o BC adie o início do processo de retirada dos estímulos de política monetária.

Priscila Deliberalli, economista do Banco Safra, afirma que a sinalização do BC surpreendeu a instituição.

"Pensávamos que o BC deixaria a porta aberta para fazer em março um ajuste final, mas estão dando um peso maior para a inflação de 2021", diz a economista do Banco Safra.

"Precisamos de juros baixos. A economia está há três anos tentando se recuperar, precisamos ganhar tração."

O economista-chefe da XP Investimentos, Marcos Ross, afirma que os juros devem ficar inalterados até o primeiro trimestre de 2021, mas que não se pode descartar uma retomada do ciclo de cortes se houver piora significativa do cenário externo, algo com que a instituição não trabalha neste momento. Afirma ainda que foi positivo o Copom sinalizar claramente seus próximos passos.

"Os cenários do BC mostram inflação confortável em 2020, mas em 2021 já está bem próxima à meta", diz.

Carlos Thadeu de Freitas Gomes Filho, economista-chefe da Ativa Investimentos, afirma que o BC pode voltar a cortar juros neste ano.

"Na ausência de choques externos e com mais decepções nos indicadores de atividade econômica, o Copom deve promover mais dois cortes, começando em junho, e a Selic chegaria a 3,5% ao ano, zerando a taxa de juros real para ver se a economia pega no tranco".

Flávio Riberi, professor da Faculdade Fipecafi, afirma que parte do efeito do corte de juros ainda irá aparecer na economia, o que justifica a pausa no ciclo de cortes, e que uma alta maior da inflação em relação ao previsto pode levar o juro real no Brasil para próximo de zero. “Os efeitos ainda vão começar a aparecer de uma forma mais presente na economia.”

Apesar de a taxa estar na sua mínima histórica, o ICC (Indicador de Custo do Crédito) do BC mostra que a redução ainda não chegou totalmente a consumidores e empresas. Enquanto a Selic caiu 2,25 pontos percentuais desde julho, a taxa média de juros das operações contratadas em dezembro atingiu 23,4% ao ano, diminuição de 0,2 ponto no ano.

Nas operações com pessoas físicas, a taxa média estava em 47,3% ao ano. No crédito às empresas, atingiu 16,5% ao ano.

A Selic chegou a 7,25% em 2012, no governo Dilma Rousseff, mas voltou a subir durante a gestão da petista. No governo Michel Temer, os juros atingiram a mínima de 6,50% ano.

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