Descrição de chapéu Coronavírus

Crises são os melhores momentos para oportunidades, afirma Jorge Paulo Lemann

Roberto Setubal, do Itaú Unibanco, diz que há chance de se fazer algo importante agora

São Paulo

O empresário Jorge Paulo Lemann, controlador de gigantes como AB InBev, Kraft Heinz e Burger King, disse que crises são os melhores momentos para oportunidades.

“Todas as crises que eu passei foram duras, sofri, não sabia direito como ia chegar ao fim, mas alguma oportunidade apareceu também. Compramos uma corretora em 1971. Íamos ser operadores de Bolsa, mas a Bolsa caiu 70% no mês seguinte. Viramos operador de open marketing e foi um bom negócio”, disse ele durante uma Live promovida pelo Fórum da Liberdade, nesta quinta-feira (16).

O encontro foi para discutir a crise causada pela pandemia do novo coronavírus.

Também participaram da conversa os empresários Roberto Setubal, copresidente do conselho de administração do Itaú Unibanco, José Galló, presidente do conselho de administração da varejista Renner, e David Vélez, cofundador e presidente do banco digital Nubank.

O empresário Jorge Paulo Lemann
O empresário Jorge Paulo Lemann - Bruna Santos/Folhapress

Lemann citou como outro exemplo de oportunidade na crise a compra das Lojas Americanas, em 1981, em uma época “que ninguém queria comprar ativos” por conta da inflação muito elevada.

“Isso [a compra das Lojas Americanas] nos permitiu comprar a Brahma num momento oportuno de eleição com resultado incerto. Compramos a Brahma por um preço muito barato. E, em 2008, tivemos a oportunidade de comprar a Anheuser-Busch”, afirmou.

O empresário afirmou ainda que contextos econômicos mais duros são momentos de oportunidades não apenas porque geram espaço para comprar barato. Nesses momentos podem ocorrer também uma mudança na forma de analisar o ambiente empresarial.

“É que certas coisas que não estavam disponíveis passam a estar, ou você passa a olhar o negócio de maneira diferente”, disse.

Digitalização

Afora manter o olhar afiado, Lemann reforçou que as empresas, em momentos difíceis, também precisam buscar alternativas para “sobreviver bem”. Fortalecer o caixa é vital. Ressaltou ainda que, neste momento, a digitalização é um caminho inexorável para a preservação dos negócios e, disse que suas empresas estão “um pouco” atrasadas no mundo digital.

“Mas temos certeza que vai ser cada vez mais importante. As Lojas Americanas já têm a Ame, que é uma forma de pagamento digital, e o Burger King está acompanhando tudo o que se passa na Domino’s Pizza, por exemplo, que no ramo de comida rápida é o mais avançado”, disse.

Para Lemann, a crise do coronavírus também é uma oportunidade para os brasileiros refletirem sobre a necessidade de pacificar o país.

“Que essa crise seja uma oportunidade de trabalharmos mais juntos. Um dos problemas do Brasil é essa polarização grande entre rico e pobre, esquerda e direita. Nada é resolvido, nada anda. Esperaria que essa crise gerasse mais bom senso e pragmatismo para resolver os problemas.”

O banqueiro Roberto Setubal, do Itaú Unibanco, compartilha da mesma opinião de Lemann sobre como encarar as crises.

“O Itaú fez várias transações históricas, grandes e relevantes na nossa história em momentos de crise. Possivelmente tenhamos a oportunidade de fazer algo importante desta vez”, afirmou.

Ele também disse que o banco está preparado para atravessar esse momento. “Hoje não há problema de liquidez e isso evita o mal maior. Mais para frente o Itaú vai estar muito bem, continuamos muito fortes. O banco está preparado, capitalizado, muito líquido e com condições de ajudar o Brasil superar a crise e voltar a crescer.”

Segundo Setubal, a crise também vai acelerar a digitalização do setor o que pode contribuir para o fechamento de agências.

“São os clientes que vão definir a necessidade ao longo do tempo. Mas o pessoal mais jovem, por exemplo, não gosta de ir [na agência]. Já estamos reduzindo num ritmo de 400 agências por ano. Isso pode se acelerar”, afirmou.

Setubal diz que é um momento de “pouco otimismo e muita esperança” e que precisamos de reformas profundas.

“A gente tem muitos desafios e precisaria estar crescendo mais rápido. Temos um estado ineficiente e desigualdades sociais enormes”, afirmou.

José Galló, da Renner, afirmou que a crise também mostra a importância de o país rever questões como a burocracias e regras legais antiquadas para agilizar o uso de alternativas digitais. “Vamos sair dessa crise com o digital tomando um papel importantíssimo. Vamos intensificar a telemedicina, o trabalho remoto.”

Para Gallo, o momento ainda revigora a agenda de reformas estruturais para o Brasil, como a tributária, a administrativa e a política. “Vamos apressar as reformas necessárias para nos dar competitividade.”

Para David Vélez, do Nubank, uma das principais repercussões da crise da Covid-19, será a mudança de padrão no uso dos meios digitais. E destacou o seu próprio exemplo.

Vélez contou que no Nubank, um banco digital jovem que até agora também tem clientes mais jovens, vem ampliando neste momento o número de clientes mais velhos. “A gente se viu ajudando pessoas de mais de 70 anos a abrir conta para receber os benefícios do governo”, disse Vélez.​

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