Descrição de chapéu Cifras & Coronavírus

Pesquisadores tentam passar a limpo história da invenção do álcool em gel

Estudante de enfermagem na Califórnia nos anos 1960 tida como a criadora do produto não tem nem sua existência comprovada

Rio de Janeiro

Desde o início da pandemia do novo coronavírus, o álcool em gel passou de produto deveras supérfluo para algo extremamente cobiçado e popular. Enquanto empresas de bebidas, cosméticos, higiene, petróleo e universidades se voltam para produzir e doar garrafinhas para serviços de saúde, “o brasileiro não perde tempo”.

Foi com essa frase debochada que começava uma notícia do jornal capixaba A Gazeta, que viralizou pelo país no fim de março. A manchete era “Coronavírus no ES: cartório registra primeira criança com nome ‘Alquingel’”.

O texto seguia dizendo que os pais haviam conseguido na Justiça o direito de nomear assim o recém-nascido e ainda que o outro filho do casal se chamava Influenza.

Era uma piada. Três dias depois, A Gazeta desmentiu que a notícia havia sido publicada em seu site e mostrou que a imagem da manchete com o logotipo do jornal era uma montagem.

Mas outra possível fake news assola o mundo da quarentena, dessa vez globalmente. É a história da invenção do álcool em gel, em 1966, por Lupe Hernandez, uma estudante de enfermagem de Bakersville, Califórnia. Lupe teria até patenteado sua ideia na ocasião.

De Portugal a Ruanda, da França à Espanha, é possível ler notícias festejando a invenção. Ainda mais porque a criação de um produto tão necessário nos dias de hoje teria sido feita por uma mulher não branca e, dado o fato de ter acontecido nos EUA nos anos 1960, provavelmente vinda de uma classe pouco favorecida.

Ilustração mostra Lupe Hernandez, suposta criadora do álcool em gel. Ela está cercada de emoticons sorrindo e joinhas e corações.
Carolina Daffara

As redes sociais não ficaram para trás. No Instagram, já se vê uma foto da dita cuja em centenas de publicações (busque #lupehernandez).

O problema da história é que não se sabe mais nada dela. Por exemplo: como Lupe inventou a mistura? Que produtos usou? Ela ficou rica? Está viva?

A provável fonte de todas as citações atuais é uma reportagem do jornal inglês The Guardian de 2012. A jornalista Laura Barton inicia seu longo texto sobre a explosão de venda do álcool em gel no Reino Unido contando em poucas linhas essa história sobre Lupe, infelizmente sem citar a fonte da informação.

A partir dessa reportagem a história se espalhou, como numa publicação de outro grande jornal inglês, o Independent. Para comemorar o Dia Internacional da Mulher de 2017, seu caderno de turismo listou seis invenções feitas por mulheres que melhoraram nosso conforto em viagens de avião, como o álcool em gel.

Então, com a pandemia, o interesse estourou. Algumas publicações resolveram ir atrás de Hernandez e, assim, começou uma investigação mundial. O caso chegou ao Smithsonian, um dos maiores complexos de museus do mundo, com sede em Washington. Em uma publicação no site da instituição, a historiadora sênior Joyce Bedi conta que recebeu pedido de um repórter para ajudá-lo a checar a história.

Bedi afirma que nenhuma patente em nome de Lupe Hernandez (ou variações próximas desse nome) pôde ser encontrada. Ela encontrou algumas outras envolvendo a limpeza de mãos no mesmo período da suposta invenção do álcool em gel e postou os desenhos técnicos delas, mas eram todas mais parecidas com caixas nas quais se enfiavam os dedos e punhos do que com líquidos ou géis.

A historiadora caçou obituários e se deparou ainda com a possibilidade de Lupe ser um homem. Até que entrou em contato com um museu na cidade onde tudo teria começado.

Bethany Rice, curadora do Kern County Museum, de Bakersville, respondeu que já havia recebido solicitações semelhantes recentemente e que não havia encontrado traços da existência de Lupe. Rice contou até que havia acessado os arquivos da escola onde Lupe poderia ter estudado enfermagem nos anos 1960 e, mesmo assim, nada.

A curadora postou um vídeo no Facebook (em inglês) do museu em que explica as diferenças entre fontes primárias e secundárias para historiadores como ela, comentando que as reportagens apenas citam umas às outras, sem nunca revelar uma fonte primária, como um jornal da época, por exemplo.

O presidente da Kern County Historical Society, entretanto, não descarta a possibilidade de ser tudo verdade: “Já fiz muita pesquisa na minha vida para saber que você nunca sabe o que vai encontrar”, disse Ken Hooper. Mas, em razão da quarentena, ele afirma que ainda conseguiu acessar os arquivos de sua instituição para descobrir algo.

Por fim, a revista Vanity Fair tentou decifrar o início do mistério em 2012. O repórter Dan Nosowitz entrou em contato com Laura Barton, a jornalista do Guardian que escreveu a reportagem citada por todos.

“Ela não se lembra de onde a história veio”, escreveu Nosowitz, reproduzindo a seguir o email que recebeu de Barton: “Eu me ofereceria para checar meus cadernos de anotação, mas eles estão em um depósito no Reino Unido, e eu atualmente estou ilhada na Grécia”.

Aguardemos, então, o fim das quarentenas. O mundo quer saber a quem agradecer pelo álcool em gel.

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