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Jerome Cadier

Aviação não busca subsídios, precisa de crédito para superar choque

Empresas aéreas não deixarão de existir, mas ineficiência nas operações não será mais aceitável ou sustentável

Jerome Cadier

“Em caso de despressurização, máscaras de oxigênio cairão automaticamente dos compartimentos localizados acima dos assentos.”

Essa é a frase de segurança dita pela tripulação antes da decolagem. Infelizmente, diferentemente dos aviões, com máscaras para todos os passageiros, diversos países enfrentam agora um enorme desafio: a falta de respiradores e de oxigênio para as suas economias.

A humanidade busca uma resposta através da coletividade, e nossos tripulantes e colaboradores continuam trabalhando para garantir um Brasil conectado, no incansável trabalho para repatriar milhares de passageiros e transportar insumos médicos para combater a Covid-19. É uma missão que permanecerá na nossa história.

Aviões da Latam Airlines Brasil, durante preservação ativa e storage em solo no aeroporto Mário Pereira Lopes, em São Carlos (SP)
Aviões da Latam Airlines Brasil, durante preservação ativa e storage em solo no aeroporto Mário Pereira Lopes, em São Carlos (SP) - Eduardo Knapp/Folhapress

Mas, para nos mantermos vivos, precisamos colocar a nossa “máscara de oxigênio”. Dessa forma, garantir o funcionamento de uma série de setores essenciais para a economia.

A aviação foi um dos primeiros setores a sentirem os impactos da maior crise da sua história, e da qual levaremos ao menos três anos para sair. Segundo a Iata (Associação Internacional de Transportes Aéreos), somente neste ano as empresas aéreas devem perder mais de 55% em receita.

Desde março, para garantir uma conexão mínima entre as capitais brasileiras, o setor opera uma malha aérea essencial. A Latam Brasil, que realizava em média 750 voos diários, hoje opera cerca de 35. A maior parte das aeronaves está no chão, com alto custo de manutenção necessária para preservar seus componentes.

No pós-pandemia, com previsões de redução do PIB neste ano e em 2021, a demanda de passageiros deve cair de 30% a 40%. Quando a economia trilhar uma recuperação, os passageiros terão novos hábitos, além do receio de voar e da dificuldade econômica, o que resultará no adiamento dos planos de turismo, além da retração das viagens a negócio.

Enquanto não houver vacina, as empresas deverão se adaptar a esse “novo normal” para atender os critérios de higienização e distanciamento social. Já estamos adotando muitas delas, como a obrigatoriedade do uso de máscaras, a menor interação entre tripulação e passageiros, a alternância de balcões de check-in e o espaçamento nas filas.

Uma coisa é certa: não sairemos sozinhos da crise, e a aviação voltará diferente, com mudanças profundas na operação e na gestão dos negócios.

Nos EUA, diante da perda de milhões de dólares por dia, as empresas foram socorridas por pacote governamental.

No Brasil, tais medidas são ainda mais urgentes. Aqui, mais da metade dos custos do setor está vinculada ao dólar, com impostos sobre o combustível, um dos mais caros do planeta, e diversas regulamentações.

Somos o único país onde a companhia aérea é responsabilizada por não poder operar durante eventos climáticos e o cliente entra na Justiça contra a empresa e pede dano moral.

O futuro da aviação dependerá do acesso ao crédito para garantir a solvência das empresas. Enquanto medidas do governo não se concretizam, as licenças não remuneradas dão apenas um fôlego para as empresas sobreviverem cerca de seis meses.

O setor aéreo não busca subsídios governamentais, mas precisa de ajuda por meio do acesso ao crédito para superar esta primeira onda do choque. Logo em seguida devemos, sim, olhar para a frente e endereçar problemas como a ineficiência do nosso país.

As empresas aéreas não deixarão de existir, mas a ineficiência nas operações não será mais aceitável ou sustentável. Está nas nossas mãos fazer a recuperação ser mais forte e durar menos. Não podemos esperar e assistir parados ao sucateamento do setor.

Jerome Cadier

presidente da Latam Airlines

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