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Documentário retrata livraria dos EUA que virou referência em pornô gay

'Atrás da Estante' descreve negócio desde a fundação até a derrocada com a web, passando pelo drama da Aids

São Paulo

“Não queríamos que soubessem o que nós fazíamos, porque achávamos que outras crianças não iriam querer brincar com os nossos filhos.”

Quem lê esse relato deve pensar imediatamente que a pessoa se refere a algum tipo de negócio maligno, ilegal ou perigoso. A frase, porém, surge da boca da jornalista Karen Manson, já no início do documentário “Atrás da Estante” (“Circus of Book”, na versão original), e faz referência a sua loja e distribuidora de pornografia gay.

A produção da Netflix, que chegou à plataforma no Brasil em 22 de abril, é dirigida por Rachel Manson, filha de Karen e Barry Manson, os proprietários da Circus of Book.

O empreendimento, que nasceu no início dos anos 1980 como uma livraria de pornografia gay, em West Hollywood, na Califórnia, tornou-se um ponto de encontro do público LGBTQ e uma meca no que se refere a conteúdo adulto.

Apesar de no passado os valores de produtos de sexo explícito serem altos e os próprios donos da loja reconhecerem no filme que no primeiro dia de funcionamento a livraria chegou a vender mais de US$ 1.000, o caminho do negócio não foi sempre linear e bem-sucedido. A começar pelo casal que fundou o empreendimento.

Karen e Barry Manson não fazem o estereótipo dos descolados que queriam defender uma cultura libertária ou algo do gênero. Pelo contrário, eles se conheceram em uma festa de judeus solteiros, se casaram sete meses depois e, com seus três filhos, formaram uma família tradicional americana.

A decisão por abrir uma livraria de conteúdo adulto gay surgiu de uma oportunidade de fazer dinheiro, e não de uma vontade própria.

Até então, Karen atuava como jornalista e Barry tinha trabalhado no setor de cinema, tendo também desenvolvido uma máquina para hemodiálise —o que lhes rendeu um bom dinheiro.

Mas uma hora a grana apertou, e a família começava a crescer. Um dia depois de vender os direitos dos equipamentos médicos que desenvolveu, Barry foi acordado por sua mulher, que lhe mostrou um anúncio no jornal L.A. Times: o publisher Larry Flynt procurava pequenos distribuidores para a sua revista pornográfica Hustler.

“Não podemos nos dar o luxo de não trabalhar, temos que descobrir o que vamos fazer”, teria dito Karen à época.

A resposta encontrada, então, foi fazer o pedido de distribuição de 2.500 revistas de Flynt. Mas, ao longo do tempo, o publisher foi diversificando sua carteira de publicações, e o casal, aumentando suas entregas.

Até que um dia, em 1982, Barry ficou sabendo que um dos principais destinos de entrega das revistas Hustler, a loja Book Circus, não estava em boas condições financeiras. Vendo nisso uma oportunidade, ele arriscou uma negociação com o proprietário do prédio e ficou com o espaço.

Para não gastar dinheiro e precisando trocar o nome do estabelecimento, ele resolveu modificar o luminoso que ficava em frente à loja: inverteu a ordem das palavras e acrescentou um “of” entre elas. Book Circus passaria a se chamar Circus of Book.

O negócio do casal Manson foi se expandindo, e a loja, se diversificando. O ápice chegou quando eles fizeram uma parceria para distribuir filmes pornográficos gays. Em um período em que não havia internet para ter acesso a conteúdos do gênero, o serviço da Circus ganhou relevância. “Houve uma época em que acho que éramos a maior distribuidora de filmes explícitos para gays nos Estados Unidos”, diz Karen no longa.

O casal chegou até a receber em sua loja para uma sessão de autógrafos o ator pornô Jeff Stryker, famoso entre o público gay à época. Assim, a Circus of Book virou não só um local de venda e distribuição de produtos para um nicho mas um ponto de encontro.

Mesmo criando essa atmosfera e tendo uma relação amistosa com o mundo gay, o filme mostra que, dentro da casa dos Manson, a coisa era bem diferente.

Em mais de uma ocasião durante o longa, Karen demonstra certo incômodo com os conteúdos com que trabalhava. Ela chega a dizer que não pretendia seguir com o empreendimento por muito tempo e diz ter escondido de amigos e dos filhos a real atividade que ela e o marido exerciam na loja.

Além disso, o filho Joshua revela ter escondido da família por muitos anos sua homossexualidade porque tinha medo de ser expulso de casa. A própria Karen afirma ter pensado que a orientação sexual de seu filho era uma punição de Deus por seu trabalho.

Não bastasse o drama desse conflito interno de Karen, a história do empreendimento também acompanhou a chegada de um grande problema para a comunidade gay: o vírus da Aids. Com melancolia e tristeza, o casal se recorda de muitos clientes e colegas que perderam em razão da doença.

Também tiveram que enfrentar investidas de governos conservadores que lhes renderam um processo por transporte ilegal de materiais pornográficos e até uma visita do FBI. “Era como se o perigo pairasse sobre nós o tempo todo”, afirma Karen sobre as ameaças recebidas.

Mesmo enfrentando tudo isso, Circus of Book não conseguiu se manter firme à chegada da internet. O documentário termina com o apagar das luzes da loja, em fevereiro de 2019, após mais de 30 anos em operação.

A história da loja dos Manson é um entre tantos retratos de setores que, mesmo resistindo a diversas intempéries, acabaram eliminados pela revolução online.


Atrás da Estante (Circus of Book)
EUA, 2019,
86 minutos
direção de Rachel Manson
disponível na Netflix

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