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A descarbonização como um meio para a recuperação econômica

Covid-19 agrava em muito um cenário econômico e social que já era desolador na América Latina

Robson Dias da Silva
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Nos últimos meses, a América Latina e o Caribe se tornaram um dos hotspots da pandemia mundial, superando a marca de 4 milhões de infectados e 170 mil mortes. Esses números ajudaram a acentuar as já conhecidas fragilidades estruturais da região, redimensionando seu espaço no debate público.

As acentuadas dificuldades que esses países ora enfrentam poderiam ser menores caso a desigualdade social, o déficit das infraestruturas econômica e social e a degradação ambiental não fossem marcas tão presentes no cotidiano das terras ao sul do rio Bravo del Norte.

Em meio à busca por uma vacina e ao receio de novas ondas de contágio, o mundo avança as discussões sobre o pós-pandemia, notadamente os caminhos para recuperação global. De certeza o que se sabe é que não será tarefa fácil superar a mais grave crise desde a 2ª Guerra Mundial que deve nos legar forte retração do PIB mundial (-5,2%) e ampliação da pobreza extrema.

De modo geral, as ações anunciadas e os discursos apresentados prometem a busca por um mundo mais seguro, menos desigual e mais resiliente. Após ultrapassarmos os 16 milhões de infectados e quase 700 mil mortes, mostra-se necessário criar mecanismos de proteção a futuras crises (sanitárias, climáticas ou econômicas) e assim reduzir o risco de novos choques sistêmicos. Também começa a se formar o consenso de que a não-tomada de ações resultaria em custos (financeiros e à vida) ainda maiores que sua tomada.

Dentro desse contexto, a Dinamarca revelou o intento de reduzir até 2035 suas emissões de CO2 em 70% do nível alcançado em 1990. França, por sua vez, planeja investir 1,5 bilhão de euros para tornar sua poderosa indústria aeroespacial neutra na emissão de carbono.

Mais ambiciosa, a Alemanha recentemente anunciou pacote de recuperação econômica da ordem de 130 bilhões de euros, dos quais 50 bilhões para as “ações verde”. O país surpreendeu ao não sucumbir ao poderosa lobby de sua indústria de motores e propôs medidas de conversão energética, apostando alto no chamado hidrogênio verde.

Mais próximo de nós, nos EUA, o candidato à presidência pelo Partido Democrata (Joe Biden) prometeu investir US$ 2 trilhões para, até 2035, descarbonizar a matriz energética do país.

E o como esse debate vem se dando na América Latina e o Caribe?

Em razão do grande número de infectados e mortos, grande parte dos nossos países estão ainda mais concentrados em ações sobre o hoje que medidas sobre o amanhã. A Covid-19 agrava em muito um cenário econômico e social que já era desolador, marcado por baixo crescimento e instabilidade política por quase todo o território latino-americano e caribenho.

A nossa atual crise é, de fato, uma sobreposição de crises que nos levarão a resultados mais críticos que a média mundial. A CEPAL, por exemplo, estima que o PIB regional cairá 9,1%, ao passo que a taxa de pobreza chegará aos 37,3%.

Em grande medida, essas projeções se devem ao que se espera do Brasil. Com quase 2,2 milhões de casos e 70 mil mortes, o país tem se destacado por ocupar a segunda posição no ranking mundial de casos de Covid-19.

Com estimativas que apontam quase 20 milhões de desempregados e mais um ano perdido em termos de crescimento, o Brasil busca mais uma vez saída para uma complexa situação que pode resultar em anos de retrocesso social e produtivo.

Nesse cenário, muito repercutiu carta publicada dias atrás na qual 17 ex-ministros da Economia e ex-presidentes do Banco Central (BC) defendem de modo enfático a adoção de medidas de recuperação econômica assentadas na sustentabilidade ambiental. O texto aponta quatro eixos de ação que possibilitariam alcançar esse objetivo: a) alcançar a economia de baixo carbono; b) zerar o desmatamento na Amazônia e no Cerrado; c) aumentar a resiliência climática e d) impulsionar a pesquisa e o desenvolvimento de novas tecnologias.

Em sendo o Brasil o país mais populoso e maior dimensão territorial, e também a maior economia da América Latina e o Caribe, seus caminhos têm grande influência sobre as condições climáticas globais e as dinâmicas produtivas de seus vizinhos.

Seus biomas, dentre os quais o cerrado e o amazônico, e seu vasto litoral, o colocam como peça central da geopolítica mundial. Sua estrutura produtiva, em especial setores ligados à produção/exploração de recursos naturais e à agropecuária, fazem do país estratégico para o completo êxito de objetivos globalmente pensados e perseguidos.

Sendo assim, não há exagero nas preocupações acerca das queimadas e desmatamento na Amazônia, como também não nas reiteradas advertências acerca dos malefícios da “sojização”, que se esparrama rapidamente e já alcança os territórios de Argentina, Paraguai e, mais recentemente, Uruguai.

Considerando que o país foi duramente atingido pela desarticulação de alguns importantes mercados globais e pela queda abrupta dos fluxos internacionais de capital (a Unctad estima US$ 80 bilhões a menos esse ano), a possibilidade de recuperação econômica liderada por investimentos em setores baixo-carbono se mostra via interessante quando se pensa em respostas para os médio e longo prazos.

Em seu recente relatório (“The Future of Nature and Business”), o Fórum Econômico Mundial destaca que investimentos em soluções pró-clima têm o potencial de geração de 395 milhões de emprego nos próximos, movimento US$ 10 trilhões até 2030.

No entanto, pensando sobre aprendizados trazidos da industrialização por substituição de importações, considero que um processo de descarbonização da economia brasileira (e de demais países da América Latina e Caribe) deveria, por princípio, ser cooperativo e soberano. Sem essas características corremos o risco de falharmos mais uma vez no alcance de maior patamar de desenvolvimento produtivo e social.

Penso que o processo de descarbonização deve ser cooperativo pois alcançá-lo demandaria a constante troca de informações, de apoio e de conhecimento já existentes e acumulados em escala global. Soberano porque ensejaria, assim, maior liberdade e independência tecnológica, cultural e financeira no longo prazo.

Nesse sentido, medidas isolacionistas não caberiam nesse momento, fazendo do sistema multilateral, com aperfeiçoamentos, peça-chave nesse processo. A descrença nas forças de cooperação e governança global e o comportamento refratário ao entendimento de que a questão ambiental, tal como a econômica, se faz como vasos comunicantes, não apenas dificultariam a tomada de processos, com o adiaria ou mesmo impediria o alcance de seus objetivos, levando a maiores riscos sistêmicos e, por conseguinte, custos globais mais altos.

E como garantir a soberania nacional nesse contexto? O caminho passaria primeiramente por pensar o futuro (“o que queremos ser?”) e, em seguida, pelo investimento massivo em novas tecnologias e conhecimento, o que aliás foi bem enfatizado na carta publicada pelos ex-ministros e presidentes do BC.

Inovações em produtos e processos, maior conhecimento do inventário ambiental, proteção aos biomas e aos conhecimentos dos povos indígenas e tradicionais, acordos de cooperação e integração regional e políticas estatais e de governança pública e privada baseadas em práticas ambientais são medidas que não podem ser prescindidas nesse processo.

Isso feito, muito certamente o Brasil e seus vizinhos se colocariam na fronteira de uma nova revolução global. E nossos netos viveriam em um mundo um pouco melhor.

Robson Dias da Silva, economista e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro Doutor em Desenvolvimento Econômico pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Foi visiting scholar no Institute of Latin American Studies da Columbia University.

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