Descrição de chapéu Coronavírus

Mais home office para bem formados traz destruição do emprego de baixa qualificação

Para especialistas, pandemia vai acelerar mudanças e pode aumentar desigualdade no mercado de trabalho

Rio de Janeiro

A adoção definitiva de home office após a pandemia deve acelerar mudanças estruturais no mercado de trabalho, com potencial para aprofundar as desigualdades entre trabalhadores mais escolarizados e aqueles com menor qualificação. Para especialistas, o tema tem que ganhar espaço no debate econômico para apoiar o contingente que tende a ter maiores dificuldades de se recolocar.

É uma mudança que já vinha ocorrendo de forma gradual, a partir da adoção de novas tecnologias de comunicação e automação, mas que ganha velocidade durante a pandemia, que forçou as empresas a buscarem alternativas para manter o funcionamento mesmo com a restrição à circulação de pessoas para evitar o avanço do coronavírus.

Os dados sobre o desemprego divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nesta quinta (6) já sinalizam que o teletrabalho vem protegendo mais os trabalhadores mais qualificados do que aqueles que dependem do movimento nas ruas para ganhar seu sustento.

Mesmo com o aumento do desemprego e o fechamento recorde de vagas no segundo trimestre, o rendimento médio do trabalhador subiu 4,6% em relação ao trimestre anterior, para R$ 2.500, indicando que o corte se deu de forma mais intensa entre os trabalhadores que recebem os menores salários.

"Quando a gente fala em trabalho remoto, geralmente envolve o trabalhador o mais qualificado", diz o economista Otto Nogami, do Insper. "A gente está vendo uma mudança de perfil em relação à desocupação: o qualificado se posiciona mais rapidamente no mercado e o não qualificado vai caindo no desemprego."

Neste momento, o problema tem forte influência da restrição à circulação dos trabalhadores informais, que geralmente têm rendimento menor. No segundo trimestre, o primeiro em que a pesquisa do IBGE captou três meses completos de pandemia, a taxa de informalidade da economia atingiu o menor patamar desde o início da série histórica, em 2012.

Mas, com a perspectiva de que as empresas passem a adotar o teletrabalho de forma permanente, a tendência o espaço para menos qualificados no mercado formal fique cada vez mais estreito. "O formato do trabalho vai mudar, basta que as pessoas tenham condições de ter tecnologia em casa para trabalhar", reforça o professor do Ibmec Ricardo Macedo.

Uma pesquisa do FGV-Ibre mostrou que mais da metade das empresas disseram que vão incorporar parcialmente ou totalmente mudanças no sistema de trabalho adotadas durante a pandemia. Do total dos entrevistados, 83% adotaram o home office para atividades administrativas.

Um exemplo de mudança permanente já foi anunciado pela Petrobras, a maior empresa do Brasil, que quer manter 50% de seu pessoal administrativo em trabalho remoto por ao menos três dias por semana. Com isso, pretende reduzir de 17 para 8 o número de prédios que ocupa.

Com uma estrutura menor, demandará menos pessoal de apoio e conservação para atividades como segurança, manutenção ou limpeza. A queda na demanda por esse tipo de serviço já foi sentida também pelo IBGE: em maio, as atividades de limpeza de prédios e agenciamento de mão de obra estiveram entre as que impulsionaram o tombo do setor de serviços.

O grupo Serviços administrativos e complementares, que inclui essas atividades, recuou 8,6% em abril e 3,6% em maio. É um dos que mais sofrem com a crise no setor de serviços, embora os serviços prestados às famílias —grupo que inclui hotéis, restaurantes e salões de beleza, por exemplo— tenha caído mais.

Nogami acrescenta que a necessidade de reduzir custos e melhorar a eficiência custos para enfrentar deve agilizar ainda mais a mudança. "As empresas estão descobrindo que conseguem controlar a produção remotamente. Isso representa uma redução significativa em termos de custo."

O economista Cosmo Donato, da LCA Consultores, frisa que essa mudança vem de antes da pandemia, respondendo aos avanços tecnológicos que permitem, por exemplo, a substituição de caixas de supermercado por sistemas eletrônicos para o processamento e pagamento das compras.

"A pandemia não é causa, mas tem efeito indireto na aceleração do processo", afirma. "O grande desafio é fazer com que essa tecnologia não abrace somente o emprego altamente qualificado, mas consiga abranger também a parte de baixo da pirâmide", completa.

Ele pondera que aplicativos que permitem a venda do trabalho diretamente ao consumidor final sem passar por uma empresa, como os de transporte de passageiros ou de entregas, já cumprem um papel como alternativa para absorver essa mão-de-obra que está à margem do avanço tecnológico.

Mas ressalta que esses serviços ainda deixam lacunas em relação a temas como segurança do emprego ou a situação previdenciária do trabalhador —com o corte de vagas no segundo trimestre, o número de pessoas que contribuíram para a Previdência chegou perto do mínimo histórico, registrado quando a pesquisa começou a ser feita.

Diante do cenário, os especialistas pregam um debate mais profundo de políticas para minimizar os efeitos econômicos da mudança sobre a desigualdade do mercado de trabalho brasileiro, que já vinha crescendo com os efeitos da recessão iniciada em 2014.

Pesquisa Datafolha mostrou que, entre os trabalhadores que ganham até dois salários mínimos, apenas 19% conseguiram trabalhar de casa durante a pandemia. Acima dos dez salários, o índice sobe para 71%. "Está aumentando cada vez mais o estoque de pessoas não qualificadas no mercado e isso talvez leve a uma situação crítica no futuro", diz Nogami.

"Precisamos pensar em como absorver essa mão de obra", completa ele. Donato diz que o debate sobre renda básica universal, que ganhou força após a pandemia, já é um passo nesse sentido. "Hoje, essa discussão já faz mais sentido. Deixa de ser uma questão puramente ideológica para ser uma questão real.

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