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'Soft porn' amador cresce em redes sociais e atrai público que quer ser VIP

Influenciadoras cobram mensalidade de homens que desejam estar em lista seleta do Instagram; ganho pode chegar a R$ 10 mil mensais

São Paulo

A solidão durante a pandemia impulsiona um novo negócio no Instagram: a venda de vídeos e fotos sensuais a listas privadas. Não é difícil empreender.

Nos stories —recurso da rede social com fotos e vídeos de até 15 segundos que se apagam após 24 horas—, existe a opção “melhores amigos”, uma lista de conteúdo em que o dono da conta seleciona as pessoas que podem acompanhar suas publicações.

Agora, por exemplo, só vira melhor amigo da influenciadora Aline Amorim, 38, quem pagar R$ 42 por mês. Ex-dançarina do grupo funk Jaula das Gostosudas, onde trabalhou 16 anos, seu pensamento para cobrar foi: quem ia ao show comprava ingresso, então nada mais justo que paguem para ver seu corpo sensualizando na rede social.

Ilustração em tons de preto e verde mostra mãos segurando um celular com a imagem de uma mulher de lingerie.Tarjas com cifrões escondem as partes mais explícitas
Influenciadoras cobram mensalidade para lista privada no Instagram - Betta Jaworski

Cerca de 370 pessoas já entraram na lista, o que indica que ela arrecadará R$ 15 mil no primeiro mês. O público é heterossexual e masculino e está em busca de mais atenção na quarentena, segundo Aline, que estabeleceu limites para a interação.

“Sempre digo: aqui você só vai ver stories, dançando e vestida. Aqui não vai ver pornografia, deixo bem claro que não sou garota de programa.”

O Instagram, entretanto, não permite que sejam vendidos elementos de uma conta. A empresa afirma que esse comportamento viola as suas diretrizes internas e que “remove o conteúdo assim que toma conhecimento”, referindo-se aos stories.

Também não permite nudez na plataforma, razão pela qual até os seios de uma obra de arte são banidos da rede.

Há como burlar a regra, entretanto —em especial nos stories—, já que ainda é um desafio para as plataformas implementar um sistema de inteligência artificial que capte um corpo nu em tempo real no vídeo ao vivo e o derrube.

Os influenciadores evitam nudez, pois sabem do risco de algum usuário fazer um print da tela e vazar a foto, ou mesmo denunciá-la, o que pode levar à suspensão do perfil e a um prejuízo econômico para quem se sustenta disso.

Para desviar da proibição de cobrar pelo acesso, muitos têm uma segunda conta exclusiva para os melhores amigos. Mantêm o perfil oficial com todo o histórico de fotos e as centenas de milhares de seguidores, o que garante segurança caso queiram voltar ao uso ortodoxo do Instagram.

Aline não publica foto nua e não interage pelo WhatsApp quando pedem. Isso estreitaria o contato, segundo ela. A diferença entre stories e stories pagos é a picância. Os vídeos privados são sempre feitos de biquíni ou lingerie, com tônica exclusivamente sexual.

O Instagram virou o principal canal de renda de muitos usuários, que também usam a rede para divulgar produtos de diferentes marcas —que é a lógica financeira do mercado de influenciadores.

Antes de criar a lista privê, a renda de Aline pela rede social girava em torno de R$ 4.000. Com certeza irá subir, embora seja difícil prever o padrão dos próximos meses.

Dos R$ 15 mil calculados com a lista VIP, 30% ficam com a Digital Seduction, agência recém-criada para profissionalizar o “mercado sensual”, como diz o fundador, Matheus Marques, especialista em marketing digital. Ele ressalta que é necessário diferenciar esse nicho do pornográfico.

“Até prefiro que elas não produzam conteúdo sexual explícito, porque a chance de tomar banimento do Instagram é grande, tem que ter empreendimento que gere lucro no longo prazo”, afirma.

Para ele, não se trata da venda de conteúdo, mas da venda de acesso. “As pessoas não compram porque é nudez, compram porque é a influenciadora X, Y, Z, porque terão mais chance de obter uma resposta delas, porque se sentirão VIPs”, conta.

O trabalho da agência é ajudar na criação de estratégia, assessorar, gerenciar anúncios, criar email marketing, contas de contingência (caso a outra seja derrubada) e facilitar a integração entre a rede e um site de pagamento.

O usuário que quiser pagar pela lista VIP clica em um link na rede social e é levado a um site em que inclui dados do cartão de crédito.

Outra influenciadora que adotou a prática é Ani Rocha, 23, que já está com uma trajetória sólida nesse ramo. Iniciou a lista paga em outubro e recebe cerca de R$ 6.000 por mês. Ela planeja criar um perfil todo privado e subir o valor —seu plano hoje é de R$ 37.

Com mais de cinco salários mínimos, diz que não precisa de outra ocupação. Com exceção do risco de vazamento das fotos, está satisfeita. “Trabalho bem livre, eu gosto de dançar e de sedução.”

O pay per view improvisado no Instagram copia o que sites como Patreon e OnlyFans lançaram no mercado há mais tempo. Popular há quatro anos, o OnlyFans começou a ganhar relevância entre influenciadores no Brasil, em especial com contas eróticas e de sexo explícito.

A lógica do site é pagar para acessar conteúdo de anônimos ou famosos, que determinam o preço de suas fotos, vídeos e conversas.

O revisor de texto Pedro Messina, 24, cobra US$ 5,99 (R$ 32) por pessoa, o que dá acesso às publicações que fez desde janeiro, quando entrou. No primeiro mês, levou US$ 135. Hoje, ganha mais de US$ 1.600 (R$ 8.500) e virou um guru aos recém-iniciados.

“Encaro como trabalho, pelo tempo que demanda. Gasto 30 vezes mais tempo divulgando do que gravando. Todo o mundo faz tudo sozinho”, conta. As tarefas incluem edição e tratamento de foto e vídeo e gerenciamento de Twitter, Snapchat e PornHub, onde divulga seus vídeos e tenta atrair mais assinantes.

“O meio é muito concorrido. Com desemprego alto e quarentena, tem muita gente. O tesão está na ideia de proximidade, de uma pessoa real, não de um corpo padrão e que está nem aí para você.”

No “lado B” do Twitter, Messina mantém uma rede de vários usuários que se engajam para a promoção de seus canais, publicando nudez e cenas de sexo. O Twitter permite conteúdo adulto, desde que classificado como sensível.

Em um grupo de WhatsApp, ele compartilha dicas de como ganhar mais dinheiro com a pornografia amadora, “mas que não é trash”. O grupo chama Sindicato, e Messina se define como um MEI pornô.

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