Venda de debêntures da Vale pode render R$ 4 bi à União

Expectativa do BNDES é levantar R$ 6 bilhões com operação até 2021

Rio de Janeiro e São Paulo

O BNDES espera concluir até o início de 2021 a venda de debêntures da mineradora Vale adquiridas no processo de privatização da companhia, em 1997.

A expectativa do banco é que os papéis rendam cerca de R$ 6 bilhões aos cofres públicos, dos quais R$ 4 bilhões irão para a União, dona de dois terços dos 214,3 milhões de títulos envolvidos na oferta. Nesta quarta (7), os papéis valiam R$ 29,90 no mercado secundário.

A venda é parte de estratégia do BNDES para reduzir sua carteira de reduzir a carteira de seu braço de investimentos, o BNDESPar, que somava ao fim do primeiro semestre R$ 77,7 bilhões apenas em participações em companhias negociadas em Bolsa.

Em 2020, o banco já se desfez de R$ 8,1 bilhões em ações da própria Vale e de R$ 22 bilhões em Petrobras, na maior oferta pública brasileira desde a capitalização da petroleira, em 2010. Esta semana, concluiu a venda de R$ 6,9 bilhões em ações da empresa de papel e celulose Suzano.

BNDES espera levantar R$ 2 bilhões com a venda de títulos da Vale
BNDES espera levantar R$ 2 bilhões com a venda de títulos da Vale - Sergio Moraes - 17.jun.2019/Reuters

Estas debêntures da Vale foram lançadas durante o processo de desestatização com o objetivo de garantir aos acionistas pré-privatização parte do lucro da produção de minas que ainda não operavam quando o governo decidiu abrir mão do controle da mineradora. Os papéis são perpétuos, ou seja, não têm vencimento.

Ao todo, foram emitidos 388,5 milhões de títulos, batizados de debêntures participativas. O contrato liberava a negociação no mercado secundário após a segunda oferta pública de ações da mineradora, prevista no processo de participação, que ocorreu em 2002.

Os proprietários dos papéis são remunerados pela Vale a cada semestre, com base no faturamento líquido da produção de minério de ferro no sistema norte, que inclui áreas de Carajás e Serra Leste, no Pará, e de cobre na mina do Sossego, em Carajás. Ou seja, o pagamento varia conforme a extração e o preço das matérias-primas.

Em 2019, a mineradora pagou R$ 2,31 por debênture. Os valores referentes ao primeiro semestre de 2020, R$ 1,27 por título, começaram a ser pagos este mês, totalizando um pagamento de R$ 494 milhões.

Segundo Daniel Sasson, analista do Itaú BBA, a remuneração deve ser ainda maior em 2021, com a volta da operação total da Vale pós-Brumadinho.

“Seria interessante se a Vale comprasse essas debêntures, algo que a empresa já cogitou no passado, para abater a dívida”, diz Sasson.

A operação de venda pelo BNDES será coordenada pelo Bradesco, com participação dos bancos Citibank, JP Morgan e Itaú BBA. O valor final da operação, porém, dependerá do apetite do mercado pelos títulos.

Segundo Pedro Lang, diretor de renda variável da Valor Investimentos, o mercado de crédito tem tido apetite por papéis de primeira linha — de grandes empresas com baixo risco. "Fundos de crédito tiveram muita captação de recursos e estão com dificuldade de alocá-los no mercado. Fora que essa debênture da Vale é um produto com um atrativo diferente."

A estratégia de enxugamento da carteira do BNDES começou ainda no governo Michel Temer (MDB) e foi aprofundada no governo Jair Bolsonaro (sem partido). O objetivo, diz a gestão atual, é reduzir os impactos de volatilidade das Bolsas de Valores em seu balanço.

“Essa não é uma baita fonte de receita para o BNDES, mas o deixa com exposição à variação do preço do minério de ferro e talvez esta também seja uma razão para o desinvestimento, pois reduzirá os riscos do banco”, afirma Sasson.

Com os recursos arrecadados, o BNDES reforça ainda seu caixa para apoiar os programas emergenciais do governo para enfrentar a pandemia. Em 2019, a venda de ações levou o banco a um lucro recorde de R$ 17,7 bilhões.

Com aumento de provisões para calote e perdas em sua carteira de ações, o banco registrou prejuízo de R$ 582 milhões no segundo trimestre de 2020, a primeira perda desde o segundo trimestre de 2016, quando o prejuízo somou R$ 3 bilhões.

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