Descrição de chapéu petrobras

Não vamos nos endividar para pagar dividendos, diz presidente da Petrobras

Na quarta (28), empresa anunciou que poderá remunerar acionistas mesmo em caso de prejuízo

Rio de Janeiro

O presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, afirmou nesta quinta (29) que a aprovação para pagar dividendos mesmo em períodos de prejuízo teve o objetivo de "clarificar" medida já prevista em lei e que a companhia não colocará a remuneração dos acionistas acima da meta de redução de dívida.

A possibilidade de pagar dividendos mesmo com prejuízo foi anunciada na quarta (28), em revisão da política de remuneração aos acionistas da companhia, e gerou expectativas no mercado sobre a distribuição de recursos com relação ao desempenho de 2020, ano em que a empresa acumula perdas de R$ 52,8 bilhões.

"Não vamos nos endividar para pagar dividendos", afirmou Castello Branco, em reunião virtual com analistas para detalhar o balanço do terceiro trimestre, quando a estatal teve prejuízo de R$ 1,5 bilhão. Apesar da perda, a companhia vem reduzindo sua dívida, o principal gatilho para a remuneração aos acionistas.

Segundo o executivo, a possibilidade de pagamento de dividendos mesmo em períodos de prejuízo está prevista em lei. O aval do conselho de administração anunciado nesta quarta, afirmou, foi apenas para "clarificação" do tema na política de remuneração aos acionistas da companhia.

"Não há nada de novo. A necessidade de submeter ao conselho e aprovar [a medida] foi um cuidado com o fato de que a Petrobras no passado afirmou que não pagaria dividendos se não tivéssemos lucro", afirmou, referindo-se à versão anterior da política de remuneração aos acionistas.

Questionada por analistas sobre a possibilidade de distribuição de recursos com relação ao resultado de 2020, a empresa evitou reforçar as expectativas do mercado.

"A gente pediu a flexibilização [das regras] para que seja capaz de fazer [a distribuição] quando a empresa tiver reservas e uma geração de caixa excepcional, mas não podemos antecipar nada", disse a diretora financeira, Andréa Almeida. "Não vamos fazer nada para atrapalhar nossa meta de redução de dívida."

Em entrevista virtual durante a tarde, a executiva voltou a dizer que ainda não há previsão de distribuição dos dividendos, apesar do forte geração de caixa e redução da dívida durante o ano.

"Isso será aprovado mediante proposta pela assembleia [de acionistas]. Na verdade, não tem nenhuma previsão, foi apenas uma mudança na política de dividendos", reforçou.

A política atual prevê que, em anos de prejuízo, os dividendos podem ser pagos caso a dívida bruta da empresa tenha registrado queda nos 12 meses anteriores. Caso a dívida bruta esteja abaixo de US$ 60 bilhões, o valor distribuído pode superar o mínimo previsto em lei.

Considerando o resultado do terceiro trimestre, os indicadores mostram redução de dívida e forte geração de caixa livre em 12 meses, o que poderia justificar a remuneração aos acionistas mesmo com prejuízo.

O banco UBS avalia que a empresa fechará o ano com um corte de US$ 8,5 bilhões (cerca de R$ 49 bilhões, pela cotação atual) em sua dívida bruta, o que seria suficiente para pagar os dividendos tanto para ações preferenciais, que teriam a preferência, quanto para as ordinárias, que têm direito a voto.

Na reunião, Castello Branco negou que a revisão na política de dividendos tenha intenção de favorecer o governo, dono de 32% das ações da companhia, que precisa encontrar fontes de recursos para reduzir o déficit fiscal.

Segundo o executivo, o valor distribuído pela Petrobras representaria uma "gota no oceano" perto do que o governo recebe com royalties e impostos. Ele argumentou que a fatia da União na distribuição do lucro recorde da Petrobras em 2019 é de R$ 900 milhões.

Apesar do prejuízo o resultado da estatal foi bem recebido pelo mercado, que viu bom desempenho financeiro e operacional em um cenário de petróleo barato. "A Petrobras está ficando mais resiliente a preços baixos de petróleo", afirmaram Gabriel Francisco e Maíra Maldonado, da XP Investimentos.

Eles lembram que o prejuízo contábil foi provocado por fatores não recorrentes, como a adesão a um programa de anistia tributária e o pagamento de prêmios para a recompra de títulos. Sem isso, diz a empresa, o resultado trimestral seria um lucro de R$ 3,2 bilhões.

Para os analistas da XP, o aumento da produção do pré-sal, que tem menor custo, e iniciativas de redução de custos operacionais vêm ajudando a empresa a enfrentar o cenário de petróleo barato.

Na entrevista para detalhar o balanço, Castello Branco disse que há "assimetria" entre as percepções da mídia e do imprensa e do mercado sobre o desempenho da companhia, centrada em uma "dicotomia" entre o lucro e a geração de caixa.

"O lucro é uma variável contábil e contabilidade que não guia os negócios", afirmou. "A geração de caixa é muito importante porque é com o caixa que pagamos colaboradores, impostos, dívidas e financiamos investimentos".

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