Descrição de chapéu Financial Times

Economistas temem colapso de empresas na Europa antes da vacina ficar pronta

Esperança de fim para a pandemia cresce, mas países e companhias terão antes de enfrentar turbulência

Financial Times

A família que é dona do Due Ladroni, um dos restaurantes favoritos da alta sociedade de Roma, conhecido por atrair frequentadores glamorosos no final de noite, está sentindo o impacto do toque de recolher a partir das 18h adotado na capital italiana; isso reduziu sua freguesia em 70%.

“Nossos fregueses estão acostumados a vir para jantares de fim de noite, depois do teatro, mas não há teatro”, disse Michela di Maria, que, com a mãe e irmão, dirige o restaurante tornado famoso por seu pai, que morreu em maio deste ano.

Normalmente um ponto de encontro noturno para políticos e líderes empresariais, atores e modelos, sempre seguidos por paparazzi que se posicionavam na piazza em frente ao restaurante, o Due Ladroni agora só está servindo almoços.

“As pessoas não bebem tanto, e nem comem tanto, quanto no jantar. Em lugar de pedirem ostras, pedem massas”, diz Di Maria. Ela acredita que uma ordem de fechamento de todos os restaurantes de Roma seja provável, como já aconteceu em outras partes da Itália, a exemplo das províncias da Lombardia e do Piemonte, no norte do país.

Dono de restaurante observa mesas vazias na Piazza del Pantheon, em Roma - AFP

Com os índices de contágio pela Covid-19 subindo bem acima dos reportados durante a primeira onda da doença, no segundo trimestre, a grande preocupação para as autoridades europeias é que as restrições impostas a empresas que já enfrentam dificuldades, como o Due Ladroni, possam pressioná-las ao ponto de um colapso, o que causaria desgaste para o sistema bancário da região.

Em toda a Europa, medidas nacionais de lockdown voltaram a ser adotadas, em grau variável, a fim de tentar conter a ressurgência da pandemia, que uma vez mais ameaça avassalar os sistemas de saúde pública. Restaurantes, bares, academias de ginástica, cinemas e teatros foram forçados a fechar, e há toques de recolher em vigor em toda a região; na Bélgica, França e Irlanda, foi ordenado o fechamento do comércio não essencial – o que gerou protestos dos comerciantes independentes.

Ainda que as novas restrições sejam mais amenas do que as adotadas no segundo trimestre e a maioria das escolas e fábricas deva continuar aberta, desta vez, a expectativa ainda assim é de que as medidas causem nova desaceleração na economia, cujo nível de atividade continua bem inferior ao que existia antes da pandemia apesar da forte recuperação no terceiro trimestre.

Os 19 países que integram a zona do euro já estavam à beira de uma recessão antes que a pandemia chegasse, prejudicados por tensões comerciais, preocupações com o Brexit e o desordenamento causado pelas medidas de combate aos poluentes emitidos por automóveis. Tendo sido atingido com mais força que outras economias avançadas pela primeira onda do coronavírus, que arremessou a Europa a uma contração recorde no primeiro semestre do ano, o bloco comercial se recuperou parcialmente no terceiro trimestre. Mas agora deve passar por uma recessão de duplo mergulho, o que fará com que fique ainda mais para trás em comparação com os Estados Unidos e a Ásia.

Os problemas econômicos resultantes podem ter consequências sérias, especialmente para as empresas de serviços como hotéis, restaurantes e companhias de aviação, que dependem do contato humano e que sofreram as piores consequências da crise.

O ministro das Finanças alemão, Olaf Scholz, fala com a presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde - via REUTERS

Já que diversas vacinas estão a ponto de entrar em produção, pelo menos existe uma luz no fim do túnel. Mas as autoridades da União Europeia estão preocupadas com os danos econômicos que serão causados antes que a vida retorne a qualquer coisa próxima do normal.

Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE), declarou na semana passada que a segunda onda continua a representar perigo considerável para a economia. “Empresas que sobreviveram até agora por meio de captação ampliada e recorrendo às suas reservas podem decidir que se manter abertas deixou de fazer sentido em termos de negócios”, ela acrescentou.

O BCE está alertando que as consequências da pandemia podem gerar 1,4 trilhão de euros em empréstimos não pagos, sob o cenário mais severo – um total que excede o do crash do mercado em 2008. Embora esse prognóstico seja visto como alarmista em alguns quadrantes, desperta memórias da situação de uma década atrás, quando uma crise econômica se tornou crise financeira que ameaçou a sobrevivência da zona do euro.

Lorenzo Bini Smaghi, presidente do conselho do banco francês Société Générale, diz que muitos comerciantes e restaurantes esperam que os novos lockdowns sejam suspensos em dezembro, porque estão “contando com o Natal” para salvá-los. Mas ele adverte que: “Se isso não for possível, o impacto será muito forte”.

Receita para a recuperação

Existe uma grande diferença com relação à crise financeira. Desta vez, a resposta da Europa foi muito mais rápida e vigorosa. Olaf Scholz, ministro das Finanças da Alemanha, saudou a criação de um fundo de recuperação de 750 bilhões de euros pela União Europeia, para apoiar os países mais severamente atingidos, como um “momento digno de Hamilton”, invocando Alexander Hamilton, o primeiro secretário do Tesouro dos Estados Unidos, que ajudou a criar a união fiscal de seu país ao encampar as dívidas dos estados, em 1790.

Diferentes esquemas de licença não remunerada apoiada pelos governos, garantias de empréstimos e postergação no vencimento de impostos, combinados à política monetária muito frouxa do BCE, conseguiram evitar uma grande onda de falência de empresas ou cortes de pessoal. Em lugar disso, o número de insolvências na verdade caiu em muitos países, este ano. Na Alemanha, a lei que impõe declaração compulsória de insolvência foi suspensa temporariamente. Embora os preços das ações dos bancos tenham caído, e que estes tenham elevado suas reservas para lidar com a onda de inadimplência em seus empréstimos que o mercado aguarda, as quebras por enquanto não se materializaram.

As perspectivas da economia mundial se abrilhantaram com as notícias de que as vacinas desenvolvidas pela parceria Pfizer e BioNTech e pela Moderna, dos Estados Unidos, haviam demonstrado efetividade de mais de 90% em seus testes, e que sua produção poderia começar em questão de semanas, gerando esperanças de que um fim para a pandemia esteja à vista.

Olivier Blanchard, antigo economista chefe do FMI, diz que os índices de eficácia inesperadamente elevados das vacinas são “de fato uma virada no jogo”, e que eles implicam que “agora é provável que, pelo final do ano que vem, tenhamos saído da crise”. Ele acrescenta: “Assim, se nada mais mudar e conseguirmos controlar a explosão atual do vírus, as perspectivas positivas devem ajudar a restaurar a confiança e a estimular a demanda, agora”.

Alguns dirigentes econômicos veem até o potencial de uma recuperação econômica semelhante à prosperidade que floresceu depois da gripe espanhola, um século atrás.

“Depois da Primeira Guerra Mundial e de duas ondas de gripe espanhola, no começo da década de 1920, as economias e sociedades estavam devastadas”, disse Olli Rehn, presidente do banco central da Finlândia. “Tivemos uma crise financeira e agora uma pandemia, com uma disparada nos índices de poupança, e assim, se não houver disparada no número de insolvências, não se pode descartar a possibilidade de uma forte recuperação – mesmo que não na mesma escala vista durante a década de expansão iniciada em 1920”.

Rehn diz que um estímulo fiscal e monetário substancial continuava a ser necessário, “a fim de construir uma ponte que nos ajude a passar por esse período conturbado”. No entanto, ele acrescenta que a eleição de Joe Biden como presidente dos Estados Unidos também estimularia a Europa ao reduzir as tensões comerciais, que vêm prejudicando a economia exportadora da região desde que Donald Trump chegou à Casa Branca. A produção dos e as encomendas aos fabricantes europeus vêm crescendo rapidamente, propelidas por exportações à Ásia, especialmente à China – em contraste com a lentidão do setor de serviços.

A zona do euro demonstrou sua resiliência ao se recuperar muito mais rápido do que a maioria dos economistas esperava, no terceiro trimestre, com um crescimento recorde de 12,7%. “A força da recuperação no terceiro trimestre indica que a resposta política inicial foi efetiva e a capacidade de recuperação da economia foi preservada”, disse Lagarde. “Mas será necessária uma gestão cuidadosa das políticas públicas para que esse continue a ser o caso”.

Cicatrizes em toda a região

Mesmo que uma vacina efetiva seja aprovada rapidamente, ainda serão necessários muitos meses para que ela seja produzida, distribuída e ministrada a número suficiente de pessoas para que a vida possa retornar a pelo menos um arremedo de normalidade. Os economistas se preocupam com a possibilidade de que muito mais empresas entrem em colapso antes que isso aconteça, elevando o desemprego, e mesmo depois que a pandemia acabar é provável que continue a haver partes da economia que continuarão a ter de lidar com danos mais duradouros, como as companhias de aviação e o comércio varejista.

“A vacina mudará as coisas, mas não surgirá amanhã”, disse Lucrezia Reichlin, professora de Economia na London Business School. “A crise deixará cicatrizes, particularmente em determinados setores e regiões”. Para evitar um grande número de falências entre as pequenas empresas sob controle familiar, os governos europeus “precisam ser mais inovadores”, oferecendo subvenções ou injeções de capital, diz Reichlin, que foi vice-presidente de pesquisa do BCE.

Alemanha, Áustria, França e Itália já prometeram dezenas de bilhões de euros adicionais em assistência a fim de compensar a perda de receita de empresas prejudicadas pelos lockdowns mais recentes. Victor Constâncio, antigo vice-presidente do BCE, diz que outros países deveriam seguir esse exemplo e estender seu apoio de modo ainda mais amplo, por exemplo aos restaurantes de seu país, Portugal, que não tiveram de fechar mas continuam a sofrer por conta dos temores quanto ao vírus.

“A vacina parece destinada a ser distribuída no segundo trimestre do ano que vem, e temos de manter as empresas e as pessoas à tona até lá”, ele disse.

Monika Schnitzer, professora de Economia na Universidade Ludwig-Maximilians, em Munique, e consultora do governo alemão, diz que empresas como lojas, hotéis e cafés, que dependem da presença de fregueses nas regiões centrais das cidades, estavam passando por “transformação estrutural mesmo antes da crise... esses setores terão de mudar”.

Algumas companhias europeias nos setores mais prejudicados estão à beira do colapso. A Norwegian Air, companhia de aviação pesadamente endividada, anunciou pela primeira vez na semana passada que a falência era uma possibilidade. Na Espanha, os 210 empregados da Majórica foram informados recentemente de que a empresa criada 130 anos atrás estava pedindo falência, devido à forte queda nas vendas de suas pérolas artificiais durante a pandemia.

Raymond Torres, economista chefe da Funcas, fundação dos bancos de poupança espanhóis, diz que “se a pandemia prosseguir por muito mais tempo, há o risco de que nos tornemos uma economia zumbi, especialmente nos segmentos mais afetados do setor de serviços – transporte, hospitalidade, turismo -, o que significa nem tanto um problema de falta de liquidez mas sim uma possível insolvência”.

Baleares enregeladas

O sofrimento do lockdown e das restrições a ele associadas fica evidente de forma especialmente aguda nas ilhas Baleares, uma parte da Espanha cuja economia depende de atrair turistas a locais como Mallorca e Ibiza, e onde a produção econômica caiu em 21% nos 12 meses até o final de setembro. Para o ano como um todo, o governo regional das Baleares antecipa queda de atividade de quase 30% - pior do que a registrada na crise financeira.

“Quando a crise começou, em março, nossos hotéis tinham planos de contingência para períodos de dois, três ou seis meses”, disse María Frontera, que preside a federação de hotelaria de Mallorca. “Mas agora temos planos de contingência para prazos de dois ou três anos, porque pode ser que seja essa a demora para que a atividade volte ao normal... Há muitos hotéis que não serão capazes de reabrir no ano que vem, porque, mesmo que surja uma reativação, sabemos que a demanda será muito baixa”.

Frontera acrescenta que empréstimos do governo até agora mantiveram o setor à tona. Seu Hotel Marina, inaugurado pelos avós de Frontera 85 anos anos atrás, na costa norte de Mallorca, precisou tomar um milhão de euros emprestados. Mas embora empréstimos como esse tenham prevenido danos ainda maiores à economia da Espanha, pode ser difícil continuar a concedê-los, se a crise prosseguir e o desgaste dos negócios e do setor bancário do país persistir.

Pablo Hernández de Cos, presidente do banco central da Espanha, vem alertando sobre os riscos de simplesmente conceder mais empréstimos para que as empresas consigam sobreviver à crise, já que isso poderia levar companhias à insolvência. “A mutação desta crise em crise bancária seria devastadora”, ele alertou em um discurso recente.

“A crise já resultou em elevação no nível de endividamento de muitas empresas”, ele apontou, apelando por “medidas de foco mais estreito” que não resultem em obrigações financeiras mais pesadas para as companhias – como subvenções diretas, injeções temporárias de capital e um método mais enxuto de reestruturação de dívidas e condução de processos de falência.

Os governos europeus estão contando com o plano de recuperação em valor de 750 bilhões de euros que os líderes da União Europeia assinaram em julho, a fim de bancar os gastos adicionais que terão de realizar a fim de absorver o impacto da pandemia e ajudar a forçar uma recuperação.

O orçamento e pacote de recuperação completo da União Europeia – mais de metade do qual será integralizado em forma de subvenções - ainda não entrou em vigor, no entanto, e os países membros ainda precisam contornar a oposição da Hungria e da Polônia às cláusulas ditas de “Estado de Direito”, que vinculariam os desembolsos de assistência ao respeito dos valores da União Europeia pelos governos dos países beneficiários.

Mesmo presumindo que o fundo de recuperação veja a luz do dia, vai ser preciso algum tempo para que a porção mais substanciosa do dinheiro comece a chegar aos cofres dos países, depois que os participantes fizerem suas contribuições iniciais no ano que vem. Enquanto isso, a Comissão Europeia está instando os governos nacionais a a manter abertas suas torneias fiscais.

“As consequências dessa crise serão profundas e duradouras, e isso significa que nossas políticas fiscais precisam manter uma postura de apoio aberto por prazo mais longo do que seria de imaginar inicialmente”, diz Paolo Gentiloni, comissário da Economia da União Europeia.

No restaurante Due Ladroni, à beira do rio Tibre em Roma, o governo contribuiu com 11 mil euros em assistência até o momento – soma minúscula para um negócio cujo giro normal é de mais de 1,5 milhão de euros por ano. Além da receita perdida, Di Maria diz que teve de arcar com os custos adicionais das regras de prevenção ao vírus, adquirindo mesas maiores, máscaras, cardápios plásticos e barreiras para os terraços externos do restaurante. “E a cada vez que gastamos dinheiro, eles nos fecham”, ela acrescenta.

“Se vão fechar os restaurantes, precisam nos dar mais ajuda”, ela insiste. “Trabalhamos duro há anos e vivemos disso. Agora temos de gastar nosso dinheiro pessoal para investir no negócio e pagar o pessoal”.

Frankfurt: vírus silencia famoso hotel e piano bar

O Hessischer Hof é o único hotel cinco estrelas de Frankfurt e há décadas os visitantes à feira de livros anual da cidade passam suas noites lá, ouvindo música ao vivo e fumando charutos no Jimmy’s Bar. Mas agora, o aristocrático proprietário do hotel, Donatus Graf von Hessen, descendente distante da família real do imperador alemão Frederico 3º e da rainha britânica Vitória, decidiu fechá-lo.

O destino do hotel e de 63 de seus empregados, que Von Hessen diz ter decidido “com o coração pesado”, demonstra como a pandemia está causando sofrimentos econômicos graves mesmo na Alemanha, que até o momento foi menos afetada pela crise do que outros países, e manteve partes de sua economia em funcionamento.

O fechamento do hotel reflete, em particular, o colapso do segmento de feiras internacionais, que era uma grande fonte de renda para o estabelecimento desde que ele foi construído em 1952, ao lado do vasto centro de conferências da cidade. Como muitos outros eventos, a feira do livro de Frankfurt este ano aconteceu online.

“Por fim, não havia alternativa, do ponto de vista operacional e estratégico”, diz Von Hessen, cuja família é dona de hotéis, castelos e uma vinícola. “Todas as projeções indicam claramente que os segmentos de conferências, feiras e viagens de negócios vão se recuperar apenas em prazo muito longo, e que novos prejuízos devem acontecer nos dois próximos anos”.

Financial Times, tradução de Paulo Migliacci

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