Saída de Schroder indica que reestruturação na Globo está longe de terminar

Não está descartado o desaparecimento dos cargos que o ex-diretor geral da TV ocupava

São Paulo

A saída de Carlos Henrique Schroder, ex-diretor geral da TV Globo, anunciada para 2021 pelo presidente do Grupo Globo, Jorge Nóbrega, nesta quinta-feira (19), indica que a reestruturação da empresa está longe de terminar.

Ricardo Waddington, atual diretor dos Estúdios Globo, assumirá em 1º de dezembro o comando da área de Entretenimento, posto que Schroder vinha acumulando com a direção de Criação e Conteúdo dos Canais Globo, onde ele permanecerá “até que processo do novo modelo esteja concluído”, como informa Nóbrega em seu comunicado.

A saída definitiva de Schroder pode ocorrer no primeiro trimestre de 2021 ou até mais tarde. Até lá, Waddington responderá ao próprio Schroder, assim como Ali Kamel, responsável pelo Jornalismo, e Renato Ribeiro, chefe de Esportes.

A incógnita sobre quem ocupará essa cadeira mais alta, ainda nas mãos de Schroder, não foi respondida, assim como o destino da atual ocupação de Waddington. Não está descartado o desaparecimento desses cargos em novo rearranjo de funções e hierarquias.

Carlos Henrique Schroder, diretor- geral da Globo, recebendo o prêmio Caboré de Veículo de Comunicação - Fábio Rocha/Globo

Tanto o posto atual de Waddington como os de Schroder foram nominalmente criados no início deste ano, quando começou a valer, na prática, o planejamento de “uma só Globo”, unindo os canais pagos, antes abrigados sob o guarda-chuva da Globosat, que deixou de existir, além da gravadora Som Livre, do Globoplay e da DGCorp (Diretoria de Gestão Corporativa).

Essa reorganização do bolo provocou várias mudanças e a mais notável delas já prenunciava a redução de poder de Schroder e de outros executivos, ao mesmo tempo em que promovia Paulo Marinho, filho de José Roberto Marinho e neto de Roberto Marinho (1904-2003), que passou a responder por todos os canais de TV, pagos e aberto, do grupo. E cada canal passou a ter o seu diretor, sem mais a classificação de “geral”.

No caso da Globo, o posto ficou com Amauri Soares, que antes respondia como diretor de Programação e se reportava a Schroder.Criado após a saída de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, em 1997, o cargo de direção-geral, que já havia abrigado Walter Clark até 1977 e voltou a constar como tal a partir da chegada de Marluce Dias da Silva, voltou a desaparecer do organograma no início deste ano.

Isso representa, mais do que nunca no histórico do grupo, uma descentralização de poder e funções, com divisórias muito claras sobre as áreas de criação, produção e distribuição, segmentos que já funcionaram em perfeita harmonia em outros tempos.

A aposta no streaming e a logística de aproveitar os mesmos conteúdos em janelas de exibição distintas impulsionaram o projeto Uma Só Globo, anunciada aos funcionários e ao mercado de anunciantes e fornecedores em 2017.

O processo tem resultado no enxugamento de profissionais que ocupavam funções semelhantes. Na semana passada, o grupo anunciou a saída do publicitário Sérgio Valente, que comandava a área de Comunicação e foi sucedido por Manuel Falcão, ex-diretor de Marketing dos canais Globosat.

Uma Só Globo também promoveu a conexão, até então quase nula, entre os canais fechados, principalmente na área de entretenimento, a ponto de a Globo hoje exibir produções que já foram exibidas antes no GNT ou no Multishow, por exemplo.

Em entrevista à Folha em outubro, Amauri Soares disse que as produções têm tido suas janelas de exibição definidas a partir da aprovação combinada entre os canais e o streaming sobre cada projeto, desde a concepção de cada obra.

Gaúcho de Santo Ângelo, Schroder estava na direção-geral da Globo desde 2013 e acumula 35 anos de Globo, sem contar os três anos anteriores na RBS, onde começou. Foi diretor-geral de Jornalismo antes de ocupar o posto mais alto, sucedendo Octavio Florisbal, que passou mais tempo na função, entre 2002 e 2013, originário do departamento comercial.

A própria área comercial do grupo sofreu convergência de profissionais e esforços, unindo o digital e a TV, no propósito de abordar o mercado publicitário com pacotes ou alternativas mais flexíveis.Desde a criação da Globo, em 1965, o grupo nunca promoveu alterações tão profundas em ritmo tão acelerado. Em seu comunicado, Nóbrega enfatiza a relevância de Schroder na condução do projeto Uma Só Globo, lema que também motivou slogans e campanhas coordenadas por Valente.

A gestão de Schroder sempre foi reconhecida como progressista e o perfil do executivo mostrava disposição em arriscar, tendo reaberto o humor da Globo à autocrítica e a sátiras publicitárias, sem falar nas edições mais ousadas de “Amor e Sexo”, programa de Fernanda Lima que saiu de cena

.Também fica marcada pelas primeiras demissões a partir de casos envolvendo racismo e assédio, como William Waack e José Mayer, mas pelo discreto anúncio do desligamento de Marcius Melhem, ex-diretor do núcleo de humor, omitindo as acusações de assédio sexual investigadas contra ele.

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