Descrição de chapéu Caixin

Retomada puxada pela indústria explica maior poluição em Pequim, diz relatório

Produção de cimento e aço volta a crescer; país tem como meta zero emissões líquidas de carbono até 2060

Pequim | Caixin

A poluição do ar aumentou no norte da China neste início de inverno, quando as indústrias pesadas aceleraram a produção para compensar o tempo perdido durante a crise do coronavírus no país, segundo mostra uma nova pesquisa.

Os elevados níveis de poluição significam que as principais regiões ao redor da capital, Pequim, e da principal cidade do noroeste, Xi'an, poderão descumprir suas metas de qualidade do ar até o fim do ano, segundo um relatório divulgado na quinta-feira (3) pelo Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo (CREA na sigla em inglês), uma organização de pesquisa ambiental.

A retomada também indica que a "contabilidade criativa" na indústria siderúrgica chinesa está prejudicando os esforços para reduzir a capacidade, de acordo com as metas do governo, e impedindo os ganhos de qualidade do ar de um dos setores mais poluentes do país, diz o relatório.

Ele conclui que a recuperação econômica pós-pandemia na China está atualmente "longe de ser verde" e ameaça os esforços para diversificar a economia e reduzir as emissões. A China é a primeira grande economia a recuperar o crescimento anual desde o surgimento da Covid-19, mas seu retorno dependeu menos do consumo e mais da indústria, em comparação com alguns outros países.

De acordo com o relatório, a região de 28 cidades ao redor de Pequim definida para melhorar a qualidade do ar viu as concentrações médias diárias de PM 2,5 –partículas transportadas pelo ar ultrafinas que podem ser especialmente prejudiciais à saúde humana– aumentarem 11% ano a ano em outubro e 2% no bimestre até novembro, apesar da meta do governo de que não houvesse aumentos ano a ano nos últimos três meses de 2020.

Pessoas atravessam uma rua em Pequim - Greg Baker - 10.out.2020/AFP

Embora as concentrações de PM 2,5 em uma área semelhante em torno da capital da província de Shaanxi, Xi'an, tenham caído 1% ano a ano no período de outubro a novembro, os números ficam aquém da redução anual compulsória de 3% no último trimestre do ano, diz o relatório.

Ambas as regiões, que cobrem uma ampla área de indústria pesada no interior da China, estão no centro de uma campanha governamental há vários anos para reduzir a poluição aérea. Mas elas tiveram retomadas significativas na produção de cimento e aço, com altas emissões de poluentes, desde que a recuperação econômica da crise do coronavírus começou de fato na China, há alguns meses.

Nas províncias que abrangem as regiões de Pequim e Xi'an, a produção total de cimento aumentou 14% entre julho e setembro, em comparação com um aumento de 3% no resto do país, sinalizando uma maior demanda por materiais de construção que estabelecem as bases para a recuperação da China, de acordo com o relatório.

Em Hebei, província do norte ao redor de Pequim, cuja produção de aço é quase três vezes maior que a de todos os Estados Unidos, a oferta do metal cresceu 3% ano a ano nos nove meses até setembro, levantando questões sobre a eficácia dos esforços do governo para reduzir a capacidade, acrescentou o relatório.

A produção de aço bruto de Hebei em agosto implica que a província tem uma capacidade total de mais de 285 milhões de toneladas por ano, muito maior que a cifra informada de 213 milhões de toneladas por ano no final de 2019, segundo o relatório. O governo ordenou que Hebei corte a capacidade para 200 milhões de toneladas por ano até o final de 2020.

A diferença entre a capacidade relatada e a produção "deixa claro que a 'contabilidade criativa' da capacidade de produção de aço atingiu uma escala que está tornando as metas de redução da capacidade completamente sem sentido", ao mesmo tempo que impede os esforços para reduzir as emissões em uma das indústrias mais poluentes da China, afirma o relatório.

O governo central tem lutado para manter o controle dos cortes de capacidade nos últimos anos, tendência agravada por algumas autoridades locais que falsificam estatísticas enquanto apoiam ilegalmente projetos de aço e fundição para se recuperarem do impacto econômico da Covid-19, de acordo com um artigo publicado no mês passado por um veículo de notícias econômicas afiliado à agência estatal Xinhua.

Os apelos do Ministério do Meio Ambiente chinês para combater a poluição do ar por meio da reestruturação econômica "se tornarão ainda mais importantes", já que o país tem como meta zero emissões líquidas de carbono até 2060, disse Lauri Myllyvirta, analista-chefe do CREA e coautor do relatório.

"O aumento contínuo da produção de aço (nas regiões do norte) tornou a melhora da qualidade do ar uma batalha difícil", disse ele por e-mail à agência Caixin. "Deixar de cumprir as metas de controle da capacidade de aço mostra os desafios de reformar este poderoso setor."

Li Shuo, um ativista do clima do Greenpeace Leste Asiático, disse à Caixin que o renascimento da indústria e da infraestrutura da China ameaçou os esforços ambientais do país. "Seria lamentável ver essa retomada interrompida ou mesmo revertida pela crise de Covid, que por natureza também decorre de problemas ambientais", disse ele.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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