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Pedro Abramovay e Heloisa Griggs

Para proteger a Amazônia, Biden deve apoiar quem vive na região, e não promover sanções

É necessária uma economia da floresta em pé e inclusiva que aproveite sua biodiversidade

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Pedro Abramovay

É ex-Secretário Nacional de Justiça e doutor em ciência política pelo Iesp-Uerj

Heloisa Griggs

É vice-diretora para América Latina e Caribe da Open Society Foundations  

O presidente eleito dos EUA, Joe Biden, quando candidato, afirmou que trabalharia com outros países para oferecer US$ 20 bilhões ao Brasil para interromper a destruição da floresta amazônica e ameaçou impor consequências econômicas graves ao Brasil se o desmatamento não fosse contido.

O plano de Biden é parte de uma das mais ambiciosas plataformas climáticas já apresentadas pelo agora presidente dos Estados Unidos.

Como brasileiros, nós concordamos com Biden que a floresta amazônica, que absorve 5% da emissão de gases do mundo todo ano e apresenta um ecossistema insubstituível, tem papel imprescindível na resolução da crise climática. Desde que assumiu em 2019, as políticas e o discurso nocivos do presidente Jair Bolsonaro sobre o desmatamento ameaçam empurrar a floresta tropical para além de um ponto crítico, podendo se transformar em extensa savana degradada.

Um plano de conservação ambiental que apenas pague ao Brasil para não desenvolver a floresta, no entanto, não irá impedir o desmatamento. O que a Amazônia e seu povo precisam é de uma economia da floresta em pé e inclusiva que aproveite a enorme biodiversidade para oferecer empregos verdes e crescimento sustentável para os 25 milhões que lá vivem.

A abordagem para a Amazônia deve se pautar na ideia de justiça climática. Ou seja: colocar a população da região no centro dos esforços –incluindo 70% dos habitantes que vivem nas cidades e os povos indígenas e tradicionais da floresta– para proteger e restaurar esse ecossistema. Essa é também a abordagem com maior probabilidade de funcionar.

É a hora de ir além da falsa dicotomia que opõe a conservação, muitas vezes negligenciando as pessoas, a uma visão de que o desmatamento é necessário para o desenvolvimento. As práticas de conservação global que veem a floresta tropical como um ambiente intocado derivam das origens do ambientalismo racista e centrado na branquitude, que ignoram ou apagam os povos negros e indígenas. A proteção da Amazônia passa por exaltar a negritude da região, até hoje invisibilizada apesar de quase 80% da população ser negra.

A Amazônia possui os piores indicadores socioeconômicos do Brasil, com sistemas de saúde insuficientes, saneamento precário e serviços públicos inadequados. Está sendo extremamente afetada pela Covid-19 –como prova a calamidade em Manaus dos últimos dias. Mas nas cidades amazônicas existe uma sociedade civil vibrante mobilizada para impedir o desmatamento e garantir políticas sociais e econômicas inclusivas.

Embora a pressão internacional possa desempenhar um papel relevante, ameaçar sanções econômicas contra o Brasil apenas fortalece Bolsonaro e seus apoiadores. Há muito se alimentam temores improváveis de que potências estrangeiras querem controlar a Amazônia. A ameaça já se espalhou pelo WhatsApp em todo o país, ao lado de teorias de conspiração sobre a interferência estrangeira, alimentada pela desinformação.

Será mais eficaz, portanto, se a gestão Biden fizer parceria com governadores e prefeitos da Amazônia, setor privado, sociedade civil e stakeholders internacionais para desenvolver uma economia justa e com foco local que acesse a enorme biodiversidade e recursos da floresta sem desmatar. Isso exigirá investimentos em tecnologias emergentes, oferecer novas habilidades e qualificação à força de trabalho e superação dos desafios logísticos na região.

Essa é a visão que tem potencial de conter o desmatamento, desenvolver uma economia florestal, defender a democracia brasileira e prevenir a catástrofe climática.

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