Economia chinesa acelera, mas consumidores ainda evitam gastar

Crescimento de 18% no PIB do país no primeiro trimestre se sustentou em exportação e infraestrutura

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Alexandra Stevenson Cao Li
Hong Kong | The New York Times

As fábricas estão funcionando, novos apartamentos estão sendo negociados e mais empregos estão à disposição. Os dados econômicos divulgados pela China mostram um notável aumento pós-pandemia.

A questão é se as pequenas empresas e os consumidores chineses podem compartilhar plenamente dessa bonança.

A China deve relatar que sua economia cresceu 18% nos primeiros três meses do ano em comparação com o mesmo período do ano anterior. Mas o crescimento é tanto um reflexo do passado –a produção do país encolheu 6,8% no primeiro trimestre de 2020 em comparação com o ano anterior– quanto é uma indicação da situação atual da China.

Há um ano, cidades inteiras foram fechadas, aviões foram estacionados e rodovias foram bloqueadas para controlar a propagação do coronavírus. Hoje, a demanda global por telas de computador e consoles de vídeo fabricados pela China está aumentando à medida que as pessoas trabalham em casa e alguns países mostram sinais de estarem se recuperando da pandemia. Essa demanda continuou com os americanos que receberam dinheiro do plano de estímulo econômico de Biden pretendendo gastar dinheiro em móveis de jardim, eletrônicos e outros bens feitos em fábricas chinesas.

A recuperação chinesa também foi impulsionada pela infraestrutura. Guindastes recriam a paisagem das cidades. Projetos de construção de rodovias e ferrovias proporcionaram empregos de curto prazo. A venda de imóveis também ajudou a fortalecer a atividade econômica.

Mas as exportações e os investimentos imobiliários podem alavancar o crescimento da China apenas até certo ponto. Agora, a China está tentando fazer com que seus consumidores retornem aos seus hábitos pré-pandêmicos, algo que outros países terão de enfrentar em breve à medida que mais vacinas forem disponibilizadas.

Espera-se que a demanda por exportações chinesas enfraqueça no final do ano. Os legisladores se moveram para conter o superaquecimento no mercado imobiliário e no setor corporativo, onde muitas empresas fizeram empréstimos além de suas possibilidades. Os economistas procuram sinais de uma recuperação mais ampla, que dependa menos das exportações e do governo e mais do consumo interno.

Três pessoas conversam em frente a um restaurante; ao lado esquerdo está uma carrocinha de algodão doce
Funcionários de um restaurante conversam com um vendedor em Pequim, China - Nicolas Asfouri 4.abr.21/AFP

A lentidão da campanha de vacinação e as memórias ainda recentes dos lockdowns deixaram muitos consumidores no país nervosos. Os restaurantes ainda estão enfrentando dificuldades para se recuperarem. Garçons, lojistas e estudantes ainda não estão prontos para gastos visando “compensar” as limitações impostas durante a pandemia, que os economistas esperam que impulsionem o crescimento. Quando ocorrem novos surtos do vírus, as autoridades chinesas são rápidas em colocar novos bloqueios, prejudicando as pequenas empresas e seus clientes.

Para evitar uma onda de surtos em fevereiro, as autoridades cancelaram os planos de viagem de milhões de trabalhadores migrantes para o feriado do Ano Novo Lunar, o maior feriado do ano na China.

“A estratégia de combate à Covid-19 da China tem sido esmagá-la quando reaparece, mas parece haver muito distanciamento social voluntário e isso está afetando os serviços”, disse Shaun Roache, economista-chefe para o leste da Ásia da S&P Global. “Isso está impedindo a normalização.”

Wu Zhen administra uma empresa familiar de 13 restaurantes e dezenas de salões de festa em Yingtan, uma cidade na província de Jiangxi, no sudeste da China. Quando a China começou a se recuperar, no ano passado, mais pessoas começaram a ir aos restaurantes para comer seus pratos favoritos, como carne de porco assada. Mas assim que ela e seus funcionários começaram a se preparar para o Ano Novo Lunar, um novo surto de Covid-19 levou as autoridades a limitar o número de pessoas com permissão para se reunir em um local fechado para 50.

“Deveria ser a melhor época do ano para o nosso negócio”, disse Wu, 33.

Este ano, Wu decidiu que fechar todo o negócio durante o feriado seria mais barato. “Se quisermos servir o jantar da véspera do Ano Novo Lunar, o preço da mão de obra é três vezes maior do que o normal. Economizamos mais apenas fechando as portas e o negócio”, disse ela. Será o segundo ano consecutivo que os restaurantes fecham as portas durante o feriado.

Wu herdou o negócio de seu pai há dois anos e emprega mais de 800 pessoas. Antes da pandemia, três quartos da receita do negócio vinham de grandes banquetes para casamentos e reuniões familiares. Ela disse que os negócios ainda não voltaram ao normal após meses de redução das restrições ao víru.

Os contratempos enfrentados por proprietários de pequenas empresas como Wu também estão afetando consumidores regulares, que estão preocupados com a abertura de suas carteiras. De acordo com Zhaopin, a maior plataforma de recrutamento de empregos da China, há mais empregos disponíveis em hotéis e restaurantes, serviços de entretenimento e imóveis do que há um ano, mas as famílias ainda estão cautelosas quanto aos gastos.

As famílias continuam a economizar mais do que antes da pandemia, algo que preocupa economistas como Louis Kuijs, chefe de economia asiática da Oxford Economics. Kuijs está olhando para as economias das famílias como uma indicação de se os consumidores chineses estão prontos para começar a gastar dinheiro depois de meses presos em casa.

Muitas famílias contraíram dívidas no ano passado, pois fizeram empréstimos para comprar propriedades e cobrir despesas durante a pandemia. A China ainda carece em grande parte do tipo de rede de segurança social que muitos países ricos oferecem, e algumas famílias precisam economizar para assistência médica e outros custo.

Ao contrário de grande parte do mundo desenvolvido, a China não subsidia seus consumidores. Em vez de distribuir cheques para impulsionar a economia no ano passado, a China ordenou que bancos estatais emprestassem para empresas e ofereceu reduções de impostos.

Traduzido originalmento do inglês por Emannuel Gonçalves

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