Lucro dos bancos cai 26% em 2020 com pandemia, diz Banco Central

Autoridade monetária espera que rentabilidade das instituições financeiras se recupere este ano

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Brasília

A pandemia de Covid-19 afetou o sistema financeiro e provocou queda de 26% no lucro dos bancos em 2020, com relação ao ano anterior, segundo relatório publicado pelo BC (Banco Central) nesta terça-feira (27).

Os bancos embolsaram R$ 88,6 bilhões em 2020, contra R$ 119,7 bilhões em 2019, diferença de R$ 31,1 bilhões.

De acordo com o documento, contudo, o impacto na rentabilidade das instituições financeiras não gerou riscos relevantes para a estabilidade do segmento.

"A crise sanitária afetou a rentabilidade dos bancos em 2020, porém sem acarretar riscos relevantes para aestabilidade financeira. A pandemia interrompeu a recuperação da rentabilidade que vinha ocorrendo desde 2015-2016", diz o estudo.

O presidente do Banco Central do Brasil, Roberto Campos Neto - Pedro Ladeira - 12.mar.21/Folhapress

Segundo o BC, embora ainda haja incertezas sobre a evolução da pandemia, a tendência é que o lucro dos bancos cresça em 2021.

"O elevado nível de provisões [reserva em caixa] e a retomada da atividade econômica são os principais pilares para a recuperação da rentabilidade dos bancos em 2021. A alta das provisões em 2020 reduz a necessidade de novas constituições relevantes, e a melhora da economia contribui para o crescimento e para a qualidade do crédito, além de favorecer a demanda por serviços bancários", afirma o relatório.

"A pandemia continua sendo o maior risco para a recuperação da rentabilidade em 2021, pois pode atrasar a retomada da atividade econômica e aumentar a necessidade de novas provisões para perdas com crédito", continuou.

De acordo com o texto, o principal motivo para o recuo do lucro dos bancos foi a maior necessidade de provisionamento para cobrir eventuais perdas. As despesas com provisões somaram R$ 111,2 bilhões em 2020, alta de 30% em relação ao ano anterior.

Provisão é o valor que o banco deve manter em caixa para assegurar as operações de crédito. Se o risco de calote é maior, a instituição precisa provisionar mais.

"Apesar da incerteza sobre o prolongamento da pandemia e seus efeitos na qualidade do crédito, o BC estima que as provisões atuais são suficientes para fazer frente às perdas esperadas. A constituição de provisões deve voltar aos níveis anteriores à pandemia, e esse deve ser o principal determinante da melhora da rentabilidade dos bancos em 2021", projeta o documento.

Para o diretor de Fiscalização do BC, Paulo Souza, é possível que o sistema financeiro retorne, neste ano, aos níveis de lucro observados antes da crise.

"No ano passado não tínhamos previsibilidade alguma de quando a pandemia acabaria, então era difícil mensurar os danos. A queda na rentabilidade foi fruto de maior esforço em provisionamento, que não deve se repetir em 2021", afirmou.

"No nosso cenário básico, a expectativa é que o lucro volte ao que era em 2018 e 2019, na faixa de R$ 120 bilhões e aumento de capital entre 15% e 16%, especialmente com o avanço da vacinação", completou.

A margem de lucro das operações de crédito também se reduziram em 2020 e, segundo o BC, podem ficar sob pressão no curto prazo com novas altas da taxa básica de juros (Selic).

O retorno do crédito caiu 2,2 pontos percentuais, acima da queda do custo de captação dos bancos, que foi de 1,96 ponto no período, o que pressionou a margem. Além disso, o crescimento dos empréstimos no ano se deu em modalidades mais baratas, com menor retorno.

A autarquia fez um levantamento com o fluxo de transações de pagamentos e transferências e houve aumento de recebimentos em quase todos os segmentos do setor real desde o início da pandemia.

No primeiro trimestre do ano, entre micro, pequenas e médias empresas, apenas o setor de mídia e lazer teve queda de 1%.

"Esses fluxos tiveram forte recuperação a partir de junho do ano passado, mas arrefeceram em março com a segunda onda [da pandemia] e na primeira quinzena de abril, segundo conversas com representantes do mercado", disse o diretor.

Souza destacou que o crédito para as famílias voltou a crescer em ritmo semelhante ao anterior à crise. "Especialmente no financiamento imobiliário, com as taxas de juros mais baixas e a indexação em outros indicadores [novas linhas]."

O diretor afirmou que dificilmente a inadimplência chegará perto de 4%, conforme previsão divulgada no relatório anterior, patamar semelhante ao pico da série histórica.

"Dado o comportamento atual do mercado de crédito acho muito pouco provável atingir esse nível. A queda do PIB [Produto Interno Bruto] foi bem inferior do que se projetava e o crescimento se manteve no início do ano, em janeiro e fevereiro. As condições de crédito muito estão favoráveis", avaliou.

O BC destaca ainda o aumento da concorrência e da inovação no sistema financeiro, como o lançamento do Pix, sistema de pagamentos instantâneos e o open banking, que "devem trazer desafios e oportunidades para as receitas de serviços nos próximos anos".

O open banking começou a ser implementado no início do ano e abre caminho para que o consumidor compartilhe seus dados e tenha acesso a propostas mais vantajosas de crédito e produtos financeiros fora do banco com o qual tem relacionamento.

"Por um lado, o maior incentivo à competição pode afetar as rendas no curto prazo. Por outro, surgem novas oportunidades de fidelização dos clientes, de prestação de novos serviços, de parcerias com fintechs e instituições de pagamento e de reduções de custos", ressalta o texto.

O Pix, por exemplo, deve impactar as rendas de transferências das IFs [instituições financeiras] e poderá afetar outras rendas de serviços à medida que seu uso se intensificar, mas tende a reduzir custos das IFs com meio circulante e com formas de pagamentos mais custosas", pondera o relatório.

A autarquia também considera que os canais de atendimento digitais devem contribuir para melhorar a eficiência do sistema financeiro no médio prazo.

"O número de agências e de funcionários do sistema bancário continuou em queda em 2020. Essa tendênciadeve continuar nos próximos anos com o uso crescente de canais de atendimento digitais pelas instituições e seus clientes. A pandemia da Covid-19 tem sido um catalizador desse processo. A migração para os canais digitais deve inicialmente demandar maiores investimentos em tecnologia para, no futuro, reduzir custos e aumentar a eficiência operacional das IFs", pontua.

Souza disse acreditar que o advento de inovações no mercado financeiro deve trazer mais ganhos que perda aos bancos.

"Com o Pix, por exemplo, as instituições terão impacto nas despesas na implementação de tecnologias e nas receitas com transações, mas terão redução de outros custos, como manutenção de agências e despesas com numerário. Particularmente acredito que terão redução maior nas despesas que queda nas receitas", ponderou o diretor.

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