Saída de empresas revela dificuldades estruturais para Brasil crescer, dizem analistas

Indicador mostra piora do Brasil em relação a outros emergentes nos últimos anos; para economistas, pandemia agrava cenário

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São Paulo

A saída recente de grandes multinacionais do Brasil sinaliza a deterioração do cenário econômico local para os próximos anos —e mais empresas podem desistir do país, segundo economistas ouvidos pela Folha.

Entre o ano passado e este, chamam a atenção desistências de peso. A montadora americana Ford, há mais de cem anos no Brasil, preferiu sair daqui e manter a fábrica na Argentina na reestruturação global que está promovendo. A espanhola Cabify desistiu do país alegando que a crise dificulta o avanço do serviço de carona.

A cimenteira franco-suíça LafargeHolcim, a maior do ramo no mundo, também preferiu partir, apesar de haver prognósticos positivos para a construção no Brasil. A nipônica Sony decidiu não mais fabricar ou mesmo vender no país TVs, equipamentos de áudio e câmeras, abandonando a Zona Franca de Manaus, polo que garante isenções tributárias.

Foram-se também a farmacêutica suíça Roche e o laboratório americano Eli Lilly. A varejista francesa L'Occitane fechou lojas no país, e a americana Walmart, maior rede de varejo do mundo, repassou os ativos no país.

Economistas e analistas ainda tentam traduzir o movimento de saída em áreas tão distintas quando a tendência apontava o contrário: excesso de capital no mundo e juros ainda muito baixos deveriam atrair investidores para um um país emergente do porte do Brasil. A cada partida, muitos ponderaram que sempre é preciso considerar a situação particular de cada empresa e que o Brasil seria até uma vítima circunstancial da pandemia.

O ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles, atualmente secretário estadual da Fazenda e do Planejamento em São Paulo, diz que isso precisa ser levado em consideração, mas afirma que a equação para uma tomada de uma decisão tão radical quanto deixar um país é muito mais complexa.

Ford decidiu, sim, parar de produzir alguns modelos e as linhas eram brasileiras. LafargeHolcim quer vender ativos para pagar dívidas. Mas Meirelles lembra que decisões de negócios também consideram o potencial de retorno de mercado em cada país. Nesse critério, o Brasil não está em seu melhor momento e, pior, não há sinais visíveis de melhoras radicais.

"A empresa tem de enxergar uma expansão de vendas, e para que isso ocorra o país precisa crescer, e o governo precisa divulgar suas oportunidades lá fora", afirma.

"Não temos uma boa história para contar ao investidor, com bons números, e para o país voltar a crescer é preciso obedecer o teto de gastos, ter um discurso que inspire confiança, além de vacinar a população."

Os grandes números também sinalizam desânimo com o Brasil. A recessão global freou o investimento direto estrangeiro no país no ano passado e estimulou a repatriação de capitais pelas empresas transnacionais brasileiras. A entrada líquida de investimento estrangeiro direto no país no ano passado teve uma queda de 50,6% ante 2019, lembra Rafael Cagnin, economista-chefe do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial).

Em março, o investimento estrangeiro cresceu 17% em relação a fevereiro, de acordo com o Banco Central. Mas o economista do Iedi não vê uma retomada de longo prazo. Avalia que a desvalorização do real e o barateamento dos ativos brasileiros tendem a gerar um soluço.

"Podemos até atrair investimentos em commodities e em setores de infraestrutura, mas as deficiências vão continuar em muitas outras áreas", afirma.

Cagnin reforça que a pandemia, de fato, agrava o momento atual, mas reforça que os problemas que assustam investidores são anteriores ao coronavírus. Do ponto de vista do PIB (Produto Interno Bruto), o Brasil não cresce, de fato, desde 2014, afirma ele, e a má gestão da pandemia coloca a economia sob mais incertezas.

"O Brasil dá sinais de crescimento pífio, com muitos problemas sociais agravados pela pandemia", diz. De 2017 a 2019, por exemplo, o país teve média anual de crescimento de 1,5%.

"A gente não tem uma melhora de performance do ponto de vista sanitário, de como gerir e lidar com o surto de Covid-19. Não fizemos lockdowns adequados, vivemos de abre e fecha, temos uma vacinação lenta e cheia de erros, além de desemprego", afirma.

"O governo poderia ajudar a reduzir graus de incerteza, mas não faz isso."

Cagnin lembra que várias das empresas que deixaram o Brasil estão diante de um choque de novas tecnologias e são obrigadas a se transformar. Elas precisam de locais mais estruturados para promover seus avanços. Países com vacinação mais eficiente, que oferecem pacotes de recuperação baseados em economia verde, caso dos Estados Unidos, são muito mais atraentes.

Nesta altura, também ficou claro que a recessão seguida pela pandemia e a desorganização nos planos de socorro aos mais pobres e trabalhadores informais atingiu em cheio um dos maiores trunfos do país: o aumento do poder de consumo das classes mais pobres.

Reportagem recente da Folha apontou que a classe C (cuja renda mensal é de R$ 1.926 a R$ 8.303), um fenômeno do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, teve uma queda brutal na renda. Segundo a FGV Social, quase 32 milhões deixaram essa faixa desde agosto do ano passado, ápice do pagamento do auxílio emergencial pelo governo de Jair Bolsonaro, para uma vida mais dura nas classes D (com renda de R$ 1.205 a R$ 1.926) e Classe E (até R$ 1.205).

Um outro indicador reforça essa percepção de que o Brasil não consegue sustentar um desenvolvimento robusto que justifique o investimento estrangeiro. Nesse contexto de descontrole da pandemia e de falta de vacinas, que adiam a recuperação da economia, o Brasil é antepenúltimo (ou o terceiro pior) emergente em um ranking de vulnerabilidade macroeconômica elaborado pela consultoria MB Associados.

O ranking contrapõe indicadores como crescimento do PIB, inflação, desemprego e dívida bruta do governo. Nessa associação, a economia brasileira é considerada como tendo 62% de vulnerabilidade (sendo quanto mais alto, pior). Na comparação com 18 outros países, o Brasil só é considerado menos vulnerável do que Argentina (74%) e África do Sul (67%).

Segundo o economista-chefe da MB, Sergio Vale, enquanto a parte da economia ligada às matérias-primas vai bem, com alta de preços dos produtos básicos que o Brasil produz e exporta, a projeção de baixo crescimento este ano e a perda de interesse político por reformas estruturais tendem a reduzir o apetite do investidor estrangeiro pelo país, no médio e longo prazos.

O Brasil também tem as piores notas nos indicadores fiscais e de poupança e investimento, enquanto crescem indicadores negativos, como inflação. Na comparação com o ranking da MB de 2010, quando o país vinha de um ciclo de forte de crescimento e indicadores macroeconômicos mais promissores, o Brasil caiu duas posições.

"A pandemia e o ritmo irregular de recuperação dos países, sem dúvida, é um fator relevante. Mas o Brasil está perdendo empresas por sua própria culpa", diz. O economista explica que as empresas estão contabilizando os crescentes riscos da instabilidade fiscal e os baixos desempenhos na taxa de poupança e de investimento, que apontam para um potencial de crescimento muito baixo. Assim, acabam optando por investir em outros lugares. ​

Além disso, ele ressalta que após forte expansão nos governos Fernando Henrique Cardoso e Lula, a última década foi perdida na economia. Para agravar, também foi de baixa inserção do Brasil no mercado global. "O Brasil está estagnado há dez anos no Índice de Globalização."

Na avaliação de Vale, enquanto esse conjunto negativo macroeconômico e institucional perdurar, o Brasil seguirá pouco atraente, e a expectativa é que mais empresas se afastem.

"É preciso controlar a questão fiscal, para tranquilizar os juros futuros e abrir espaço para investimentos", afirma. Em março, a dívida bruta estava em 89,1% do PIB. Para o ano que vem, a estimativa da MB é que ela aumente para 92,1%.


ADEUS, BRAZIL

  • Ford: A montadora decidiu encerrar produção e fechar três fábricas. Em comunicado, a empresa anunciou que a decisão fazia parte de uma reestruturação global.
  • Mercedes-Benz: A empresa anunciou que deixaria de produzir carros em Iracemápolis (SP), pela situação do mercado, mas manteve produção de caminhões e chassis de ônibus.
  • Sony: Fabricante de eletrônicos anunciou que deixaria de fabricar e vender TVs, equipamentos de áudio e câmeras, devido ao cenário desafiador do mercado brasileiro.
  • Cabify: Em comunicado, a companhia afirmou que, após análise do mercado, tomou a decisão de encerrar o serviço e que o Brasil segue muito afetado pela crise sanitária.​
  • LafargeHolcim: A fabricante de cimento franco-suíça deve concentrar atividades na Europa. Incertezas e dólar podem ter pesado contra permanência da cimenteira no Brasil.
  • LG: O fechamento da fábrica de celulares da LG no Brasil coloca em risco 830 empregos diretos. A empresa anunciou que irá encerrar até o fim de julho seus negócios em telefonia móvel no mundo.
  • Roche: A farmacêutica suíça anunciou que encerraria a produção de medicamentos no Brasil, com o fechamento futuro da fábrica de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.
  • Forever 21: A varejista anunciou que fecharia as 11 lojas nos shoppings da rede Multiplan, em SP, DF e RS, entre outras. A empresa não conseguiu chegar a um acordo na negociação de aluguel.
  • Audi: A montadora anunciou que deixaria de produzir o modelo A3 no Paraná. A empresa também cobra do governo estadual créditos de tributos do programa Inovar-Auto.
  • Wendy’s: Após três anos de atividade no país, a hamburgueria fechou as unidades brasileiras. A lanchonete, famosa pelos lanches quadrados, chegou a ter cinco lojas em São Paulo.
  • Glovo: A empresa de entregas, concorrente de iFood e Rappi, anunciou em 2019 que encerraria suas atividades no Brasil. Em comunicado, a empresa alegou dificuldades pela alta competitividade, o que demandaria mais investimentos.
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