'Startups devem tirar o olhar da pandemia para ver o futuro', diz diretor da Y Combinator

Michael Seibel, sócio da aceleradora, recomenda que empreendedores mirem as necessidades de daqui dez anos

São Paulo

É preciso desviar os olhos do agora, evitando criar soluções para questões ligadas à pandemia, e passar a pensar naquilo de que o mundo vai precisar daqui a dez anos.

Essa é a recomendação que Michael Seibel, sócio e diretor-executivo da Y Combinator, uma das maiores aceleradoras de startups do Vale do Silício, dá para os que estão desenvolvendo e lançando suas empresas no mercado atual.

"Com muita frequência, fundadores se enganam e tentam reagir aos eventos presentes sem pensar no que poderá acontecer depois", diz Seibel, que é cofundador das startups Justin.tv (hoje Twitch.tv) e Socialcam.

A YC, como a aceleradora também é chamada, ajudou a lançar no mercado gigantes como Airbnb, Dropbox e a colombiana Rappi.

Michael sorri para a câmera e veste camisa azul
Michael Seibel, diretor-executivo da aceleradora americana Y Combinator - Divulgação

Neste ano, realizou pela primeira vez uma rodada de entrevistas no Brasil com fundadores de startups interessados em participar do processo de aceleração.

O empresário é um dos palestrantes da conferência online e gratuita realizada pela brasileira StartSe ao longo do mês de outubro, com foco no Vale do Silício (inscrições pelo link startse.com/svwc).

Nesta entrevista, Seibel fala sobre as oportunidades e desafios das startups de todo o mundo em meio ao contexto de pandemia e crise.

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Existem ingredientes obrigatórios para criar uma startup bem-sucedida? A melhor citação que ouvi sobre isso é que todo negócio bem-sucedido é um pouco único. A pessoa faz algo um pouco diferente, que se alinha no lugar e momento exatos. Não se pode olhar para as startups como uma ciência porque não dá para repetir experimentos.

Na YC, muito do que tentamos fazer é ajudar os empreendedores a evitar o caminho do fracasso óbvio. Se você conseguir contornar durante o tempo necessário os erros comuns, talvez encontre seu caminho único para ser bem-sucedido.

Quais são os maiores desafios para quem está começando agora? O maior deles é tentar não criar um produto voltado para o momento atual. Felizmente, não vamos conviver com o coronavírus pelos próximos dez anos. É preciso pensar naquilo de que o mundo vai precisar no futuro.

Com muita frequência, fundadores se enganam e tentam reagir aos eventos presentes sem pensar no que poderá acontecer depois.

É possível prever algumas dessas tendências? Como selecionar startups com base nesse olhar sobre o futuro? Na YC, não entramos com alguma tese formada sobre como o mundo será daqui a dez anos. Acreditamos que os empreendedores vão criar esse futuro. Queremos ouvir a opinião deles.

Então, o que procuramos? Em primeiro lugar, se a equipe é técnica e tem as habilidades necessárias para desenvolver o produto. Em segundo, vemos a relação entre os cofundadores. Eles se conhecem pessoalmente e profissionalmente, têm uma relação que os levará a se apoiarem em meio à dificuldade de se criar uma startup?

A terceira coisa que analisamos é o progresso ao longo do tempo. Nos orientamos na direção de empreendedores que criam, lançam e aprendem, em vez dos que passam tempo demais planejando.

O quarto ponto é quão bem eles comunicam suas ideias. Um fundador tem que recrutar, vender e motivar pessoas. O truque é saber se comunicar de forma clara e concisa, com uma linguagem que vai impactar o público.

O quinto e último quesito é descobrir se esses empreendedores sabem algo que os outros não sabem. Aqueles que trabalharam com um determinado problema em sua comunidade costumam ter muito mais visão criativa para chegar a uma solução.

A pandemia afetou a forma como a aceleradora opera? Deixamos de ter uma seleção presencial e passamos a atuar online. O resultado foi extremamente positivo. Estamos no mercado há 15 anos, e a possibilidade de trabalhar remotamente nos permitiu repensar muitas coisas que continuávamos fazendo só porque já fazíamos assim antes.

Claro que isso também tornou a aceleradora mais acessível a empreendedores internacionais, que não precisam mais ir até San Francisco.

Mudar para o trabalho remoto aumentou significativamente o tempo que passamos com eles. São 15% de horas a mais para orientação do que normalmente.

Muito do que estamos aprendendo neste tempo de pandemia devemos incorporar quanto tudo isso acabar.

O que você aprendeu após trabalhar tanto tempo com startups? Que as pessoas julgam empresas muito cedo. Numa seleção típica para a YC, há de 12 a 15 mil candidatos. Só 200 conseguem entrar. Pensar que é possível distinguir rapidamente as 200 melhores entre 12 mil é muito complicado.

O que tem sido mais surpreendente e inspirador para mim são startups que não entram no primeiro ou segundo ano, mas, apesar de todo mundo tê-las descartado, acabam conseguindo.

As pessoas conhecem as companhias famosas aceleradas pela YC, mas não sabem quanto tempo elas levaram para chegar lá.

Vocês encontram diferenças entre candidaturas vindas de países desenvolvidos e emergentes? Tivemos que financiar startups de pagamentos online em pelo menos dez países emergentes, onde esse tipo de serviço essencial nem sempre estava disponível. Isso porque, se as startups não conseguem fazer ou receber pagamentos online, fica difícil que sejam bem-sucedidas.

Fora isso, é muito difícil dizer que tal país tem tais tipos de produtos, não funciona desse jeito.

Um desafio que empresas internacionais enfrentam em seus países é o financiamento. Já no Vale do Silício, muitas vezes, empreendedores têm uma vantagem, porque grandes investidores já disseram "não" a negócios bilionários e agora ficam com medo de perder a oportunidade de apostar numa startup que pode ser o próximo Facebook ou YouTube.

Muitos me perguntam por que não criamos programas em outras partes do mundo. A resposta é que o Vale tem essa coisa única, e optamos por dar acesso a ele para que fundadores do mundo todo desenvolvam suas empresas.

Que temas vai abordar na sua palestra? Há cinco pontos que considero valiosos para startups. O primeiro é que o empreendedor não deve esperar criar um produto perfeito para só depois lançá-lo no mercado. O segundo é que ele deve fazer as coisas de forma manual e humana em áreas como atendimento ao cliente e oferta de produtos.

O terceiro é desenvolver soluções 90/10, ou seja, que ajudem a conseguir 90% do que se quer fazendo 10% do trabalho técnico. O quarto ponto é: melhor conseguir 10 clientes que amem seu produto do que 100 que gostem dele. E, por último, o empresário deve apoiar a comunidade de startups, encorajando funcionários que queiram empreender.

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​Michael Seibel, 37

É sócio e diretor-executivo da Y Combinator, uma das maiores aceleradoras de startups do Vale do Silício. Foi cofundador da startup Justin.tv, que se tornou Twitch.tv e foi vendida à Amazon em 2014, e da Socialcam, comprada pela a Autodesk em 2012. Antes de trabalhar com startups, passou um ano como diretor financeiro de uma campanha para o Senado dos EUA. É formado pela Universidade Yale, com bacharelado em ciências políticas

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