Merkel e sociais-democratas chegam a acordo na Alemanha

Mais de quatro meses após eleição, siglas confirmam coalizão para novo governo

Diogo Bercito
Madri

Mais de quatro meses após as eleições, a chanceler alemã, Angela Merkel, chegou a um acordo para formar uma coalizão. A parceria será travada entre seu partido CDU (União Democrata-Cristã) e o rival SPD (Partido Social-Democrata). Participará ainda a CSU (União Social-Cristã), aliada de Merkel na Baviera.

O acordo foi noticiado pela imprensa local e em seguida a liderança do SPD confirmou os avanços em uma mensagem enviada a seus membros via Whatsapp: "Cansados, mas satisfeitos". As negociações se arrastaram noite adentro, após uma maratona de conversas entre os representantes dos partidos.

O acordo —em que Merkel fez importantes concessões— é um importante passo rumo à formação de um governo na maior economia europeia, após uma espera considerada longa demais por outros dos líderes do continente. O presidente francês, Emmanuel Macron, afinal depende de Berlim para implementar as reformas que prometeu à União Europeia.

A chanceler alemã Angela Merkel deixa a sede da CDU em Berlin pouco após o acordo ser feito
A chanceler alemã Angela Merkel deixa a sede da CDU em Berlin pouco após o acordo ser feito - Bernd von Jutrczenka/dpa/AFP

A última etapa para haver um novo governo na Alemanha deve ser a aprovação dessa parceria pelos mais de 460 mil membros do SPD, que votam por correio nas próximas semanas. Se receber o aval, o novo governo pode ser inaugurado até abril. No meio-tempo, o gabinete atual segue com plenos poderes, sem restrições.

CDU e SPD governam juntos desde 2013, mas a aliança incomodou parte do eleitor social-democrata, contribuindo a seu resultado historicamente ruim no pleito de 24 de setembro —seu pior desde a Segunda Guerra (1939-1945). O SPD teve 20,5% dos votos, contra os 32,9% da CDU. O partido ultranacionalista de direita AfD (Alternativa para a Alemanha) recebeu 12,6%.

Com um acordo entre CDU e SPD, a AfD será o principal partido da oposição, um cenário que preocupa parte do país. A ala jovem do SPD chegou a pedir o boicote da coalizão para garantir que os social-democratas fossem a maior sigla de oposição no Parlamento.

CARGOS

O acordo entre CDU, CSU e SPD provavelmente significa que Merkel continuará no cargo de chanceler. Sua permanência era dada como certa até as eleições, mas as duras negociações danificaram a sua reputação. Ela governa a Alemanha há 12 anos.

O custo para o tratado pode ter sido alto: diversos dos cargos de alto escalão do governo devem ir para o rival SPD. O líder social-democrata, Martin Schulz, deve ser o próximo ministro das Relações Exteriores, por exemplo, e o partido acumulará também as pastas das Finanças e do Trabalho.

A CDU, por sua vez, manterá Defesa, Economia e a própria chancelaria, enquanto a CSU ficará com o Interior. "Foi um processo doloroso", disse Merkel na terça-feira (6), sobre a dificuldade das negociações. Já Schulz afirmou que o acordo marca "uma mudança fundamental de direção na Europa".

"A CDU não gostaria de ter cedido tanto, e seguramente deu mais do que queria", disse à Folha Patricia  Hogwood, especialista em política europeia na Universidade de Westminster (Reino Unido). "Mas foi um risco calculado e é menor do que parece. Se olharmos para as políticas descritas no acordo, veremos que a CDU conseguiu impor a maior parte de suas preferências."

Os partidos negociaram afinal, além dos ministérios, a plataforma política dos próximos anos. Eles concordaram em endurecer o controle à exportação de armas, por exemplo, excluindo os países compradores que participam da guerra no Iêmen, como a Arábia Saudita.

CDU e SPD também se comprometeram a limitar em 1.000 o número de refugiados entrando por mês na Alemanha para se reunir com familiares residindo ali. Esse foi um dos pontos duros das negociações, assim como a proibição de um pesticida considerado danoso à população de insetos na Europa —essa última medida era uma reivindicação dos social-democratas.

O acordo está descrito em um documento de 167 páginas e 14 capítulos, detalhando o programa para os próximos quatro anos. Um dos fios condutores da política acordada entre CDU, CSU e SPD é fortalecer a Europa, em uma parceria com a vizinha França.

O tom pró-Europa  explica a aparente nomeação do social-democrata Schulz para ministro das Relações Exteriores, e há relação também com o fato de que a SPD acumulou a pasta das Finanças —uma posição fundamental nas negociações com os aliados europeus.

 

PRINCIPAIS PONTOS

  • Aumentar a taxação de grandes empresas, principalmente as de internet como Google, Apple, Facebook e Amazon
  • Transformar o fundo de resgate da zona do euro em um Fundo Monetário Europeu
  • Limitar a entrada de refugiados a entre 180 mil e 220 mil por ano e as reunificações familiares a mil por mês
  • Criar o cargo federal de comissário para o antissemitismo
  • Abolir gradualmente a taxa de solidariedade, que apoia os Estados alemães mais pobres
  • Tornar a Alemanha mais atrativa para instituições financeiras
  • Apoiar a integração dos Bálcãs à UE
  • Apoiar a criação de um 'Plano Marshall' para a África
Erramos: o texto foi alterado

A lista dos principais pontos do acordo entre os partidos alemães afirmava incorretamente que as reunificações familiares seriam limitadas a mil por ano; na verdade, serão limitadas a mil por mês. O texto foi corrigido.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.