Tiroteios nos EUA provocam trauma mental duradouro

Pesquisa em palco de massacres revela estresse pós-traumático em 50% dos alunos 

Estelita Hass Carazzai
Washington

Austin Eubanks tinha 17 anos quando sobreviveu a um dos mais violentos tiroteios em massa dos Estados Unidos, na escola de Columbine, no Colorado, em 1999.

Escondido atrás de uma mesa, ele viu seu melhor amigo ser assassinado. Para sobreviver, fingiu-se de morto em meio a uma poça de sangue, após levar dois tiros.

Um ano depois, Eubanks estava viciado em opioides, viu seu desempenho escolar cair e só conseguiu escapar do vício depois de passar um ano em uma clínica de reabilitação, aos 30 anos.

Vigília em homenagem a vítimas de massacre em Parkland, na Flórida
Vigília em homenagem a vítimas de massacre em Parkland, na Flórida - Monica McGivern/Xinhua

Tiroteios em massa em escolas americanas, como o ocorrido na Flórida nesta semana e que somam pelo menos 44 episódios nos EUA desde 1994, deixam efeitos perceptíveis no desempenho escolar e na saúde mental de milhares de alunos, segundo estudos acadêmicos realizados no país --além de outros ainda desconhecidos em longo prazo, como demonstra a história de Eubanks.

Dados de 157 escolas de ensino médio nos EUA que enfrentaram um tiroteio entre 1994 e 2009, colhidos pelo pesquisador Louis-Phillippe Beland, da Universidade da Louisiana, demonstram que o desempenho geral dos estudantes em testes de matemática e inglês caiu entre 4% e 5% após o episódio --atingindo seus menores níveis três anos depois do ocorrido.

Nada semelhante foi registrado nas outras 1.159 escolas analisadas por Beland onde não houve episódios de violência. "São efeitos claramente perceptíveis, aplicáveis às escolas como um todo, e num curto prazo", afirmou o pesquisador à Folha.

Os efeitos no desempenho escolar são mais pronunciáveis em escolas localizadas em áreas de baixa criminalidade, ou com maior taxa de pobreza --o que sugere, segundo Beland, que colégios com mais recursos podem ter melhores condições de lidar com as consequências.

Entrevistas com sobreviventes de massacres trazem resultados ainda mais impressionantes, que indicam quadros de transtorno de estresse pós-traumático em até metade dos alunos, apontou uma pesquisa feita com sobreviventes de um tiroteio num colégio da Finlândia, dez anos atrás.

Na Universidade Virginia  Tech, onde 32 estudantes foram mortos por um colega em 2007, um levantamento com 4.000 alunos, quatro meses depois do massacre, informou que 15% deles tinham "altos níveis de estresse pós-traumático" --mesmo entre aqueles que não haviam presenciado as cenas.

 

Enfrentamento

O investimento em saúde mental, por meio de conselheiros e psicólogos, é apontado como crucial para combater os efeitos.

Alguns pesquisadores, porém, se dedicam a identificar as possibilidades de prevenção desses episódios.

"Nós estamos ficando entorpecidos, criando protocolos de emergência e formas de responder aos tiroteios, mas não estamos agindo de forma preventiva", disse à Folha a professora Sarah  Goodrum, da Universidade do Norte do Colorado.

Especialista em criminologia, ela pesquisa como identificar estudantes de risco como o ex-aluno Nikolas Cruz, 19, atirador da Flórida e cujo comportamento havia sido denunciado ao FBI.

Goodrum defende que as escolas atuem em parceria com autoridades policiais e reportem atitudes suspeitas.

É algo delicado, que corre o risco de rotular o aluno, mas os tiroteios viraram um problema recorrente nos EUA. Precisamos achar um jeito de evitar isso.

 

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