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Mais fotos animadoras virão, mas dúvida sobre paz entre as Coreias persiste

Aproximação dos anos 2000 foi semelhante, e acabou porque Norte precisava das armas nucleares

Igor Gielow
São Paulo

É indiscutível que as fotografias desta sexta (27) vão entrar para o escaninho de “históricas” na relação entre as duas metades da fraturada península coreana. Mas as dúvidas práticas além de palavras animadoras vindas de um ditador cruel e sorridente jogam sombras sobre a luminosidade dos eventos na fronteira.

Em 1998, quatro anos após a morte do fundador da Coreia do Norte, Kim il-Sung, o Sul promoveu uma política de aproximação muito parecida com a tocada pelo atual presidente em Seul, Moon Jae-in. Famílias separadas pela guerra de 1950-53 puderam se ver, e pela primeira vez líderes dos dois países se encontraram e trocaram juras de cooperação, em cúpulas ocorridas em 2000 e 2007 —ambas em Pyongyang, capital do Norte. Ao mesmo tempo, fracassava uma tentativa de eliminar as armas nucleares da ditadura comunista patrocinada pelo governo de Bill Clinton nos EUA, após alguns anos de declarações mútuas de boa vontade.

O simbolismo do encontro entre Kim Jong-un e Moon na fronteira, mais a promessa de desnuclearização da península, sinalizam um otimismo maior desta vez, mas a cautela é necessária. Será preciso ver exatamente o que a Coreia do Norte irá oferecer na ainda mais midiática cúpula entre Kim e o americano Donald Trump, e entender se a China de fato participará das negociações para tornar o cessar-fogo de 1953 num acordo de paz.

Para Pequim, que substituiu Moscou como patrona do regime de Pyongyang depois da Guerra Fria, a existência da ditadura separando suas fronteiras de 30 mil soldados americanos baseados no Sul sempre foi bastante cômoda. No último ano, pressionada por Trump e sua retórica belicosa exacerbada, a China exerceu um grau maior de garroteamento econômico do Norte, mas a um nível muito difícil de ser aferido no Ocidente.

É bastante discutível se os chineses irão permitir uma reaproximação total entre as duas Coreias sem alguma garantia de que os EUA retirarão suas tropas do Sul, condição que Seul afirma não ter sido colocada desta vez por Pyongyang como premissa para o fim das armas nucleares da ditadura dinástica de Kim. Washington, por sua vez, também não pretende ver os coreanos decidindo sua vida sozinhos, afastados de seus desígnios, pelo mesmo motivo: o entulho do século 20 representado pela ditadura norte-coreana é a desculpa perfeita para manter sua posição estratégica numa Ásia cada vez mais dominada por Pequim.

Isso explica a reação inusualmente comedida de Trump em seus primeiros tuítes sobre os desenvolvimentos coreanos. Ele poderá dizer internamente que sua ameaça concreta de ir à guerra contra Pyongyang, algo que se tornou assustadoramente provável ao longo de 2017, funcionou e acabou por promover a paz. De fato, foi um fator central para o que aconteceu nesta sexta. Mas há limites para tanto, e o diabo mora nos detalhes.

O principal dele é a posição de força inédita que Kim adquiriu desde o ano passado. A aceleração de seu programa de mísseis e armas nucleares lhe pagou dividendos que seu pai e avô nunca sonhariam: o tornou um líder cortejado para sentar à mesa com os adversários. Os sinais exteriores indicam que com isso ele pôde abandonar aquilo que o analista geopolítico americano George Friedman chama de “estratégia feroz, fraca e maluca” que caracterizou a política externa dos comunistas do Norte.

Feroz por militarista e, assim, ameaçadora para o Sul e para o Japão sob mira de armas nucleares. Fraca porque a Coreia do Norte é um país miserável e, com isso, alimentava sonhos nos EUA de que seu regime cairia de podre. E maluca porque parecia disposta a fazer, bem, maluquices como atacar os vizinhos ou os americanos.

Deu certo até aqui. Mas a normalização de Kim como um ditador palatável traz um certo paradoxo. É uma vitória estratégica, mas ao mesmo tempo pode expor todas as fragilidades de seu jugo férreo sobre a Coreia do Norte. Há poucas dúvidas que quanto mais houver intercâmbio entre os dois povos, mais os habitantes do Norte irão se questionar sobre suas condições de vida.

Por fim, há a bomba. As armas nucleares e os mísseis para usá-las foram as fiadoras do caminho de Kim até aqui. Ele realmente se sente seguro o suficiente para manter o poder sem elas? As condições históricas são bem incomparáveis, mas nunca é demais lembrar o que aconteceu ao regime de Muammar Gaddafi depois que ele abriu mão de seu programa nuclear. Como ocorreu nos anos 1990 nas negociações com o Ocidente, o processo de verificação de capacidades in loco é espinhoso e leva a desconfianças mútuas.

Isso tudo dito, obviamente é melhor para o mundo sair de um estado de pré-guerra para um de paz eventual. Se vai funcionar, é outra história.

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